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Mostrando postagens com o rótulo quarta-feira

A Orelha de Van Gogh, Moacyr Scliar

           Estávamos, como de costume, à beira da ruína. Meu pai, dono de um pequeno armazém, devia a um de seus fornecedores importante quantia. E não tinha como pagar. Mas, se lhe faltava dinheiro, sobrava-lhe imaginação… Era um homem culto, inteligente, além de alegre. Não concluíra os estudos; o destino o confinara no modesto estabelecimento de secos e molhados, onde ele, entre paios e linguiças, resistia bravamente aos embates da existência. Os fregueses gostavam deles, entre outras razões porque vendia fiado e não cobrava nunca. Com os fornecedores, porém, a situação era diferente. Esses enérgicos senhores queriam seu dinheiro. O homem a quem meu pai devia, no momento, era conhecido como um credor particularmente implacável. Outro se desesperaria. Outro pensaria em fugir, em se suicidar até. Não meu pai. Otimista como sempre, estava certo de que daria um jeito. Esse homem deve ter seu ponto fraco, dizia, e por aí o pegamos. Pe...

Biografia do Língua, Mário Lúcio Sousa

- É isto a liberdade? Há qualquer coisa de inseparável entre liberdade e solidão. Mas também há qualquer coisa de parecido entre liberdade e o amor. Serão iguais. Solidão ajuda a perceber a liberdade. Mas é em companhia que a gente a saboreia. Acho que no amor acontece o mesmo: a sós significa dois. Mas liberdade com medo, liberdade fugindo, não é liberdade, é soltura. Seja como for, não é submissão. Amor deixado para trás é amor? Liberdade nós trazemos connosco. E o amor? Também. Todos os que eu amei estão cá comigo. Ajudem-me. O meu consolo é que, pelo que eu pude perceber, um escravo fujão nunca é considerado um homem covarde. O padrinho entenderá. Espero que minha menina também. Mas vou viver sem eles toda a vida?  O Língua olhava para o seu fardo, para o incansável outro que o tinha suportado todos os dias, dizia-lhe:Aguenta-te, rapaz, não me abandones e não te abandonarei.

A Noite Em Que Houve Um Acidente, Chimamanda Ngozi Adichie

          Eu me incomodava que a perfeição da tia Chinwe estivesse determinada pelo que fazia por seu marido     A tia Chinwe estava linda com um vestido cor de pêssego. “Acho que o Emeka sempre soube!”, disse com um sorriso. No pescoço usava um colar de coral. Tinha tanta energia quanto uma atriz de teatro no dia de estreia, cheia de entusiasmo, nervosa, ansiosa de convencer seu público com a versão de si mesma que ia mostrar para eles.      Dei ao tio Emeka o enorme cartão de aniversário que tínhamos comprado e ele me abraçou. “Como você está crescendo rápido! Em seguida, começarão a chegar os pretendentes. Mas primeiro eles precisam vir pedir minha permissão!”.

Recado de Primavera, Rubem Braga

                                                                      Meu caro Vinicius de Moraes:      Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: A Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nesta Primavera — acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma Lestada muito forte, depois veio um Sudoeste com chuva e frio.   E daqui de minha casa vejo uma vaga de espuma galgar o...

O Mendigo do Viaduto do Chá, Regina Ruth Rincon Caires

     A moeda corrente era o cruzeiro. A passagem de ônibus custava sessenta centavos. O ano era 1974.       Eu trabalhava no centro da cidade, em um banco que ficava na Rua Boa Vista. Morava longe, quase ao final da Avenida Interlagos, e usava diariamente o transporte coletivo. Meu trabalho, no departamento de estatística, resumia-se a somar os números datilografados em planilhas e mais planilhas fornecidas pelas agências do banco. Somas que deveriam ser checadas, e que eram efetuadas nas antigas calculadoras elétricas com suas infernais bobinas, conferidas e grampeadas nas respectivas planilhas. Não fosse o café para espantar o sono durante as diárias e rotineiras oito horas de trabalho, nenhuma soma teria sido confirmada.

A Casa das Palavras, Marina Colasanti

     Andam dizendo que uma imagem vale mais do que mil palavras. É uma frase de efeito, com ar de modernidade. As pessoas acreditam, até repetem. Mas não é verdade. Os próprios cultores da imagem tiveram que cunhar uma frase para louvá-la, talvez por achar difícil criar uma imagem que dissesse a mesma coisa, com a mesma clareza. Felizmente, o mundo está cheio de pessoas que amam as palavras e que se encantam com elas.      E agora vou plantar aqui uma palavra que é um nome: Medellín. E sei que na cabeça de todo mundo essa palavra evoca várias outras: drogas, tráfico, cartel, violência. À distância, essas parecem ser as únicas palavras daquela cidade. Não são. Medelín - eu estive lá e sei - é uma cidade que ama especialmente as palavras.      Ali acontece todo ano um festival de poesia surpreendente, que ocorre em escolas, teatros, igrejas, praças, tudo ao mesmo tempo, e tudo lotado. ali atuava, quando lá estive, um grupo ch...

Sommelier de Silêncios, Ricardo Araújo Pereira

     Os animais têm boa imprensa. É muito raro vermos um cão com a seta para baixo, naqueles balanços que os jornais fazem sobre as figuras que estiveram mal na semana, ou um gato criticado no editorial.      N ão é que os cães e gatos não tenham opiniões estúpidas. eles só não a verbalizam. Um imbecil calado consegue camuflar durante muito tempo tempo sua condição de imbecil. Os meus cães, por exemplo, têm a opinião de que meu gramado fica melhor com buracos. E parece-me que a minha gata considera que seria interessante  saber que aspecto teriam meus olhos se tirados do crânio.       Sucede que eles não proferem essas opiniões. Nas fábulas, os animais são ressentidos, altivos, dissimulados, manhosos, vingativos, avarentos, egoístas, velhacos. na vida real são adoráveis. A diferença é que nas fábulas, eles falam.

Rapadura, Rachel de Queiroz

     Outro dia foi presa uma senhora porque numa banca de mercado, em pleno sábado de feira, agrediu a rival com uma rapadura, dando-lhe uma tijolada que exigiu doze pontos no couro cabeludo. Rapadura é arma perigosa, um paralelepípedo de doce bruto, pesado e com arestas. Batendo de quina pode até matar.      A banca de rapadura era o local de comércio do próprio marido da agressora. Vinha ela descuidosa, passando ali por acaso, e de repente depara com o quadro ofensivo: o marido em idílio público com a dalila, a messalina, a loba do seu lar! Ela debruçada ao balcão e ele, de dentro, segurava o queixo da sereia e lhe cochichava no ouvido. O monte de rapaduras estava ao lado. Foi só passar a mão na rapadura de cima e virá-la de quina, para castigar mesmo, no pé do ouvido da outra. A agredida se pôs a gritar, com a cara coberta de sangue, e o infiel asperamente ralhou: “Cala a boca, mulher, senão aparece a polícia”.

Independência e Sorte, Mário Persona

       Gosto de ensinar. É gratificante poder dar algo a alguém. Principalmente conhecimento, que você não subtrai quando divide. Mas soma e multiplica. Hoje ensino marketing para universitários. Mas já lecionei de tudo um pouco numa escola secundária.           Foi há mais de vinte anos, quando era professor voluntário no mais interior dos interiores. Muito além das Gerais dos Inconfidentes.        Eu era um dos quatro únicos professores formados, numa cidade onde o quinto diplomado era o Tiradentes local. Um título que lhe cabia bem, em meio às tantas cavidades daquela descalcificada população. Tamanha era a independência de dentes proclamada pelas bocas locais, que até algumas dentaduras postiças sorriam suas vagas.         Com minha esposa e um casal de jornalistas, éramos os estrangeiros do lugar. Jovens empre...

Edmundo, o Céptico, Cecília Meireles

          Naquele tempo, nós não sabíamos o que fosse cepticismo. Mas Edmundo era céptico. As pessoas aborreciam-se e chamavam-no de teimoso. Era uma grande injustiça e uma definição errada.      Ele queria quebrar com os dentes os caroços de ameixa, para chupar um melzinho que há lá dentro. As pessoas diziam-lhe que os caroços eram mais duros que os seus dentes. Ele quebrou os dentes com a verificação. Mas verificou. E nós todos aprendemos à sua custa. (O cepticismo também tem o seu valor!)      Disseram-lhe que, mergulhando de cabeça na pipa d’água do quintal, podia morrer afogado. Não se assustou com a idéia da morte: queria saber é se lhe diziam a verdade. E só não morreu porque o jardineiro andava perto.      Na lição de catecismo, quando lhe disseram que os sábios desprezam os bens deste mundo, ele perguntou lá do fundo da sala: “E o rei Salomão?” Foi precis...

Histórias de Trens, Nílva Basílio.

      São tão claros os presságios e os encontros dessa vida Quando as partes combinadas surgem numa mesma estrada..." (em Pequenina, cantada por Xangai, autor Renato Teixeira)      Os trens se cruzaram e pararam antes de chegar á plataforma da estação. Isto acontece frequentemente. Passageiros de um e outro aproveitam estes momentos para se olharem, se avaliarem, através das janelas tipo guilhotina.  O casal se reconheceu naquele dia.       Já haviam se visto outras vezes, cada um a seu modo atraído pela figura do outro. O soldadinho bem apanhado, no rosto um quê de quem vive de bem com a vida. A moça séria, jeitosa, muito bem arrumada, nos saltos - embora na volta do trabalho ela já esteja se achando meio decomposta. Ele lhe disse, mais tarde, que a achara bonita, e ela, no fundo, no fundo, acredita, com um tiquinho de modéstia. Sempre fora cuidadosa com a aparência, copiando os modelos das...

A Casa Materna, Vinícius de Moraes

     Imagem: Regina Porto      Há, desde a entrada, um sentimento de tempo na casa materna. As grades do portão têm uma velha ferrugem e o trinco se oculta num lugar que só a mão filial conhece. O jardim pequeno parece mais verde e úmido que os demais, com suas palmas, tinhorões e samambaias que a mão filial, fiel a um gesto de infância, desfolha ao longo da haste.      É sempre quieta a casa materna, mesmo aos domingos, quando as mãos filiais se pousam sobre a mesa farta do almoço, repetindo uma antiga imagem. Há um tradicional silêncio em suas salas e um dorido repouso em suas poltronas. O assoalho encerado, sobre o qual ainda escorrega o fantasma da cachorrinha preta, guarda as mesmas manchas e o mesmo taco solto de outras primaveras. As coisas vivem como em prece, nos mesmos lugares onde as situaram as mãos maternas quando eram moças e lisas. Rostos irmãos se olham dos porta-retratos, a se amarem e ...

Inverno de Uma Semana, Porã.

     Sou daqueles que têm as piores impressões do inverno. Não me venha com esse papo de “inverno inesquecível”, porque pra mim não cola. Todos os invernos são “esquecíveis”. É muito frio. Não dá. Poderia ser uma semana só, que já tava bom.      A estação gelada altera o humor das pessoas, e pra pior, é claro! São ondas intensas de mau humor em meio as massas polares. O bom dia, o sorriso, a gentileza ficam cada vez mais raros. Estamos todos carrancudos, contrariados, encarangados e retraídos por causa do frio. Não é uma estação simpática. Há quem goste e curta os prazeres do inverno.      Vinho, chocolate quente, lareiras em chamas, fondues e viagens à Serra... Isso é muito pouco perto do desconforto que nos traz o frio. Até pra fazer amor fica mais complicado. Bom é ter dinheiro pra curtir o verão no Hemisfério Norte, mas infelizmente, ainda não o tenho.      Acordar cedo é sacanagem. Faço...

Cajus azuis? Regina Porto

     Faltam 4 dias para terminar o prazo e eu aqui nesse branco total. Tenho que escrever um conto e não consigo. Nem é tão difícil assim. Duas páginas com espaço um e meio. Mas acontece que faz sol, está ventilado e eu preciso sair para pagar o cartão de crédito. Passou do vencimento justamente por sua causa.      - E por que não sobre mim?     Mas me falta é imaginação! Sei que você foi do Partidão, viveu exilada coisa e tal mas hoje em dia, a não ser que eu fosse bastante experiente e criativo para falar disso colocando mil fantasias, sua história não desperta interesse algum. Afinal, a narração de uma tortura já não atrai mais ninguém. Eu mesmo achei mais interessante você contar que, por indignação com o entusiasmo dos ingleses diante da chegada da primavera, mentiu descaradamente para eles sobre o Brasil.      - Quem está mentindo é você, agora.      - E desde quando no B...