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Mostrando postagens com o rótulo Paulo Mendes Campos

O Amor Acaba, Paulo Mendes Campos

O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos; e no olhar do cavaleiro errante que passou pela pensão; às vezes acaba o amor nos braços torturados de Jesus, filho crucificado de todas as mulheres; mecanicamente, no elevador, como se lhe faltasse energia; no andar diferente da irm...

Segredo, Paulo Mendes Campos.

            Há muitas coisas que a psicologia não nos explica. Suponhamos que você esteja em um 12º andar, em companhia de amigos, e, debruçando-se à janela, distinga lá em baixo, inesperada naquele momento, a figura de seu pai, procurando atravessar a rua ou descansando em um banco diante do mar. Só isso. Por que, todo esse alvoroço que visita a sua alma de repente, essa animação provocada pela presença distante de uma pessoa de sua intimidade? Você chamará os amigos para mostrar-lhes o vulto de traços fisionômicos invisíveis: " Aquele ali é meu pai". E os amigos também hão de sorrir, quase enternecidos, participando um pouco de sua glória pois é inexplicavelmente tocante ser amigo de alguém cujo pai se encontra longe, fora do alcance do seu chamado.      Outro exemplo: você ama e sofre por causa de uma pessoa e com ela se encontra todos os dias. Por que então, quando esta pessoa aparece à distância, em hora desco...

Fábula Eleitoral Para Crianças, Paulo Mendes Campos

Gavião de penacho - Spizaltus ornatus      Um dia, meninos, as coisas da natureza quiseram eleger o rei ou a rainha do universo. Os três reinos entraram logo a confabular. Animais, vegetais e minerais começaram a viver uma vida agitada de surtos eloquentes, manobras, recados furtivos, mensagens cifradas, promessas mirabolantes, ardis, intrigas, palpites, conversinhas ao pé do ouvido. Iam eleger o rei dos três reinos.      Entre os bichos, era um tumulto formidável. Bandos de periquitos saíam em caravana eleitoral, matilhas de cães discursavam dentro da noite, cáfilas de camelos percorriam os desertos, formigas realizavam comícios fantásticos, a rainha das abelhas zumbia com o seu séquito, sem falar no baile  dos peixes, nos lobos em festival  pelo monte, na barafunda  de búfalos pela savana, na revoada instantânea dos pombos-correios.        Todas as qualidades eram postas à prova:...

Quem Dá e Volta a Tomar...., Regina Porto

     Vira as costas para o mar.         Além de perder a bela visão, não sei qual o castigo que pode sofrer alguém que, por ventura, dê as costas para o mar.  Minha mãe, de quem ouvi o provérbio português, também não sabia...      Bem, morando em cidade litorânea tenho mais chances de estar de frente, como agora que tenho a Oceano Atlântico numa visão de 180°, mas ocasionalmente vou ficar de costas para o mar, mesmo que não tivesse pedido de volta algo que dei há 37 anos.         Regina, que coisa feia!! Deu e  tomou? Sim, dei um livro lá longe em anos passados e pedi de volta. Não queria sabê-lo abandonado sem leitura transformado em pó pelas traças.       Com o exemplar nas mãos, me vi muito muito jovem, estudante na Unicap* .  Lembro muito bem: professora Irandé, cobrava lição, explicava gramática a partir daquelas crônicas. Era exigente, mas amável e...

Menino de Cidade, Paulo Mendes Campos

           Papai, você deixa eu ter um cabrito no meu sitio?      Deixo.      E porquinho-da-índia? E ariranha? E macaco? E quatro cachorros? E duzentas pombas? E um boi? Um rinoceronte?      Rinoceronte não pode.      Tá bem, mas cavalo pode, não pode?      O sítio é apenas um terreno do Estado do Rio, sem maiores perspectivas imediatas. Mas o garoto precisa acreditar no sítio como outras pessoas precisam acreditar no céu. O céu dele é exatamente o da festa folclórica, a bicharada toda, e ele, que nasceu no Rio e, de má vontade, vive nesta cidade sem animais.      Aliás, ele mesmo desmente que o Rio seja uma cidade sem bicho, possuindo o dom de descobri-los nos lugares mais inesperados. Se entra na casa de alguém, desaparece ao transpor a porta, para voltar depois de três segundos com um gato ou cacho...

Para Maria da Graça,Paulo Mendes Campos

       Agora, que chegaste à idade avançada de quinze anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no país das maravilhas. Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti. Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas.      Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade. A realidade, Maria, é louca. Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade, Dinah, já comeste um morcego?"      Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é o lugar-comum de cada história de gente. Qua...

Infância,Paulo Mendes Campos

Há muito, arquiteturas corrompidas, Frustrados amarelos e o carmim De altas flores à noite se inclinaram Sobre o peixe cego de um jardim. Velavam o luar da madrugada Os panos do varal dependurados; Usávamos mordaças de metal Mas os lábios se abriam se beijados. Coados em noturna claridade, Na copa, os utensílios da cozinha Falavam duas vidas diferentes, Separando da vossa a vida minha. Meu pai tinha um cavalo e um chicote; No quintal dava pedra e tangerina; A noite devolvia o caçador Com a perna de pau, a carabina. Doou-me a pedra um dia o seu suplício. A carapaça dos besouros era dura Como a vida — contradição poética — Quando os assassinava por ternura. Um homem é, primeiro, o pranto, o sal, O mal, o fel, o sol, o mar — o homem. Só depois surge a sua infância-texto, Explicação das aves que o comem. Só depois antes aparece ao homem. A morte é antes, feroz lembrança Do que aconteceu, e nada mais Aconteceu; o resto é esperança. O que comigo se passou e pa...