Perguntaram-me um dia destes ao telefone por que não escrevia poesia (ao menos um poema) sobre os meus gatos; mas quem se interessaria pelos meus gatos, cuja única evidência é serem meus (digamos assim) e serem gatos (coisa vasta, mas que acontece a todos os da sua espécie)? Este poderia (talvez) ser um tema (talvez até um tema nobre), mas um tema não chega para um poema nem sequer para um poema sobre; porque é o poema o tema, forma apenas. Depois, os meus gatos escapam demais à poesia, ou de menos, o que vai dar ao mesmo, são muito longe ou muito perto, e o poema precisa do tempo certo de onde possa, como o gato, dar o salto; o poema que fizesse faria deles gatos abstractos, literários, gatos-palavras, desprezível comércio de que não me orgulharia (embora a eles tanto lhes desse). Por fim, não existem “os meus gatos”, existem uns tantos gatos-gatos, um gato, outro gato, outro gato, que por um expediente singular...
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