A loja de artigos esportivos tem as paredes forradas por fotos de jovens correndo, escalando montanhas, remando canoas. O supermercado exibe cartazes com casais brindando, crianças babando sorvete, velhinhos comendo mamão. A confecção da esquina expõe as roupas na vitrine em manequins, como se fossem uma turma de amigos a contemplar a paisagem. Todo o comércio se esmera em criar um climinha em torno do produto, em imitar os ambientes e situações em que ele será usado: só as lojas de colchão é que não. Nesses cubos brancos, banhados de luz fria, os colchões são expostos nus, sem direito sequer a lençol, sobre camas em que ninguém dormiu nem dormirá - e isso me deixa triste como o diabo. É o colchão, não o cachorro, o melhor amigo do homem. Do colchão viemos, ao colchão voltaremos, se não na última de nossas noites, aquela que não verá aurora, ai menos ao fim de cada dia, quando esgotados pela vigília e purificados pelo banho, sonhamos com mulhere...
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