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Mostrando postagens com o rótulo velhice

Melhor Idade É A Puta Que Te Pariu, Ruy Castro

Melhor idade é a puta que te pariu – a melhor idade é de 18 aos 40 anos… A voz em Congonhas anunciou: "Clientes com necessidades especiais, crianças de colo, melhor idade, gestantes e portadores do cartão tal terão preferência etc.". Num rápido exercício intelectual, concluí que, não tendo necessidades especiais, nem sendo criança de colo, gestante ou portador do dito cartão, só me restava a "melhor idade" – algo entre os 60 anos e a proximidade da morte. Para os que ainda não chegaram a ela, "melhor idade" é quando você pensa duas vezes antes de se abaixar para pegar o lápis que deixou cair e, se ninguém estiver olhando, chuta-o para debaixo da mesa. Ou, tendo atravessado a rua fora da faixa, arrepende-se no meio do caminho porque o sinal abriu e agora terá de correr para salvar a vida. Ou quando o singelo ato de dar o laço no pé esquerdo do sapato equivale, segundo o João Ubaldo Ribeiro, a uma modalidade olímpica. Privilégios da "melhor idade" ...

A Casa do Homem Verde, Marcos Cirano

É uma casa aonde hoje não chega ninguém. Onde só as formigas e algumas mariposas passeiam e voam por entre móveis antigos e velhos retratos de antepassados do atual e solitário morador do imóvel. Aliás, imóvel é o termo perfeito para definir aquela casa. Uma casa onde já não se ouvem músicas. Onde nenhuma risada interrompe o incômodo silêncio da solidão e onde nada, ou quase nada mais acontece. Uma casa onde um centenário relógio, na parede da sala, não marca mais as horas: deixou de funcionar faz exatos 23 anos e dois meses - mesmo tempo em que a última visita por ali andou e nunca mais voltaria. A casa é isolada, sim. Mas, não a ponto de ser um local de difícil acesso. Erguida numa pequena chácara, tem outras casas por perto, onde vive uma gente feliz e alegre. De modo que não é a casa que afasta as pessoas. A casa é a grande testemunha da amargurada vida do seu morador - único sobrevivente de uma família, digamos assim: não rica, mas uma família de algumas posses e que, outrora, ali...

Conto Familiar, Mário Quintana

     Era um velho que estava na família há noventa e nove anos, há mais tempo que os velhos móveis, há mais  tempo até que o velho relógio de pêndulo. Por isso estava ele farto dela, e não contrário, como poderiam supor. A família o apresentava aos forasteiros, com insopitado orgulho: "Olhem! Vocês estão vendo como 'nós 'duramos?!".       Caduco? Qual nada! Tinha lá suas  ideias. Tanto que, numa dessas grandes comemorações domésticas, o pobre velho envenenou o barril de chope.      No entanto, como era obviamente impraticável - a não ser em novelas policiais- deitar veneno nas bebidas engarrafadas, apenas sobreviveram os inveterados bebedores de Coca-Cola.      - Mas como é possível - lamentava-se agora tardiamente o pobre velho - como é possível passar o resto da vida com esses? Com gente assim? Porque a Coca-Cola não é verdadeiramente uma bebida - concluiu ele - a Coca-Cola é um estado de espírito...   ...

Um Gentil Ladrão, Mia Couto

      A minha falecida mulher dizia que a culpa era nossa porque escolhemos viver longe dos lugares onde há hospitais. Ela, coitada, não sabia que era o inverso: os hospitais é que se instalam longe dos pobres. É uma mania deles, dos hospitais      Batem à porta. Bater é uma maneira de dizer. Moro longe de tudo, só a fome e a guerra me vêm visitar. E agora, na eternidade de mais uma tarde, alguém fuzila com os pés a porta da minha casa. Vou a correr. Correr é uma maneira de dizer. Arrasto os pés, os chinelos rangendo no soalho. Com a minha idade, é tudo o que posso. A gente começa a ficar velho quando olha o chão e vê um abismo.      Abro a porta. É um homem mascarado. Ao notar a minha presença, ele grita – Três metros, fique a três metros!      Se é um assaltante, está com medo. Esse temor inquieta-me. Ladrões medrosos são os mais perigosos. Retira da bolsa uma pistola. Aponta-a na minha direção. É estranha aquela arma: ...

Nascida em 10 de dezembro: Clarice Lispector.

    Feliz Aniversário        A família foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria estavam muito bem vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio a Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite de paetês e um drapeado disfarçando a barriga sem cinta. O marido não veio por razões óbvias: não queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados — e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que não precisava de nenhum deles, acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, infantilizadas em babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino acovardado pelo terno novo e pela gravata.Tendo Zilda — a filha com quem a aniversariante morava — disposto cadeiras unidas ao longo das paredes, como numa festa em que se vai dançar, a nora de Olaria, depois de cumprimentar com cara fechada aos de casa, aboletou-se numa das cadeiras e emudeceu, a boca em ...

Segunda-feira poética: Carta de Idalzira Para Joan

Minha casa era hospedagem Dos que moravam por fora Homem, criança e senhora Faziam camaradagem Todos fizeram viagem Em busca de outro torrão Deixando meu coração Cheio de saudades somente De uma casa cheia de gente Só resta um gato e um cancão. Foram embora meus cunhados Meus sobrinhos, meus amigos Foram enfrentar os perigos Que existe em outros estados Hoje estão espalhados Me dando recordação Vivo nesta solidão Velha, cansada e doente De uma casa cheia de gente Só resta um gato e um cancão. Fomos quatro irmãos unidos Todos morando por perto Porém Jesus achou certo Que ficássemos divididos Por isto fomos escolhidos Para esta separação A mana do coração Foi embora primeiramente De uma casa cheia de gente Só resta um gato e um cancão. Também um filho casado Minha nora carregou Meus netos também levou Ac...

Não Entre Na Noite Pra Se Render, Dylan Thomas

Não entre na noite pra se render Imagem: Regina Porto Velhice é pra arder até o fim, Lute, lute para a luz não morrer. O sábio aceita bem o escurecer Mas tem palavras de luz e por fim Não entra na noite pra se render. O justo, que ao partir irá sofrer Porque não lhe coube um melhor jardim, Luta, luta para a luz não morrer. O rude que põe o sol pra correr, E vê tarde demais o que é ruim, Não entra na noite pra se render. O sério, ao pé da morte, já sem ver, Acesos os olhos, alegre enfim, Luta, luta para a luz não morrer. E você meu pai, triste de se ver, Amaldiçoe, abençoe-me assim. Não entre na noite pra se render, Lute, lute para a luz não morrer. De: Do not go gentle into that good nigth. Tradução; Jorge Pontual Dylan Thomas era um escritor inglês, leia aqui sobre ele.

Noventa e Três, Mia Couto

                                                                                          Foram entrando um por um. O velho estava na cabeceira, cabeceando. À medida que entravam alguém anunciava os nomes, descrevendo em alta voz o jeito dos vestidos. Os netos encheram a sala, os bisnetos sobraram no quintal. O avô levantava um olhar silencioso, sem luz. Sorria o tempo todo: não queria cometer indelicadeza.O avô fingia , aniversariamente. Porque em nenhum outro dia os outros dele se recordavam. Deixavam-no poeirando com os demais objetos da sala.      Esta noite, as prendas se juntam e ele apalpa os embrulhos. O seu gesto n...

Maravilhosos Cabelos de Algodão - Galeria

           Notei que algumas das personalidades de que gosto bastante têm em comum os cabelinhos de algodão. Fiz, afetivamente, uma galeria deles e o mais novo integrante, completa hoje 97 anos. Trata-se  do escritor mato-grossense Manoel de Barros ,                                         Este criativo escritor de estilo personalíssimo nasceu em Cuiabá, tem uma obra imperdível que este blog já trouxe em Caso de Amor   e, mais recentemente, em Parrrede! Outro talento de cabelos brancos em minha galeria  não é escritor. Aliás, não escreve com palavras, mas faz poemas ou crônicas, com bronze, cimento, argila. Exagerado em talento também arrasa com pincéis e nanquim. Tive o prazer de conhecê-lo e  posso garantir que Abelardo da Hora , hoje com 89 anos, é uma pessoa interessantíssima. Falante, arguto e excelente contador de histór...

Os Tímidos Se Anulam, Antonio Falcão.

     A bibliotecária conheceu o jornalista estrangeiro na internet. Mas só bem depois, em conta-gotas, soube que ele era aposentado e viúvo. Com indizível acanhamento, o tal também quis conhecê-la. “Sou divorciada, tenho filhos que me deram netos e me aposentarei o ano que vem para visitar o mundo, inclusive seu país”, disse a fórceps a retraída. Decorrido uns meses, os dois trocaram fotos e o viúvo, mais à vontade, revelou que publicara um romance e um livro de ensaios. As obras foram remetidas ao acervo da biblioteca onde a divorciada trabalha. E ela, sem dificuldade para ler em espanhol, devorou os livros de um fôlego e com enorme prazer.       Mais adiante, o estrangeiro disse que escrevera alguns contos para em breve editá-los. E como exemplo enviou um deles por e-mail, pedindo que ela opinasse sobre a qualidade literária. O texto narra que um homem e uma mulher se conhecem jogando cartas e que, surrealmente insuflados por ...

Prêmio Portugal Telecom 2012

O grande vencedor do Portugal Telecom deste ano é  o escritor, artista plástico e gato valter hugo mãe. O autor é angolano e tem várias obras incluisive em literatura infanti. Na noite deste dia 26  valter hugo mãe foi vencedor da categoria romance e também levou o Grande Prêmio Portugal Telecom (o melhor livro). O livro premiado é A Máquina de Fazer Espanhóis. Os brasileiros Nuno Ramos   e  Dalton Trevisan foi vencedores nas  categoria poesia e  contos respectivamente. A partir do ocaso de António Jorge da Silva, barbeiro de 84 anos que é depositado em um asilo depois de perder a mulher, Mãe analisa a decadência de um país. As lembranças do narrador, o próprio Silva, são de um imenso Portugal, robusto e potente, diferente da frágil economia que ele se tornou sob o chapéu da União Europeia. O título do livro é metáfora desse novo país, que injeta em seus habitantes um sentimento de inferioridade diante da sempre rival Espanha e o desejo ...