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Mostrando postagens com o rótulo Mauro Mota

Construção, poema de Mauro Mota

"Orgulho-me do meu curso de indigência." (De uma carta do poeta José Maria Cerqueira) Vem vindo José Maria, vem de São Bento do Una, vestido de roupa cáqui e de botinas reiúnas. No conselho da família, só encontra hierarquia do avô cabo de polícia. O pai na barbearia do povoado trabalha, mal completa o pagamento da prestação da navalha. Vem vindo José Maria, o amarelinho de São Bento do Una, sem genealogia. Vem montado no jumento. Saiu da escola. ( Não tinha nem livros nem fardamento. Aprendeu a ler sozinho.) Oh, que infância sem infância. essa de José Maria! Entrava na terra o casco do seu cavalo de pau, que o cabo da enxada era a escoiceante montaria. tirava leite das vacas, mas o leite não bebia. Os animais da fazenda, com que doçura tangia! Carregava areia e lenha com o gosto do engenheiro que uma obra construía. Foi bicheiro e negociante de passarinhos na feira. Vendeu frutas e roletas nas festas da Padroeira. Lavou frascos de botica, lavou os pratos do hotel, fez os ser...

O Boi de Barro, poema de Mauro Mota

A abelardo Rodrigues Andando em muitos sapatos e jamais nas suas patas, entre enormes chifres curvos sente-se ( o boi) entre aspas. É um boi verde vidrado acuado em cima da estante. É um boi desenterrado, telúrico e ruminante. Quem o desenterrou foi Abelardo em Tracunhaém. No barro da beira-rio estava escondido o boi desgarrado do rebanho. Feito do gado anterior, de estrume e de capim seco, é este boi ruminador. Estava desfeito ou feito? No ato da exumação, apareceram sangrantes as feridas do aguilhão, da corda e do pau da canga da asfixia do cambão, de ferro em brasa nas ancas da chaga da castração. As quatro rodas chiadeiras do carro que já puxara rodaram sobre o esqueleto, fizeram sulcos na cara. A semente vacum dentro do chão mole do curral. O boi vegetariano, vegetal e mineral, comeu do pasto e foi pasto, misturou-se com o chão para nascer no roçado, oculto na plantação, dando marradas no vento da várzea pernambucana, esse boi de chifres doces, chifres de cana-caiana. Toca o cho...

Natal, Mauro Mota

Árvore de natal, Pça do Derby, Recife.Imagem:Regina Porto Natal, antes e agora Imutável. Feliz Noite branca sem hora No pátio da matriz. Natal: os mesmos sinos De repiques iguais. Brinquedos e meninos. Natal de outros natais. A Banda, vozes, passos De multidão fiel. Tudo nos seus espaços, O mundo e o carrossel. Tudo, menos o andejo homem que se conclui. Olho-me, e não me vejo, Não sei para onde fui. Itinerário, Mauro Mota,1975

Eu e os Poetas do Recife, Carlos Pena Filho

                  Saio da visita ao poeta Mauro Mota , para ver Carlos Pena Filho que está lá na Praça da Independência , conhecida por Pracinha. A estátua do poeta está lá porque é o lugar mais próximo ao Bar Savoy (já não existe) citado no poema: CHOPP Na avenida Guararapes, o Recife vai marchando. O bairro de Santo Antonio, tanto se foi transformando que, agora às cinco da tarde, mais se assemelha a um festim. Nas mesas do Bar Savoy, o refrão tem sido assim: São trinta copos de chope, são trinta homens sentados, trezentos desejos presos, trinta mil sonhos frustrados. Ah, mas se a gente pudesse fazer o que tem vontade: espiar o banho de uma, a outra, amar pela metade e daquela que é mais linda quebrar a rija vaidade. Mas como a gente não pode fazer o que tem vontade, o jeito é mudar a vida num diabólico festim. Por isso no Bar Savoy, o refrão é sempre assim: São trinta copos de chope, são trinta homens sentados, trezentos d...

Eu e os Poetas do Recife, Mauro Mota

 Quem encontrei na Praça do Sebo, no Recife?  Mauro Mota! Vestindo, literalmente, a camisa da revitalização do lugar.  Poetas, eu penso, vivem assim noutra dimensão... Confesso que só agora por causa do blog estou descobrindo esse autor que nasceu há 103 anos na cidade de Nazaré da Mata em Pernambuco.  Ele foi imortal da ABL, ocupante da cadeira 26 que hoje está com Marcos Vilaça. Minha filha gentilmente me acompanhou  nesse passeio pelo circuito da poesia. Não lembro o que tinha nesse livro, então vou postar: Diálogo Com Carlos Pena Filho No Primeiro Aniversário De Sua Partida do Recife  - Carlos, foste há um ano? -Nem me lembro! Nesse julho de chuva não me fui. Estou. Meu calendário é de setembro, da mesa do "Savoy": Caio,Zé, Rui. Das casuarinas lá na minha rua 13 de maio - Carlos, de que mais? - Da lagoa do carro E o sangue e a tua  ida (para onde?) que hoje um ano faz? - o remo é azul, azul é o pass...