Pular para o conteúdo principal

O Pecado do Rio, poema de Mia couto


Na igreja,
Rosarinho se confessou:
engravidei do rio, senhor padre.

Com gesto de água
arredondou o ventre.

O padre
se enrugou:
ela que não usasse desculpa
para os seus mortais pecados.

A ofensa tremia
na voz dela quando retorquiu:
- Desculpe, padre,
mas Nossa Senhora
não emprenhou de um feixe de luz?


Para mais, acrescentou Rosarinho,
o senhor padre
nem nunca, nem jamis viu esse rio.
E rematou
com lânguida saudade: aquele ondear,
as tonturas que ele traz...


Pegou o padre pela mão
e o convidou para descer o vale.

Agora,
todas as noites
o padre se banha
nas águas do rio pecador.




Mia Couto Poemas Escolhidos, cia das Letras 2016 págs. 44-45

em: págs. 44-45

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Beleza Total, Carlos Drummond de Andrade.

A beleza de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante de seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. Era impossível, de tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil estilhaços. A moça já não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e estes, por sua vez, perdiam toda a capacidade de ação. Houve um engarrafamento monstro, que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para casa. O Senado aprovou lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe, pois o mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito. Gertrudes não podia fazer nada. Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e um di...

O Mendigo do Viaduto do Chá, Regina Ruth Rincon Caires

     A moeda corrente era o cruzeiro. A passagem de ônibus custava sessenta centavos. O ano era 1974.       Eu trabalhava no centro da cidade, em um banco que ficava na Rua Boa Vista. Morava longe, quase ao final da Avenida Interlagos, e usava diariamente o transporte coletivo. Meu trabalho, no departamento de estatística, resumia-se a somar os números datilografados em planilhas e mais planilhas fornecidas pelas agências do banco. Somas que deveriam ser checadas, e que eram efetuadas nas antigas calculadoras elétricas com suas infernais bobinas, conferidas e grampeadas nas respectivas planilhas. Não fosse o café para espantar o sono durante as diárias e rotineiras oito horas de trabalho, nenhuma soma teria sido confirmada.

Vamos Pensar? (31)