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Mostrando postagens com o rótulo flores

Flores, poema de Adélia Prado

A boa-noite floriu suas flores grandes, parecendo saia branca. Se eu tocasse um piano elas dançavam. Fica tão bom o mundo assim com elas, que nem me desprezo por querer marido. Perfumam a noite. A gaita de um menino que nunca morre toca erradinho e doce. Eu cumpro alegremente minhas obrigações paroquiais e não canso de esperar; mais hoje; mais amanhã, qualquer coisa esplêndida acontece: as cinco chagas, o disco voador,o poeta com seu cavalo relinchando na minha porta. Desejava tanto tomar bênção de pai e mãe, juntr uns pios, umas nesgas de tarde, um balançando de tudi que balança no vento e tocar na flauta. É tão bom que nem ligo que Deus não me conceda ser bonita e jovem ( um dos desejos mais fundos da minha alma) "O Espírito de Deus pairava sobre as águas..." Sobre o meu, pairam estas flores e sou mais forte que o tempo. Em: O coração disparado, Ed. Salamandra 1984, pág.23

Clarice Lispector - Dia Nacional da Tulipa

  “A  sempre-viva é sempre morta.Sua secura tende à eternidade.O nome em grego quer dizer sol de ouro.  A margarida é florzinha alegre.É simples e à tona da pele,Só tem uma camada de pétalas.O centro é uma brincadeira infantil. A formosa orquídea é exquise e antipática.   Não é espontânea.Requer  redoma.Mas é mulher esplendorosa e isto não se pode negar.Também não se pode negar que é nobre porque é epífita.Epífitas nascem sobre outras plantas sem contudo tirar delas a nutrição. Estava mentindo quando disse que era antipática.Adoro orquídeas.Já nascem artificiais, já nascem arte. Tulipa é tulipa na Holanda.Uma única tulipa simplesmente não é. Precisa de campo abert o para ser.” Clarice.Água viva .Rio de Janeiro: editora. Artenova,1973 Nota:Na Holanda comemora-se o dia nacional das tulipas no terceiro sábado de janeiro. A temporada de Tulipa nos Países Baixos começa com a celebração espetacular do Dia Nacional de Tulipa na Praça Dam em Amesterdão. O impressio...

As Flores, Leon Eliachar

Há dois meses que Iracema recebia flores, sem cartão. Colocava tudo nas jarras, vasos, copos; mesas, janelas, banheiro e até na cozinha. Quando o marido lhe perguntava por que tantas flores, todos os dias, ela sorria: — Deixe de brincadeira, Epitácio. Ele não percebia bem o que ela queria dizer, até que um dia: — Epitácio, acho bom você parar de comprar tanta flor, já não tenho mais onde colocar. Foi aí que ele compreendeu tudo: — O quê? Você quer insinuar que não sabia que não sou eu quem manda essas flores? Foi o diabo, ela não sabia explicar quem mandava, ele não conseguia convencê-la de que não era ele. — Um de nós dois está mentindo — gritou, furioso. — Então é você — rebateu ela. No dia seguinte, de manhã, ele decidiu não sair, pra desvendar o mistério. Assim que as flores chegassem, a pessoa que as trouxesse seria interpelada. Mas não veio ninguém: — Já são duas horas da tarde e as flores não chegaram, Epitácio. É muita coincidência. Vai me dizer que não era você. Ele não tinha...

Agora Eu Quero Falar de Flores, Raquel de Queiroz

     Flor tem moda como roupa de mulher. E as plantas do tempo antigo, flores, folhagens e ervas de cheiro, ninguém as cultiva mais. Agora são só aqueles estúpidos fícus italianos que parecem feitos de plástico, os antúrios e até tulipas. Hoje em dia, principalmente nas cidades grandes, acabaram-se os manjericões. E as manjeronas, e as alfavacas e de modo geral todas as ervas cheirosas. Quem é que ainda planta alecrim? Quem é que ainda conhece malva-rosa? Rosas, já cultivei rosas quando morava na Ilha do Governador, e era um problema obter mudas das velhas rosas tradicionais dos jardins brasileiros. Rosas Paul-Neron que o povo chama de Palmeirão, Rosa Amélia com seu tom de rosa-claro, verdadeiro cor-de-rosa. Rosas de cacho com que as moças gostavam de enfeitar os cabelos. Rosas mariquinhas, que em linguagem de catálogo, se chamam com um nome horrível - floribundas - e que hoje só aparecem nas suas variedades mais complicadas. Rosas príncipe-negro, como se feitas de velud...

A Hora Íntima, Vinícius de Moraes

Quem pagará o enterro e as flores Se eu me morrer de amores? Quem, dentre amigos, tão amigo Para estar no caixão comigo? Quem, em meio ao funeral Dirá de mim: — Nunca fez mal... Quem, bêbado, chorará em voz alta De não me ter trazido nada? Quem virá despetalar pétalas No meu túmulo de poeta? Quem jogará timidamente Na terra um grão de semente? Quem elevará o olhar covarde Até a estrela da tarde? Quem me dirá palavras mágicas Capazes de empalidecer o mármore? Quem, oculta em véus escuros Se crucificará nos muros? Quem, macerada de desgosto Sorrirá: — Rei morto, rei posto... Quantas, debruçadas sobre o báratro* Sentirão as dores do p...

Flores para Moacyr

Não vou postar nada sobre Moacyr Sclia r, recentemente falecido. Toda a imprensa vai fazer isso muito melhor que eu. Datas, obras, tudo pode ser encontrado a um clic da mão de qualquer pessoa. Venho aqui apenas pra dizer de minha tristeza. Tinha enorme carinho pelo gaucho que conheci em crônicas da Folha de São Paulo e depois pelo livro O Texto, ou: A Vida emprestado por outro gaucho. Moacyr Scliar me passava a ideia de uma pessoa generosa e que gostava de procurar pelo começo das coisas. Parecia ter tomado para si, na vida, alguns procedimentos da medicina. O buscar dos porquês. Não nego que pode parecer infantil  mas além de gostar do escritor, gostava da pessoa pelo que me parecia ser o Moacyr. Então escolhi flores para me despedir dele. Girassóis, minha flor predileta porque busca naturalmente a luz e, generosa, transmite beleza e energia.  Obrigada, carequinha. Meus girassóis pra você. Regina

Trovoa - Maurício Pereira

Minha cabeça trovoa sob meu peito te trovo e me ajoelho destino canções pros teus olhos vermelhos flores vermelhas, vênus, bônus tudo o que me for possível ou menos(mais ou menos)me entrego, ofereço reverencio a tua beleza física também mas não só não só graças a Deus você existe acho que eu teria um troço se você dissesse que não tem negócio te ergo com as mãos sorrio mal mal sorrio meus olhos fechados te acossam fora de órbita descabelada diva súbita…súbita…seja meiga, seja objetiva seja faca na manteiga pressinto como você chega ligeira vasculhando a minha tralha bagunçando a minha cabeça metralhando na quinquilharia que carrego comigo(clipes, grampos, tônicos):toda a dureza incrível do meu coração feita em pedaços…minha cabeça trovoa sob teu peito eu encontroa calmaria e o silênciono portão da tua casa no bairro famílias assistem tevê(eu não)às 8 da noite eu fumo um marlboro na rua como todo mundo e como você eu sei quer dizer eu acho que sei…eu ...