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Mostrando postagens com o rótulo Regina Ruth Rincon Caires

O Pecado da Língua Comprida, Regina Ruth Rincon Caires

       A tarde da última sexta-feira do mês era reservada para o benzimento das crianças.       Com chuva ou com sol, nesse dia, todos os deveres da manhã eram acelerados, o almoço saía mais cedo, e logo estávamos a caminho. Sempre acompanhadas de três adultos, invariavelmente mulheres, as crianças desmamadas seguiam em fila indiana para o sítio de Dona Genoveva. Os pequenos, que ainda mamavam no peito, não careciam de passar o ramo. Minha mãe e minha avó eram as acompanhantes titulares: a avó já era velha, não mais teria filhos, e eu, com seis anos, era a caçula da minha mãe. As outras tias ainda estavam no período parideiro. E como pariam! A cada ano, a fila indiana ficava maior.       A benzedura que Dona Genoveva fazia nas crianças era contra verme, feito lombrigueiro. À frente e fechando a fila, a tia e a mãe, e no meio, a avó. Todas no controle zeloso do bando. Usávamos roupas domingueiras e, nos pés, as inseparáveis alpa...

Santo Segredo,Regina Ruth Rincon Caires

  No canto do quarto, no restolho de um berço, Zaqueu dormia. Aquele arremedo de cama, sem grades laterais, havia servido como abrigo de muitos rebentos, ali, por aquelas paragens. De tamanho reduzido, não permitia que o menino esticasse as pernas. Dormia como vivia: encolhido. Não reclamava, era o suficiente. Pareada com a dele, a cama grande da mãe era dividida entre ela, Gerusa – a filha mais velha, já moça, e a caçulinha. Mais lá no canto, dormiam os gêmeos, um cheirando o pé do outro. O espaço era abarrotado, sobrava apenas um vão para a velha cômoda, perto da porta. Móvel imenso, carregado por gerações. E sobre a cômoda, a santa. Desde os quatro anos, Zaqueu passou a coabitar com a santa. Até então, era apenas uma peça de barro, um adereço que a mãe cuidava com muita afeição e que servia para escorar um puído rosário que lhe era enlaçado nos ombros. De início, a convivência com a santa foi turbulenta. Tempo de pavor, de gritaria, de desespero. Um desassossego só....

Meu Presidente, Regina Ruth Rincon Caires

                                                                                      Início da década de 1960...         A pequena vila, acanhada, era quase estéril de empregos. Afora os pequenos sitiantes e comerciantes, o resto lutava só Deus sabe como... Mas tudo era mais fácil, visivelmente mais fácil que hoje. É bem verdade que a comida não era tão diversificada como agora, mas existia a fartura. Em quase todas as casas podia-se ver uma horta ampla, um chiqueiro apinhado de crias, galinhas aos montes, sem contar as frutas! A gente comia até se fartar, e não havia a menor preocupação com a sobrevivência futura, como hoje. Não sei se isso, se essa despreocupação estava só com as crianças, e ficava para os adultos a angústia do “como fazer...

Pássaro Azul, Regina Ruth Ricon Caires

Talvez o desconforto tenha começado no momento em que chegara ao mundo, quando aquela invasiva claridade do holofote, na sala de parto, acertou o seu olhar, impiedosamente. Acho que foi ali, ou em qualquer outro lugar. A única coisa que sabia era que havia um desconforto, um descompasso. Nascera diferente. Di-fe-ren-te -palavra estigmatizante, um codinome que ecoou nos pensamentos durante seus inocentes nove anos. Reiteradamente dita, parecia gravada nos lábios que lhe falavam, nos olhos que lhe fitavam, nos gestos de espanto que lhe dirigiam. E, ironicamente, ele não falava. Ouvia silenciosamente, mudo. E, por ser assim diferente, gozava de certas regalias. Não lhe cabiam tarefas, era livre. Se é que é possível ser livre dentro do alcance das vistas de adultos. E sua cabeça voava, gostava de voo. O carrinho não era conduzido na pista desenhada do brinquedo, o trenzinho não corria nos trilhos. O fascínio estava no girar das rodas, no girar das hélices, no girar, girar. E no voar...

Prelúdio, Regina Ruth Rincon Caires

Pela escuridão do quarto, imagina ser noite.  Ou madrugada... Perdera a noção do tempo. Foram muitas mortes, muitos renascimentos. Tanta aflição, tantas dores, tanta luta! Mas, agora, vindo não se sabe de onde, é invadido por um deleitoso sossego.   No silêncio, entrecortado pelo gotejar do soro no equipo, os pensamentos, de maneira incansável, se avolumam, se atropelam como se disputassem uma corrida derradeira. E no peito, o retumbe do coração mais parece o bater das asas inexperientes do menino passarinho. Sabe que está longe disso.

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Dribles do Passado, Regina Ruth Rincon Caires

A igreja era modesta, miúda, suficiente para abrigar os fiéis. Uma capelinha. O restante da praça, área imensa, servia a todos os moradores. Ali se juntavam, aproveitando o sol da manhã, colocavam a conversa em dia, faziam pequenos negócios, e, na parte da tarde, aquela terra batida, com pouca areia solta, pertencia aos moleques. As peladas aconteciam.  Todas as crianças da vila frequentavam a escola de manhã. Depois da aula, bastava o tempo de tirar uniforme, engolir o almoço, os pequenos iam brotando feito pipoca nas ruas, nas esquinas, num converseiro danado. O bando, adensado, discutia os times, reclamava da pegada do dia anterior, traquinava novas jogadas. Levava um bom tempo até tudo se ajeitar. Todos descalços, as botinas só eram usadas na escola. Os times eram divididos em: de camisa, sem camisa. E eram camisas de botão. Não existiam camisetas para crianças, apenas os adultos as usavam sob as camisas. Cavadas. O espaço da trave, que geralmente era medido p...

Flor-de-Capitão, Regina Ruth Rincon Caires

O quarto menor da casa era reservado para as visitas. Apenas a cama e um velho baú de madeira, reforçado com tiras de metal, compunham a mobília. As alças do baú já não existiam, sobraram apenas os sinais do encaixe. A chave ficara perdida em algum lugar, nas muitas mudanças. Colocado sobre pilhas de tijolos, que o erguiam do chão, ficava protegido das constantes lavadas do chão. E guardava segredos. Ali ainda ficavam umas poucas vestes da avó, trazidas de além-mar. Acomodava velhas cobertas feitas no tear, roupas de dançarina, xales enormes, o pente com o véu. E as castanholas. 

O Mendigo do Viaduto do Chá, Regina Ruth Rincon Caires

     A moeda corrente era o cruzeiro. A passagem de ônibus custava sessenta centavos. O ano era 1974.       Eu trabalhava no centro da cidade, em um banco que ficava na Rua Boa Vista. Morava longe, quase ao final da Avenida Interlagos, e usava diariamente o transporte coletivo. Meu trabalho, no departamento de estatística, resumia-se a somar os números datilografados em planilhas e mais planilhas fornecidas pelas agências do banco. Somas que deveriam ser checadas, e que eram efetuadas nas antigas calculadoras elétricas com suas infernais bobinas, conferidas e grampeadas nas respectivas planilhas. Não fosse o café para espantar o sono durante as diárias e rotineiras oito horas de trabalho, nenhuma soma teria sido confirmada.

O Estranho Visitante, Regina Ruth Rincón Caires

A cada enxadada, fincando o chão seco, duro e praguejado, o suor escorrendo pelas costas abaixo, sob um sol impiedoso, Gregório, involuntariamente, matuta. Se ao menos essas lembranças o abandonassem um pouco, a força dos braços seria mais viva. Qual o quê? Ferem seu corpo como espinhos, ficam como acordes de tristeza a lhe tocarem a alma. Pensamentos teimosos! Por que não se vão, feito a chuva?! Gregório para um pouco... Tira o chapéu. Os cabelos grudados à testa, o suor caindo-lhe sobre as pálpebras enrugadas. Sente-se um caco! Olha a sua volta, demoradamente, depois ergue seus olhos para o céu. Nada de nuvens! O céu infinitamente azul, e o sol, majestoso, reinando tirano. Tem sede... Olha para a moita de arbustos lá adiante, e sente-se desanimado calculando a distância que o separa da sua moringa. O jeito é arranjar forças pra chegar até lá. Sem água nem é possível pensar, quanto mais continuar! Descansa a enxada sobre o torrão de terra que acabou de revirar e segue em dir...