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Mostrando postagens com o rótulo Manuel bandeira

Manuel Bandeira: 140 anos do poeta pernambucano

Evocação do Recife Recife Não a Veneza americana Não a Mauritssatd dos armadores das Índias Ocidentais Não o Recife dos Mascates Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois — Recife das revoluções libertárias Mas o Recife sem história nem literatura Recife sem mais nada Recife da minha infância A Rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de Dona Aninha Viegas Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincené na ponta do nariz Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras, mexericos, namoros, risadas A gente brincava no meio da rua Os meninos gritavam: Coelho sai! Não sai! A distância as vozes macias das meninas politonavam: Roseira dá-me uma rosa Craveiro dá-me um botão (Dessas rosas muita rosa Terá morrido em botão...) De repente nos longes da noite um sino Uma pessoa grande dizia: Fogo em Santo Antônio! Outra contrariava: São José! Totônio Rodrigues achava sempre que era São José. Os homens punham o chapéu saíam fumando E eu tinh...

Poema da Quarta-feira de Cinzas, Manuel Bandeira

Entre a turba grosseira e fútil Um Pierrot doloroso passa. Veste-o um túnica inconsútil Feita de sonho e desgraça. O seu delírio manso agrupa Atrás dele os maus e os basbaques. Este o indigita, este outro o apupa... Indiferente a tais ataques, Nublada a vista em pranto inútil, Dolorosamente ele passa. Veste-o uma túnica inconsútil Feita de sonho e desgraça

Canção do Vento e da Minha Vida, poema de Manuel Bandeira

O vento varria as folhas O vento varria os frutos, O vento varria as flores...      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De frutos, de flores, de folhas. O vento varria as luzes O vento varria as músicas, O Vento varria os aromas...      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De aormas, de estrelas, de cânticos. O vento varrria os sonhos E varria as amizades... O vento varria as mulheres.      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De afeto e de mulheres. O vento varria os meses E varria os teus sorrisos... O vento varria tudo!      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De tudo. ( Em: Bandeira -Seleta em Prrosa e Verso, 1975, págs. 151-152)

Canto de Natal, poema de Manuel Bandeira

O nosso menino Nasceu em Belém. Nasceu tão-somente Para querer bem.   Nasceu sobre as palhas O nosso menino. Mas a mãe sabia Que ele era divino.   Vem para sofrer A morte na cruz, O nosso menino. Seu nome é Jesus. Por nós ele aceita O humano destino: Louvemos a glória De Jesus menino.

Profundamente, poema de Manuel Bandeira

Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes cantigas e risos Ao pé das fogueiras acesas. No meio da noite despertei Não ouvi mais vozes nem risos Apenas balões Passavam errantes Silenciosamente Apenas de vez em quando O ruído de um bonde Cortava o silêncio Como um túnel. Onde estavam os que há pouco Dançavam Cantavam E riam Ao pé das fogueiras acesas? Estavam todos dormindo Estavam todos deitados Dormindo Profundamente II Quando eu tinha seis anos Não pude ver o fim da festa de São João Porque adormeci Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo Minha avó Meu avô Totônio Rodrigues Tomásia Rosa Onde estão todos eles? - Estão todos dormindo Estão todos deitados Dormindo Profundamente. Em: Estrela da Vida Inteira págs.111-112 Imagem: Festa Junina, Djanira

Vambora, música de Adriana Calcanhoto

  Adriana Calcanhoto incluiu as angustias de Ferreira Gullar e Manuel Bandeira na sua bela música Vambora. Entre por essa porta agora E diga que me adora Você tem meia hora Pra mudar a minha vida Vem, vambora Que o que você demora É o que o tempo leva Ainda tem o seu perfume pela casa Ainda tem você na sala Porque meu coração dispara Quando tem o seu cheiro Dentro de um livro Dentro da noite veloz Ainda tem o seu perfume pela casa Ainda tem você na sala Porque meu coração dispara Quando tem o seu cheiro Dentro de um livro Na cinza das horas Entre por essa porta agora E diga que me adora Você tem meia hora Pra mudar a minha vida Vem, vambora Que o que você demora É o que o tempo leva Ainda tem o seu perfume pela casa Ainda tem você na sala Porque meu coração dispara Quando tem o seu cheiro Dentro de um livro Dentro da noite veloz Ainda tem o seu perfume pela casa Ainda tem você na sala Porque meu coração dispara Quando tem o seu cheiro Dentro de um livro Na cinza das horas Album: Ma...

Carnaval, uma Carta De Mário de Andrade

Mário de Andrade passou o Carnaval de 1923 no Rio de Janeiro, encantou-se com a folia carioca e não foi visitar Manuel Bandeira em Petrópolis. No final de fevereiro, enviou uma carta ao amigo, argumentando a sua ausência. "Meu Manuel… Carnaval!… Perdi o trem, perdi a vergonha, perdi a energia … Perdi  tudo. Menos minha faculdade de gozar, de delirar … Fui  ordinaríssimo. Além do mais: uma aventura curiosíssima. Desculpa contar-te toda esta pornografia. Mas… que delícia, Manuel, o Carnaval do Rio! Que delícia, principalmente, meu Carnaval! […] Meu cérebro acanhado, brumoso de paulista, por mais que se iluminasse em desvarios, em prodigalidades de sons, luzes, cores, perfumes, pândegas, alegria, que sei  lá!,  nunca seria capaz de imaginar um Carnaval carioca, antes de vê-lo. Foi o que se deu. Imaginei-o  paulistamente . […] Admirei repentinamente o legítimo carnavalesco, o carnavalesco carioca, o que é só carnavalesco, pula e canta e dança quatro dias sem parar. ...

Nascido em 19 de Abril: Manuel Bandeira

AMIGO MEU , J. Guimarães Rosa, mano-velho, muito saudar! Me desculpe, mas só agora pude campear tempo para ler o romance de Riobaldo. Como que pudesse antes? Compromisso daqui, obrigação dacolá… Você sabe: a vida é um Itamarati – viver é muito dificultoso. Ao despois de depois, andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova e eu não gosto de língua inventada. Sempre arreneguei de esperantos e volapuques. Vai-se ver, não é língua nova nenhuma a do Riobaldo. Difícil é, às vezes. Quanta palavra do sertão! A princípio, muito aplicadamente, ia procurar a significação no dicionário. Não encontrava. Pena o título: Grande Sertão: Veredas. Nenhum dicionário dá a palavra “vereda” com o significado que você mesmo define à página 74: “Rio é só o São Francisco, o Rio do Chico. O resto pequeno é vereda.” Tinha vezes que pelo contexto eu inteligia: “ciriri dos grilos”, “gugo da juriti” etc. Mas até agora não sei, me ensine, o que é “arga”, “suscenso”, “lugugem” e um desadôr...

O Enterro de Sinhô, Manuel Bandeira

      J. B. SILVA, o popular Sinhô dos mais deliciosos sambas cariocas, era um desses homens que ainda morrendo da morte mais natural deste mundo dão a todos a impressão de que morreram de acidente. Zeca Patrocínio, que o adorava e com quem ele tinha grandes afinidades de temperamento, era assim também: descarnado, lívido, frangalho de gente, mas sempre fagueiro, vivaz, agilíssimo, dir-se-ia um moribundo galvanizado provisoriamente para uma farra. Que doença era a sua? Parecia um tísico nas últimas. Diziam que tinha muita sífilis. Certamente o rim estava em pantanas. Fígado escangalhado. Ouvia-se de vez em quando que o Zeca estava morrendo. Ora em Paris, ora em Todos os Santos, subúrbio da Central. E de repente, na Avenida, a gente encontrava o Zeca às três da madrugada, de smoking, no auge da excitação e da verve. Assim me aconteceu uma vez, e o que o punha tão excitado naquela ocasião era precisamente a última marcha carnavalesca de Sinhô, o famoso Claudionor… ...

Depoimento Simplório, Marques Rebelo

Eu conto:      Ia prestar o meu exame final de português, quando papai, após me fazer umas tantas e quantas perguntas  sobre a matéria, explodiu num daqueles rompantes que só ele tinha:      - Você não sabe nada, nada, absolutamente nada! Uma vergonha! Não pode fazer exame assim!       Protestei com energia:      - Posso!      - Não pode!      Pensei ganhar a partida:     - Mas o meu professor disse que eu estava preparado.     - Seu professor é uma besta-quadrada!

Eu E Os Poetas do Recife, Manuel Bandeira

                        Desenho de Romero Brito Manuel Bandeira do Circuito da Poesia está em uma das margens do Rio Capibaribe, no centro da cidade.  Na mesma margem onde se encontra  João Cabral de Melo Neto que o blog já mostrou.  Infelizmente alguém de pouquíssima educação pixou toda a estátua do poeta e, por essa razão, as imagens que tenho foram feitas no Espaço Pasárgada, na Rua da União que era a casa do  avô e onde ele passou a infância. Rimancete À dona de seu encanto À bem-amada pudica, Por quem se desvela tanto Por quem tanto se dedica, Olhos lavados em pranto, O seu amante suplica: O que me darás, donzela, Por preço de meu amor? -Dou-te os meus olhos (disse ela), Os meus olhos sem senhor... -Ai não me fales assim! Que uma esperança tão bela Nunca será para mim! O que me darás, donzela, Por preço de meu amor? -Dou-te os meus lábios (disse ela), Os meus lábios sem senh...

Eu e os poetas do Recife, Manuel Bandeira

                  As imagens ao lado foram feitas no Espaço Pasárgada  que fica na Rua da União.   Manuel Bandeira refere-se à casa do avô no  do verso: "... tudo lá parecia impregnado de eternidade" .                    Acima estou com um boneco gigante de Manuel Bandeira, que sai no carnaval.  Abaixo, MB num desenho de Romero Brito. Posto um poema de que não lembrava, apesar de já ter lido, todos os livros do poeta. O Súcubo Quando em  silencio a casa adormecia e vinha Ao meu quarto a aromada emanação dos matos, Deslizáveis astuta, amorosa e daninha Propinando na treva o absinto dos contatos. Como se enlaça ao tronco a ondulação da vinha, Um por um despojando os fictícios recatos, Estreitáveis-me cauta e essa pupila tinha Fosforescências como a pupila dos gatos.  Tudo em vós flamejava em instintiva fúria. A gargan...

Sonho de Uma Terça-Feira Gorda, Manuel Bandeira

Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras                                                            [eram as nossas máscaras. Íamos, por entre a turba, com solenidade, Bem conscientes do nosso ar lúgubre tão contrastado pelo sentimento de felicidade Que nos penetrava... Que nos penetrava como uma espada                                                            [ de fogo... Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas. E a impressão em meu sonho era que se estávamos Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro, - Dentro de nós, ao contrário, era tudo claro e luminoso. Era terça-feira gorda. A multidão inumerável Burburinhava. Entre clang...

Segunda-feira dos autores aniversariantes de Abril

Em abril aniversariam Monteiro Lobato,Manuel Bandeira e Augusto dos Anjos Dia 18 de abril, é o dia nacional do Livro infantil, numa homenagem justíssima a Monteiro Lobato o aniversariante da data. Sobre o assunto, o blog já tem matéria postada. Ah. Lobato faria 131 anos. Manuel Bandeira, de tão conhecido, a gente nem lembra que ele nasceu há 127 anos!! É o autor de um dos poemas mais conhecidos, Pasárgada. Falar nisso,  Onde fica Pasárgada? Imagem do Google Por fim chego em     Augusto os Anjos , o dono do dia 20. O paraibano, conhecido por explorar os temas morte e termos científicos, pode ser pesquisado aqui. Abaixo um poema do livro Eu,  com a grafia usada por Augusto dos Anjos em 1912. Psicologia de um Vencido Eu, filho do carbono e do ammoniaco Soffro, desde a epigénesis da infancia A influencia má dos signos do zodiaco. Profundissimamente hypocondríaco Sobe-me á bocca uma ancia análoga á ancia Que se escapa...

Nelson Rodrigues Por Ele Mesmo.

“Nasci a 23 de agosto de 1912, no Recife, Pernambuco. Vejam vocês: eu nascia na rua Dr. João Ramos (Capunga) e, ao mesmo tempo, Mata-Hari ateava paixões e suicídios nas esquinas e botecos de Paris. Era a espiã de um seio só e não sabia que ia ser fuzilada. Que fazia ela, e que fazia o marechal Joffre, então apenas general, enquanto eu nascia? A belle époque já trazia no ventre a primeira batalha do Marne. Mas por que “espiã de um seio só?” Não ponho minha mão no fogo por uma mutilação que talvez seja uma doce, uma compassiva fantasia. Seja como for, o seio solitário é, a um só tempo, absurdamente triste e altamente promocional. Mas a belle époque não é a defunta que, de momento, me interessa. Tenho mortos e vivos mais urgentes. Por outro lado, minhas lembranças não terão nenhuma ordem cronológica. Hoje posso falar do kaiser, amanhã do Otto Lara Resende, depois de amanhã do czar, domingo do Roberto Campos. E por que não do Schmidt? Como não falar de Augusto Frederic...

Aniversário de 125 anos:Manuel Bandeira - Evocação do Recife

Manuel Bandeira faria hoje 125 anos Veja também: http://livroerrante.blogspot.com/2011/04/aniversariante-do-dia-manuel-bandeira.html

A Vida Assim Nos Afeiçoa, Manuel Bandeira

 Estátua na Rua da Aurora, às margens do Rio Capibaribe Se fosse dor tudo na vida, Seria a morte o sumo bem. Libertadora, apetecida, A alma dir-lhe-ia, ansiosa: - Vem! Quer para a bem-aventurança Leves de um mundo espiritual A minha essência, onde a esperança Pôs o seu hálito vital; Quer no mistério que te esconde, Tu sejas, tão somente, o fim: - Olvido, impertubável, onde "Não restará nada de mim!" Mas horas há que marcam fundo... Feitas, em cada um de nós, De eternidades de segundo, Cuja saudade extingue a voz. Ao nosso ouvido, embaladora, A ama de todos os mortais, A esperança prometedora, Segreda coisas irreais. E a vida vai tecendo laços Quase impossíveis de romper: Tudo o que amamos são pedaços Vivos do nosso próprio ser. A vida assim nos afeiçoa, Prende. Antes fosse toda fel! Que ao se mostrar às vezes boa, Ela requinta em ser cruel _____________________________________________________________________________ Recife com...

Cantadores do Nordeste, Manuel Bandeira

Anteontem, minha gente, Fui juiz numa função De violeiros do Nordeste Cantando em competição Vi cantar Dimas Batista E Otacílio seu irmão Ouvi um tal de Ferreira, Ouvi um tal de João. Um, a quem faltava um braço, Tocava cuma só mão; mas, como ele mesmo disse Cantando com perfeição, Para cantar afinado Para cantar com paixão A força não está no braço: Ela está no coração. Ou puxando uma sextilha Dimas e Otacílio em festival no Rio de Janeiro Ou uma oitava em quadrão, Quer a rima fosse em inha Qrimas do céu, Saltavam rimas do chão! Tudo muito bem medido No galope do sertão. A Eneida estava boba; O Cavalcanti bobão, O Lúcio , o Renato Almeida; Enfim, toda a comissão. Saí dali convencido Que não sou poeta não; Que poeta é quem inventa Em boa improvisação Como faz Dimas Batista E Otacílio, seu irmão; Como faz qualquer violeiro Bom cantador do sertão, A todos os quais, humilde, Mando a minha saudação. Nota: M.B fez o poema depoi...