A sala do coração tem muitas janelas e duas portas, a que dá pra dentro e a que dá pra fora. A que dá pra dentro está sempre aberta. A que dá pra fora vive trancada. Espalhadas pela sala, as notícias do jornal de hoje, a bobagem dita ontem, o Natal passado, o retrasado, a mula-sem-cabeça, o Banco Imobiliário, uma febre, um sarampo, a enchente, o cometa Halley, um São João, um jipe, casamento, o nascimento do filho, o velório da avó, a festa do penta, a desesperança do mundo, a expectativa do próximo fim de semana e outras tralhas, cada qual lá, com sua importância, acumulando poeira. Talvez se sintam meio tristes por estarem virando memória, quadro, objeto na estante. Talvez se sintam felizes. Quem sabe? O coração tem muitos quartos. No primeiro, logo o da frente, algumas lembranças dormem, umas riem, umas mentem, outras doem. O bolo de aniversário dos seus oito anos, não o dos sete nem o dos...