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Mostrando postagens com o rótulo poesia brasileira

Retrato no Parque, Mário Quintana

Como se fosse numa tela De Marie Laurencin, O que se vê são seus olhos De animalzinho atento. Tudo é tão atmosfera, O gesto, a cor, o movimento Que se supõe seja ela Uma inventiva do vento. Talvez não esteja pronta… Porém, em tanto mutar, Tem aqueles olhos graves E os seios bem no lugar. Em:Mário Quintana, seleção de Fausto Cunha Ed.Global 2006 pág.54 Imagem: A Journey for Love, the japan times. Museu de arte da prefeitura da nagasaki

Anúncio, poema de Viviane Mosé

O poema começa, tudo se afasta Tento buscar as coisas que fogem. O mar sempre foge, antes de cuspir ondas gigantes. Aos poucos tudo foge. Os carros, as pessoas, os prédios, o chão Ergo os braços em busca de auxílio Mas não há nada nem ninguém apenas uma luz estranha e difusa. Tudo é longe. E ri do meu desamparo. Com suas longas distâncias mínimas Crateras abertas na terra dos poros. O poema antes de nascer ferve. O centro do peito, que aflora O poema se confunde com o amor que jorra. Em: Calor, ed. Usina Pensamento,2017

Conjuga-me, poema de Fagner Mera

Na minha oração era você meu sujeito, meu predicado predileto. Onde eu, você e nós éramos além de pronomes. Mal sabia que, talvez o amor fosse apenas um objeto, direto. E eu no singular, pensando no plural, Acabei me tornando um mero sujeito oculto… Faltou concordância e não era nominal. Fui julgado, conjugado de forma errada, Me perdi no tempo, tornei-me passado, mais que imperfeito, faltaram verbos. E no futuro do pretérito havia um indicativo, um problema que talvez, não fosse simples, Composto talvez. E vendo aquele caos difícil de entender, na última lição de casa o verbo amar, decidiu me ensinar a conjugação do esquecer. Em: Leia Um Café e Tome Uma Poesia  

Manuel Bandeira: 140 anos do poeta pernambucano

Evocação do Recife Recife Não a Veneza americana Não a Mauritssatd dos armadores das Índias Ocidentais Não o Recife dos Mascates Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois — Recife das revoluções libertárias Mas o Recife sem história nem literatura Recife sem mais nada Recife da minha infância A Rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de Dona Aninha Viegas Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincené na ponta do nariz Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras, mexericos, namoros, risadas A gente brincava no meio da rua Os meninos gritavam: Coelho sai! Não sai! A distância as vozes macias das meninas politonavam: Roseira dá-me uma rosa Craveiro dá-me um botão (Dessas rosas muita rosa Terá morrido em botão...) De repente nos longes da noite um sino Uma pessoa grande dizia: Fogo em Santo Antônio! Outra contrariava: São José! Totônio Rodrigues achava sempre que era São José. Os homens punham o chapéu saíam fumando E eu tinh...

Fala,poema de Orides Fontela

Tudo será difícil de dizer: a palavra real nunca é suave. Tudo será duro: luz impiedosa excessiva vivência consciência demais do ser. Tudo será capaz de ferir. Será agressivamente real. Tão real que nos despedaça. Não há piedade nos signos e nem no amor: o ser é excessivamente lúcido e a palavra é densa e nos fere. (Toda palavra é crueldade. Imagem: Rascunho Veja  aqui  livros de Orides Fontela  e  leia aqui sobre ela Poeta ou poetisa? Orides era enfática: não aceitava ser chamada de “poetisa”. Para ela, o termo carregava uma marca de “humilhação por gênero”. Para Orides, historicamente, o trabalho da mulher sempre foi posto para baixo. “ A gente dizia que era ‘poetisa’ e já estava se diminuindo”. Orides se declarava feminista desde a adolescência. Tudo começou quando seu pai lhe disse: “Quando você casar, vai obedecer ao seu marido”. Ao que  ela respondeu prontamente:  “Não vou casar de jeito nenhum”.  Para ela, a liberdade de ser poeta era inegociáve...

Canção do Vento e da Minha Vida, poema de Manuel Bandeira

O vento varria as folhas O vento varria os frutos, O vento varria as flores...      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De frutos, de flores, de folhas. O vento varria as luzes O vento varria as músicas, O Vento varria os aromas...      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De aormas, de estrelas, de cânticos. O vento varrria os sonhos E varria as amizades... O vento varria as mulheres.      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De afeto e de mulheres. O vento varria os meses E varria os teus sorrisos... O vento varria tudo!      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De tudo. ( Em: Bandeira -Seleta em Prrosa e Verso, 1975, págs. 151-152)

Cantiga Pequenina, poema de Thiago de Mello

A noite é linda, Isabella, quando serve de acalanto ao dia que vai nascer. É feia a noite, Isabella, quando a sombra esgarça a festa do verão no amanhecer. Estou no centro da noite: comigo, na minha mão, a canção da tua vida me ensinando a caminhar na mais clara direção do homem: saber amar. Em: Poesia Comprometida com a minha e a tua vida.  Ed. Civilização Brasileira, 1992, pág.75

Lágrima de Um Caeté,poema de Nísia Floresta ( sem)

 (...) página 2  Lá, quando no ocidente o sol havia  Seus raios mergulhado, e a noite triste  Denso-ébanico véu já começava  Vagarosa a estender por sobre a terra;  Pelas margens do fresco Beberibe,  Em seus mais melancólicos lugares,  Azados para a dor de quem se apraz  Sobre a dor meditar que a pátria enluta!  Vagava solitário um vulto de homem,  De quando em quando ao céu levando os olhos,  Sobre a terra depois triste os volvendo...  (...)  (...) página 18  Não chores, ó Caeté, o amigo teu:  Que caiu, não morreu, porque o bravo  Constante defensor da pátria sua,  Para a pátria não morre.  (...)  (...) página 21  O bravo selvagem atônito ficou...  - Quem és; lhe pergunta, infernal deidade?  - Uma tal visão de inferno não sou:  Sou cá deste mundo, a realidade.  Volta às selvas tuas, vai lá procurar  Alguns desses bens, que aqui te hão tirado:  Não creia...

Profundamente, poema de Manuel Bandeira

Quando ontem adormeci Na noite de São João Havia alegria e rumor Estrondos de bombas luzes de Bengala Vozes cantigas e risos Ao pé das fogueiras acesas. No meio da noite despertei Não ouvi mais vozes nem risos Apenas balões Passavam errantes Silenciosamente Apenas de vez em quando O ruído de um bonde Cortava o silêncio Como um túnel. Onde estavam os que há pouco Dançavam Cantavam E riam Ao pé das fogueiras acesas? Estavam todos dormindo Estavam todos deitados Dormindo Profundamente II Quando eu tinha seis anos Não pude ver o fim da festa de São João Porque adormeci Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo Minha avó Meu avô Totônio Rodrigues Tomásia Rosa Onde estão todos eles? - Estão todos dormindo Estão todos deitados Dormindo Profundamente. Em: Estrela da Vida Inteira págs.111-112 Imagem: Festa Junina, Djanira

Passarinho, poema de Marcelo Valença

Quero te falar do tempo das coisas Dos símbolos que as dão os anos Dos vazios que escancaram as ausências E dos signos que as virão preencher Quero te falar do tempo das pessoas Do valor que lhes confere o amor Dos espaços que resultam das escolhas E dos versos que iremos escrever Quero te falar do tempo das dores Do peso que lhes desaba a solidão Do tempo que é mãe das curas E dos caminhos a percorrer Quero te falar do tempo futuro Dos sonhos que lhe dão sentido Da grandeza que acompanha a lição E da semente que vemos crescer Quero te falar do tempo do agora Do amor que aqui te é perene Do regogizo leve ante tua presença E do teu riso, meu prazer

Com Licenca Poética, poema de Adélia Prado

Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada. Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir. Não tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dor. Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos — dor não é amargura. Minha tristeza não tem pedigree, já a minha vontade de alegria, sua raiz vai ao meu mil avô. Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem. Mulher é desdobrável. Eu sou. Em: Bagagem Imagem: tela de Françoise Gilot A poeta mineira faz referência ao Poema das Sete Faces do também mineiro Carlos Drummond de Andrade: "Quando eu nasci, um anjo torto desses que vivem na sombre Disse: Vai, Carlos, ser gauche na vida..."

Ano Novo, poema de Ferreira Gullar

Meia noite. Fim de um ano, início de outro. Olho o céu: nenhum indício. Olho o céu: o abismo vence o olhar. O mesmo espantoso silêncio da Via-Láctea feito um ectoplasma sobre a minha cabeça: nada ali indica que um ano novo começa. E não começa nem no céu nem no chão do planeta: começa no coração. Começa como a esperança de vida melhor que entre os astros não se escuta nem se vê nem pode haver: que isso é coisa de homem esse bicho estelar que sonha (e luta) Imagem: Pixabay

Desenho, poema de Cecília Meireles

Fui morena e magrinha como qualquer polinésia, e comia mamão, e mirava a flor da goiaba. E as lagartixas me espiavam, entre os tijolos e as trepadeiras e as teias de aranha nas minhas árvores se entrelaçavam. Isso era num lugar de sol e nuvens brancas, onde as rôlas, à tarde, soluçavam mui saudosas... O eco burlão, de pedra em pedra saltando, entre vastas mangueiras que choviam ruivas horas. Os pavões caminhavam tão naturais por meu caminho, e os pombos tão felizes se alimentavam pelas escadas, que era desnecessário crescer, pensar, escrever poemas, pois a vida completa e bela e terna ali já estava. Como a chuva caía das grossas nuvens, perfumosa! E o papagaio como ficava sonolento! O relógio era festa de ouro; e os gatos enigmaticos fechavam os olhos, quando queriam caçar o tempo. Vinham morcegos, à noite, picar os sapotis maduros, e os grandes cães ladravam como nas noites do Império. Maripôsas, jasmins, tinhorões, vaga-lumes moravam nos jardins sussurrantes e eternos. E minha avó c...

Gato na Noite, poema de Alceu Valença

Sou como um gato na noite. Ah, meus olhos de vigia! Se choram de madrugada, Deságuam no meio dia E o coração se incendeia, No leito das minhas veias, Chuva de olho é sangria. Se eu cruzasse a madrugada Sem pensar no outro dia, Sem fazer acrobacias Pra me equilibrar no tempo... Se girasse um cata-vento Eu mudava a geografia, Meus olhos de vigia Enxergam não podem nada E o coração seca em água Chuva de olho é sangria Em: O Poeta da Madrugada, Alceu Valença, Chiado Editora, 2015, pág.35

Pescaria, poema de Guimarães Rosa

O peixe no anzol é kierkegaardiano. (O pescador não sabe, só está ufano.) O caniço é a tese, a linha é pesquisa: o pescador pesca em mangas de camisa. O rio passa, por isso é impassível: o que a água faz é querer seu nível. O pescador ao sol, o peixe no rio: dos dois, ele só guarda o sangue frio. O caniço, então, se sente infeliz: é o traço de união entre dois imbecis… – João Guimarães Rosa, do livro “Ave, palavra”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 6ª ed., 2009. Imagem: Pescando, Almeida Júnior1894

Faz da Tua Casa Uma Festa, Cora Coralina

Faz da tua casa uma festa! Ouve música, canta, dança... Faz da tua casa um templo! Reza, ora, medita, pede, agradece... Faz da tua casa uma escola! Lê, escreve, desenha, pinta, estuda, aprende, ensina... Faz da tua casa uma loja! Limpa, arruma, organiza, decora, muda de lugar, separa para doar... Faz da tua casa um restaurante! Cozinha, prova, cria, cultiva, planta... Enfim... Faz da tua casa Um local criativo de amor.

Um Molho de Chaves, poema de Ladyce West

A primeira: do diário Depois, a do cadeado da bicicleta, do armário da piscina e prateleira do colégio. Da escrivaninha no quarto, a de casa, do carro do primeiro apartamento, da caixa dos Correios do portão do edifício. Só falta uma... Você me dá? Abre o seu peito e me entrega ou o coração já tem dono? Em: À Meia Voz, Ladyce West. 2020 pág.70 Primeiro texto da série: página 70.

Momento, poema de Adélia Prado (Prêmio Machado de Assis de 2024)

Enquanto eu fiquei alegre, permaneceram um bule azul com um descascado no bico, uma garrafa de pimenta pelo meio, um latido e um céu limpidíssimo com recém-feitas estrelas. Resistiram nos seus lugares, em seus ofícios, constituindo o mundo pra mim, anteparo para o que foi um acometimento: súbito é bom ter um corpo pra rir e sacudir a cabeça. A vida é mais tempo alegre do que triste. Melhor é ser. Do livro: Bagagem. Adélia Prado é a vencedora do Prêmio Machado de Assis de 2024 Obras: Bagagem (1975) O Coração Disparado (1978) Soltem os Cachorros (1979) Cacos para um Vitral (1981) Terra de Santa Cruz (1981) Os Componentes da Banda (1984) O Pelicano (1987) A Faca no Peito (1988) Poesia Reunida (1991) O Homem da Mão Seca (1994) Duas Horas da Tarde no Brasil (1996) Oráculos de Maio (1999) Estreia do Monólogo Dona da Casa (2000) Quero Minha Mãe (2005) A Duração do Dia (2010) Miserere (2013)  

Reminiscências, Mário Quintana. (Poema por causa de uma enchente)

      Em 1941, o Guaiba, cuja cota de inundação é de 3m, subiu até 4,76m. Naquela época não havia algumas proteções que existem hoje e as águas chegaram à atual Rua dos Andradas e bairros próximos ao rio.  Mário Quintana morava nessa rua e ela à época se chamava Rua da Praia.  Sete anos (1948) após o que foi a maior catástrofe natural do Rio Grande do Sul, o poeta lançou o livro Sapato Florido Sapato Florido e, nele, Reminiscências, sobre a enchente que ele presenciou.   Veja o poema: " A enchente de 1941.  Entrava-se de barco pelo corredor da velha casa de cômodos onde eu morava. Tínhamos assim um rio só para nós. Um rio de portas a dentro. Que dias aqueles! E de noite não era preciso sonhar: pois não andava um barco de verdade assombrando os corredores? Foi também a época em que era absolutamente desnecessário fazer poemas". A Casa de Cultura Mário Quintana, antigo Hotel Magestic onde o poeta morou de 1968 até 1980, fica na rua dos Andradas e ...

Soneto de Maio, Vinicius de Moraes

Suavemente Maio se insinua Por entre os véus de Abril, o mês cruel E lava o ar de anil, alegra a rua Alumbra os astros e aproxima o céu. Até a lua, a casta e branca lua Esquecido o pudor, baixa o dossel E em seu leito de plumas fica nua A destilar seu luminoso mel. Raia a aurora tão tímida e tão frágil Que através do seu corpo transparente Dir-se-ia poder-se ver o rosto Carregado de inveja e de presságio Dos irmãos Junho e Julho, friamente Preparando as catástrofes de Agosto... Ouro Preto, maio de 1967 Imagem: Pixabay