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Mostrando postagens com o rótulo Umberto Eco

Melhores de 2021, pelo grupo de leitura Livro Errante

 Grupo de leitura Livro Errante, escolhe as melhores leituras do ano: A Bíblia Envenenada  Barbara  Kingsolver Ficção com lastro na história real, narra a aventura de um religioso norte-americano que, no final dos anos 50, leva a família para o então Congo Belga, no coração da África, com a missão de conquistar para a civilização cristã ocidental corações e mentes dos africanos. O romance é composto por narrativas alternadas da esposa e das quatro filhas menores do pastor, através das quais o leitor acompanha a evolução e o amadurecimento de cada uma delas no convívio com a realidade da África, para elas traumático.Ao fundo, desenrola-se a tragédia do povo africano em sua luta pela independência, que culmina com o assassinato do herói Patrice Lumumba, calculadamente ordenado pelo então presidente Eisenhower e friamente executado pela CIA. História comovente e de construção literária brilhante, saudada pela crítica nos Estados Unidos como um dos romances marcantes da nossa...

Umberto Eco - Entrevista Concedida ao Estadão

Estadão: O livro não está condenado, como apregoam os adoradores das novas tecnologias? U.E : O desaparecimento do livro é uma obsessão de jornalistas, que me perguntam isso há 15 anos. Mesmo eu tendo escrito um artigo sobre o tema, continua o questionamento. O livro, para mim, é como uma colher, um machado, uma tesoura, esse tipo de objeto que, uma vez inventado, não muda jamais. Continua o mesmo e é difícil de ser substituído. O livro ainda é o meio mais fácil de transportar informação. Os eletrônicos chegaram, mas percebemos que sua vida útil não passa de dez anos. Afinal, ciência significa fazer novas experiências. Assim, quem poderia afirmar, anos atrás, que não teríamos hoje computadores capazes de ler os antigos disquetes? E que, ao contrário, temos livros que sobrevivem há mais de cinco séculos? Conversei recentemente com o diretor da Biblioteca Nacional de Paris, que me disse ter escaneado praticamente todo o seu acervo, mas manteve o original em papel, como medida de se...

Umberto Eco - entrevista concedida ao Estadão

Estadão: Em um determinado trecho de 'Não Contem Com o Fim do Livro' , o senhor e Jean-Claude Carrière discutem a função e preservação da memória - que, como se fosse um músculo, precisa ser exercitada para não atrofiar. U.E: De fato, é importantíssimo esse tipo de exercício, pois estamos perdendo a memória histórica. Minha geração sabia tudo sobre o passado. Eu posso detalhar sobre o que se passava na Itália 20 anos antes do meu nascimento. Se você perguntar hoje para um aluno, ele certamente não saberá nada sobre como era o país duas décadas antes de seu nascimento, pois basta dar um clique no computador para obter essa informação. Lembro que, na escola, eu era obrigado a decorar dez versos por dia. Naquele tempo, eu achava uma inutilidade, mas hoje reconheço sua importância. A cultura alfabética cedeu espaço para as fontes visuais, para os computadores que exigem leitura em alta velocidade. Assim, ao mesmo tempo que aprimora uma habilidade, a evolução põe em risco out...

Umberto Eco - entrevista concedida ao Estadão

Estadão : Diversos historiadores apontam os ataques terroristas contra os americanos em 11 de setembro de 2001 como definidores de um novo curso para a humanidade. O senhor pensa da mesma forma? U.E: Foi algo realmente modificador. Na primeira guerra americana contra o Iraque, sob o governo de Bush pai, havia um confronto direto: a imprensa estava lá e presenciava os combates, as perdas humanas, as conquistas de território. Depois, em setembro de 2001, se percebeu que a guerra perdera a essência de confronto humano direto - o inimigo transformara-se no terrorismo, que podia se personificar em uma nação ou mesmo nos vizinhos do apartamento ao lado. Deixou de ser uma guerra travada por soldados e passou para as mãos dos agentes secretos. Ao mesmo tempo, a guerra globalizou-se; todos podem acompanhá-la pela televisão, pela internet. Há discussões generalizadas sobre o assunto. Estadão: Falando agora sobre sua biblioteca, é verdade que ela conta com 50 mil volumes? U.E: Sim, de um...

Umberto Eco - entrevista concedida ao Estadão (4)

Estadão: Um estudioso que também é seu amigo, Marshall Blonsky, escreveu certa vez que existe de um lado Umberto, o famoso romancista, e de outro Eco, professor de semiótica. U.E : E ambos sou eu (risos). Quando escrevo romances, procuro não pensar em minhas pesquisas acadêmicas - por isso, tiro férias. Mesmo assim, leitores e críticos traçam diversas conexões, o que não discuto. Lembro de que, quando escrevia O Pêndulo de Foucault , fiz diversas pesquisas sobre ciência oculta até que, em um determinado momento, elas atingiram tal envergadura que temi uma teorização exagerada no romance. Então, transformei todo o material em um curso sobre ciência oculta, o que foi muito bem-feito. Estadão: Por falar em 'O Pêndulo de Foucault', comenta-se que o senhor antecipou em muito tempo O Código de Da Vinci, de Dan Brown. U.E :Quem leu meu livro sabe que é verdade. Mas, enquanto são os meus personagens que levam a sério esse ocultismo barato, Dan Brown é quem leva isso a sério e...

Umberto Eco - Entrevista concedida ao Estadão (final)

Estadão: Em seu mais conhecido romance, O Nome da Rosa , há um momento em que se discute se Jesus chegou a sorrir. É possível pensar em senso de humor quando se trata de Deus? H.E :De acordo com Baudelaire, é o Diabo quem tem mais senso de humor (risos). E, se Deus realmente é bem-humorado, é possível entender por que certos homens poderosos agem de determinada maneira. E se ainda a vida é como uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, como Shakespeare apregoa em Macbeth, é preciso ainda mais senso de humor para entender a trajetória da humanidade. Estadão :Como foi a exposição no Museu do Louvre, em Paris, da qual o senhor foi curador, no ano passado? H.E :Há quatro anos, o museu reserva um mês para um convidado (Toni Morrison foi escolhida certa vez) organizar o que bem entender. Então, me convidaram e eu respondi que queria fazer algo sobre listas. "Por quê?", perguntaram. Ora, sempre usei muitas listas em meus romances - até pensei em escrever um ens...