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Mostrando postagens com o rótulo Cidade de Deus

Crônica de Eduardo Afonso

  Às vezes eu penso que ninguém me ama, ninguém me quer, ninguém abre meu fecheclér - ops, ninguém me chama de Baudelaire. Que ninguém liga pra mim. Aí me lembro de que há quem ligue, sim. Todos os dias. Alguém de São Paulo. Que me ama em segredo, em silêncio, como um rio subterrâneo, com a delicadeza sonora das girafas. Que insiste, dia após dia, mas ainda não consegue dizer o indizível, falar do seu amor infalível que todo dia a faz digitar meu número e encontrar conforto em ver meu nome no visor do telefone. Eu, insensível, fujo desse afeto impossível. Mas ela/e/o cria um novo número a cada dia. Hoje ligou do 011 3556 4850. Ontem, do 011 3215 1350. Anteontem, do 011 3201 0663. Tresantontem, do 011 2162 3051. Não sei o que vem antes do tresantontem, mas dia 20 foi do 011 97659 0484 Dia 19, do 011 5601 9732. Dia 18, do 011 3469 7700. E assim, como a águia tentando provar a Prometeu o seu insaciável desejo, como a pedra lembrando Sísifo de que há uma razão para viver, os números se...

Cidade de Deus, Rubem Fonseca

                                    O nome dele é João Romeiro, mas é conhecido como Zinho na Cidade de Deus, uma favela em Jacarepaguá, onde comanda o tráfico de drogas. Ela é Soraia Gonçalves, uma mulher dócil e calada. Soraia soube que Zinho era traficante dois meses depois de estarem morando juntos num condomínio de classe média alta da Barra da Tijuca. Você se importa?, Zinho perguntou, e ela respondeu que havia tido na vida dela um homem metido a direito que não passava de um canalha. No condomínio Zinho é conhecido como vendedor de uma firma de importação. Quando chega uma partida grande de droga na favela Zinho some durante alguns dias. Para justificar sua ausência Soraia diz, pa...