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Mostrando postagens com o rótulo Rachel de Queiroz

O Ateu, conto de Rachel de Queiroz

     Era uma vez, já faz muito tempo, havia um homem que era ateu. Naquele pequeno povoado onde morava não existia nenhum outro ateu igual a ele, de forma que o coitado vivia em grande isolamento. Mas era orgulhoso e não se queixava, mesmo quando se sentia mais solitário, por exemplo nos dias de domingo, em que todo o povo da terra ia ouvir missa e ele ficava vagando entre as árvores da praça; ou na véspera de Natal, quando as pessoas só se preocupavam com o Presépio e com a Missa do Galo. Tocavam os foguetes, os sinos repicavam, todo o mundo se alegrava e ia cear, mas o ateu declinava os convites que lhe faziam: não tendo rezado, não se achava com direito à ceia, pois ele com ser ateu não deixava de ser honesto; trancava-se em casa e ficava de vela acesa, lendo um dos seus livros de ateísmo. E, se alguma das pessoas vindas de longe para assistir às festas naquele povoado estranhava a silhueta do homem solitário a ler junto à fresca da janela e perguntava por que não esta...

As Mulheres da Fuvest (1)

     A Fuvest, responsável pelo maior vestibular do país, informou que nos anos de 2026, 2027 e 2028, vai exigir a leitura de livros unicamente de mulheres. Até agora a fuvest pedia majoritariamente livros escritos por homens.   Em 2026 os livros indicados são : Opúsculo Humanitário (1853) – Nísia Floresta Nebulosa s (1872) – Narcisa Amália Memórias de Martha (1899) – Julia Lopes de Almeida Caminho de Pedras (1937) – Rachel de Queiroz O Cristo Cigano (1961) – Sophia de Mello Breyner Andresen As Meninas (1973) – Lygia Fagundes Telles Balada de amor ao vento  (1990) – Paulina Chiziane Canção Para Ninar Menino Grande (2018) – Conceição Evaristo A Visão das Plantas (2019) – Djaimilia Pereira de Almeida Trata-se de uma reparação que já devia ter sido feita há muito tempo. Nunca houve razão nenhum para que Raquel de Queiroz, por exemplo, ser esquecida.  A presença de talentos femininos não invalida nenhum outro talento.  As três primeiras escrito...

Mationã, crônica de Rachel de Queiroz

     Ele chegou num avião da FAB, mandado pelos rapazes da Proteção aos Índios, numa derradeira tentativa de salvação. É um dos pouquíssimos remanescentes de uma tribo que se acaba - fala-se em meia dúzia de indivíduos - os turumais.      Mationã, o índio, tem uns oito anos; pareceia um bichinhonmoribundo quando o vi pela primeira vez, deitado num leito branco, de uma magreza espantosa, o olhar vidrado, comatoso, um gemido monocórdio lhe saindo da boca chagada de febre, a mãozinh seca feito uma garra de pássaro abrindo-se e fechando no ritmo do gemido. Segurei-lhe a mão e ele cerrou com força os meus dedos. Gemeu mais alto. Sei que saí dali chorando.      No dia seguinte passávamos pelo hospital, vimos uma luz no necrotério. O doutor ao meu lado calculou que seria o índio. Mas não era. Semana atrás semana, parecia ainda que seria ele o ocupante da sinistra capelinha; nunca se viu um ataque tão violento de febre maligna num corpinho tão débil....

Metonímia, Ou A Vingança do Enganado, Rachel de Queiroz ( Março: mês da mulheres)

 (Drama em três quadros)  Quadro I      Metonímia - a palavra me ficou na memória desde o ano de 1930, quando publiquei o meu livro de estréia, aquele romance chamado O Quinze. Um crítico, examinando a obrinha, censurava-me porque, em certo trecho da história, eu falava que o galã saíra a andar "com o peito entreaberto na blusa". "Que disparate é esse?", indagava o sensato homem. "Deve-se dizer é: blusa entreaberta no peito". Aceitei a correção com humildade e acanhamento, mas aí o meu ilustre professor de latim, Dr. Matos Peixoto, acudiu em meu consolo. Que estava direito como eu escrevera;que na minha frase eu utilizara uma figura retórica, a chamada metonímia - tropo que consiste em trasladar-se a palavra do seu sentido natural da causa pelo efeito, ou do continente para o conteúdo. E citava o exemplo clássico: "taça espumante" continente pelo conteúdo, pois não é a taça que espuma e sim o vinho. Assim sendo, "peito entreaberto"estav...

Agora Eu Quero Falar de Flores, Raquel de Queiroz

     Flor tem moda como roupa de mulher. E as plantas do tempo antigo, flores, folhagens e ervas de cheiro, ninguém as cultiva mais. Agora são só aqueles estúpidos fícus italianos que parecem feitos de plástico, os antúrios e até tulipas. Hoje em dia, principalmente nas cidades grandes, acabaram-se os manjericões. E as manjeronas, e as alfavacas e de modo geral todas as ervas cheirosas. Quem é que ainda planta alecrim? Quem é que ainda conhece malva-rosa? Rosas, já cultivei rosas quando morava na Ilha do Governador, e era um problema obter mudas das velhas rosas tradicionais dos jardins brasileiros. Rosas Paul-Neron que o povo chama de Palmeirão, Rosa Amélia com seu tom de rosa-claro, verdadeiro cor-de-rosa. Rosas de cacho com que as moças gostavam de enfeitar os cabelos. Rosas mariquinhas, que em linguagem de catálogo, se chamam com um nome horrível - floribundas - e que hoje só aparecem nas suas variedades mais complicadas. Rosas príncipe-negro, como se feitas de velud...

Rapadura, Rachel de Queiroz

     Outro dia foi presa uma senhora porque numa banca de mercado, em pleno sábado de feira, agrediu a rival com uma rapadura, dando-lhe uma tijolada que exigiu doze pontos no couro cabeludo. Rapadura é arma perigosa, um paralelepípedo de doce bruto, pesado e com arestas. Batendo de quina pode até matar.      A banca de rapadura era o local de comércio do próprio marido da agressora. Vinha ela descuidosa, passando ali por acaso, e de repente depara com o quadro ofensivo: o marido em idílio público com a dalila, a messalina, a loba do seu lar! Ela debruçada ao balcão e ele, de dentro, segurava o queixo da sereia e lhe cochichava no ouvido. O monte de rapaduras estava ao lado. Foi só passar a mão na rapadura de cima e virá-la de quina, para castigar mesmo, no pé do ouvido da outra. A agredida se pôs a gritar, com a cara coberta de sangue, e o infiel asperamente ralhou: “Cala a boca, mulher, senão aparece a polícia”.

Geometria dos Ventos,Rachel de Queiroz

Estátua de R.Q-Pça Gal.Tibúrcio,Fortaleza-CE Eis que temos aqui a Poesia,  a grande Poesia. Que não oferece signos nem linguagem específica, não respeita sequer os limites do idioma. Ela flui, como um rio. como o sangue nas artérias, tão espontânea que nem se sabe como foi escrita. E ao mesmo tempo tão elaborada - feito uma flor na sua perfeição minuciosa, um cristal que se arranca da terra já dentro da geometria impecável da sua lapidação. Onde se conta uma história, onde se vive um delírio; onde a condição humana exacerba, até à fronteira da loucura, junto com Vincent e os seus girassóis de fogo, à sombra de Eva Braun, envolta no mistério ao                                        mesmo tempo fácil e insolúvel da sua tragédia. Sim, é o encontro com a Poesia. (Po...

Meus três velhinhos da Revista O Cruzeiro

Rachel de Queiroz para mim  é absolutamente familiar. Evoca meus pais que, leitores assíduos da Revista O Cruzeiro, me despertaram a curiosidade para aquela escritora cuja  foto  PeB era colocada semanalmente na última página da revista mais lida de tempos passados.        Meu pai teria hoje a mesma idade de Rachel e minha mãe estaria com 97 anos. Foram seus leitores  até fora da revista. Mamãe me apresentou  O Quinze e meu pai leu atentamente Memorial de Maria Moura que só comecei a ler agora, muitos anos depois dele.  Dediquei o dia do blog a Raquel de Queiroz e, por tabela, quase sem notar, a Alípio e Maria Emília que me deram carinho e a mania de ler.       A Revista O Cruzeiro foi publicada pela primeira vez em 1928 e acabou em 1975. Até hoje é a revista mais longeva do país. A Veja - que seria sua correspondente na atualidade - ainda precisa de mais três anos de circulação.    ...

Hoje é dia de Rachel

Questionários Rachel de Queiroz Começou o ano de 1959, estava tardando: lá vem o amigo dos questionários (que se assina J. A. Côrrea, de São Paulo). Êle insiste porque sabe que o êxito é certo, os leitores ficam alvoroçados muita gente se interessa por responder também, ou discutir as respostas dadas. Acho que é coisa da natureza humana isso de gostar de ser interpelado e responder, explicar-se, nem que seja para sofrer. Não fôsse assim, como é que os entrevistados em certos programas de televisão se prestariam a expor-se num verdadeiro pelourinho, respondendo a indagações que, ou são indiscretas, ou são descorteses, ou são capciosas, ou são maldosas - e, invariàvelmente, mesmo quando formuladas por amigos, são perguntas de inimigo? Note-se que não censuro os produtores dos programas. Estão no seu papel de bons repórteres, tratando de tirar o máximo de informação e novidades dos seus entrevistados. O que me admira é a cooperação das “vítimas”. Porque se prestam ao interrogató...

Réquiem Para Rachel de Queiroz, Murilo Melo Filho

Réquiem para Rachel de Queiroz  *       Cearense de Fortaleza, Rachel de Queiroz nasceu no dia 17 de novembro de 1910. E morreu no dia 4 de novembro, portanto às vésperas de completar 93 anos. Ao longo destes anos, tão bem vividos, ela foi sempre uma admirável escritora, que ainda há pouco tempo lançou o livro Tantos anos, escrito a quatro mãos com a irmã Maria Luíza. “Sem ela, não haveria livro, que me arrancou à força. Trabalhamos juntas durante quatro anos, ela me perguntando e eu respondendo”, contava a autora de livros consagrados e referenciais, como O Quinze - escrito quando tinha apenas 20 anos, uma obra pronta e acabada, que a consagrou no universo literário do país. Escreveu também Lampião, A beata Maria do Egito, João Miguel, Caminho de pedras, O galo de ouro, Memorial de Maria Moura, Dôra Doralina e As três Marias, seus dois melhores romances. Transparente, coerente e sincera, com a sensibilidade nordestina à flor da pele, Rachel ofereceu-nos...

Hoje é dia de Rachel: Telha de Vidro (Poesia)

                                                        Telha de Vidro Rachel de Queiroz Quando a moça da cidade chegou veio morar na fazenda, na casa velha... Tão velha! Quem fez aquela casa foi o bisavô... Deram-lhe para dormir a camarinha, uma alcova sem luzes, tão escura! mergulhada na tristura                                                         de sua treva e de sua única portinha... A moça não disse nada, mas mand...

Hoje é dia de: Rachel - Correspondência

Correspondência Rachel de Queiroz     Chega-se de viagem e o amontoado de correspondência nos espera – parece que está crescendo, ou será ilusão de vista, filha do sentimento de culpa? Êsse problema de cartas, para o pobre escritor brasileiro, é dos mais sérios. Respondê-las tôdas seria impossível. E, por outro lado, não há por cá o hábito de encarregar secretários da nossa correspondência particular; a tendência do correspondente seria ressentir-se, ao receber uma folha de papel formal e datilografada por terceiro, em resposta à sua cartinha espontânea e pessoalíssima. Aliás – começa que nem temos secretários. Pelo que sei, só artistas de rádio se podem, entre nós, dar êsse luxo...     Depois – a maioria esmagadora das cartas que recebemos tratam de assunto que secretário nenhum pode resolver: pois, sem exagêro, 90% dos que nos procuram, o seu fim principal é êste: mandar uma amostra do que escrevem e pedir ao jornalista a quem se dirigem uma pala...