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Mostrando postagens com o rótulo Van Gogh

Vida em Branco, poema de Zélia Duncan

Você não precisa de artistas? Então me devolve os momentos bons Os versos roubados de nós Arranca o rádio do seu carro Destrói a caixa de som Joga fora os instrumentos E todos aqueles quadros Deixa as paredes em branco Assim como é sua cabeça Seu céu de cimento Silêncio cheio de ódio Nenhuma canção pra ninar E suas crianças em guarda Esperando a hora incerta Pra mandar ou receber rajadas Você não precisa de artistas? Então fecha os olhos, mora no breu Esquece o que a arte te deu Nenhum som, nenhuma cor Nenhuma flor na sua blusa Nem Van Gogh, nem Tom Jobim Nenhum Gonzaga, ou Diadorim Você vai rimar com números Vai dormir com raiva e acordar sem sonhos, sem nada E esse vazio no seu peito Não tem refrão pra dar jeito Não tem balé pra bailar Você não precisa de artistas? Então nos perca de vista Nós deixe de fora Desse seu mundo perverso Sem graça, sem alma. 

Canção Para Van Gogh, Cecília Meireles

Os azuis estão cantando No coração das turquesas: Formam lagos delicados, Campo lírico, horizonte, Sonhando onde quer que estejas. E os amarelos estendem Frouxos tapetes de outono, Cortinados de ouro e enxofre, Luz de girassóis e dálias Para a curva do teu sono. Tudo está preso em suspiros, Protegendo o teu descanso. E os encarnados e os verdes E os pardacentos e os negros Desejam secar-te o pranto. Ó vastas flores torcidas, Revoltos clarões do vento, Voz do mundo em campos e águas, De tão longe cavalgando As perspectivas do tempo! No reino ardente das cores, Dormem tuas mãos caídas. Luz e sombra estão cantando Para os olhos que fechaste Sobre as horas agressivas. E é tão belo ser cantado, Muito acima deste mundo… E é tão doce estar dormindo! É preciso dormir tanto! (É preciso dormir muito…) ( Amsterdã, 5 de novembro de 1951) Fonte: Sonia Zagheto Imagem: 12 girassóis, Van Gogh

A Orelha de Van Gogh, Moacyr Scliar

           Estávamos, como de costume, à beira da ruína. Meu pai, dono de um pequeno armazém, devia a um de seus fornecedores importante quantia. E não tinha como pagar. Mas, se lhe faltava dinheiro, sobrava-lhe imaginação… Era um homem culto, inteligente, além de alegre. Não concluíra os estudos; o destino o confinara no modesto estabelecimento de secos e molhados, onde ele, entre paios e linguiças, resistia bravamente aos embates da existência. Os fregueses gostavam deles, entre outras razões porque vendia fiado e não cobrava nunca. Com os fornecedores, porém, a situação era diferente. Esses enérgicos senhores queriam seu dinheiro. O homem a quem meu pai devia, no momento, era conhecido como um credor particularmente implacável. Outro se desesperaria. Outro pensaria em fugir, em se suicidar até. Não meu pai. Otimista como sempre, estava certo de que daria um jeito. Esse homem deve ter seu ponto fraco, dizia, e por aí o pegamos. Pe...

Quadros, Marin Sorescu - tradução: Luciano Maia

Todos os museus têm medo de mim porque cada vez que fico um dia inteiro em frente de um quadro, no dia seguinte se anuncia o seu desaparecimento. Todas as noites sou flagrado roubando em outra parte do mundo, mas eu não me importo com as balas que silvam perto dos meus ouvidos e com os cães-lobos que conhecem agora o cheiro dos meus rastros melhor que os namorados o perfume da amada. Falo alto com as telas que põem em perigo a minha vida penduro-as nas nuvens e nas árvores e recuo para ter perspectiva. Com os mestres italianos pode-se ter facilmente uma conversa. Que algazarra de cores! Também por esse motivo com eles sou flagrado rapidamente visto e ouvido à distância como se levasse papagaios nos braços. O mais difícil é roubar Rembrandt: estendes a mão e encontras a escuridão – Ficas horrorizado, os seus homens não têm corpos apenas têm olhos fechados em caves escuras. As telas de Van Gogh são doidas giram e dão cambalhotas e tenho de segurá-las bem ...

Ser Levado, Vitorino Nemésio

Tivesse eu sido o que não fui, Hoje era o mesmo projectado António, Pedro, Lopo, Rui, Quatro semblantes num só estado.

Homens Sem Livros, Eduardo Jorge

Prisioneiros se exercitando Van Gogh -1890 Naquele grande prédio cinza ficam os homens sem teses brilhantes.  No café da manhã iniciam a ladainha dos erros, onde poderiam ter sido melhores, detalham cada arrependimento. Imperfeitos, com hálito de anjo, passeiam por outras preferências de pães, pela inexatidão de açúcares e açucenas desfocadas sob fundo negro. Antes que a manhã acabe, deliciam-se com cada ideia sem realização sobre as duzentas páginas que jamais foram cinco, e trocam elogios de gravatas. Ao meio-dia, o zênite. Silêncio, pois pensam no detalhe de cada erro que cresce. Fazem cálculos sobre onde podem ser atacados e por quem. Até escutam os estômagos digerindo o arroz, o frango, as cenouras. No pátio interno há um teatro Boa parte da tarde, encenam ressentimentos com a alegria caindo aos pedaços. À noite, eles se recolhem em suas celas, hora de pensar o erro seguinte. Ali as teorias são frágeis, brilhantes, encantadoras, mas não esper...

Visitando a estante de casa...

Comecei ontem a revisitar minha estante. Não que eu tenha parado de ler, mas é que indo procurar um trecho de livro pedido por meu sobrinho,  achei interessante, olhar mais detalhadamente o que temos lá. Autografado? C om dedicatória? Exemplar muito antigo? Recém adquirido? Veio de sebo?  Estante relativamente organizada foi fácil de encontrar:   Romance d'A Pedra do Reino, Ariano Suassuna.   Nele está o folheto (XXX) pedido por meu sobrinho: A Filosofia do Penetral.  É o exemplar mais antigo da prateleira . Tem 44 anos e foi comprado em Brasília. Tem prefácio de  Raquel de Queiroz e as ilustrações devem ser do próprio Ariano, porque ele também desenhava e não há indicação de um autor para elas. Encontrei nele, também, um poema que Ariano dedicou a seu pai, João Suassuna.  Ainda na estante e mais adiante , na let ra B tem o livro: Vincent!!   A história de Van Gogh escrita pela quadrinhi...