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Mostrando postagens com o rótulo Olegário Mariano

Beretê, poema de Olegário Mariano

Beretê! No teu sangue tumultua O ódio às bandeiras invasoras... Passa Da tua vida na paisage nua O amor - vento de glória e de desgraça. Se em tu corpo morno se insinua Flor de beleza e de frescura, - a graça, O orgulho dos teus gestos perpetua O indomável ardor da tua raça. Em teus olhos pequenos e selvagens Como no espelho imóvel das paisagens Vejo rios, penhascos e cachoeiras... E a tua voz sem timbre me parece Um som confuso de borés que viesse Do fundo das florestas brasileira... Imagem: Mulher mulata, Portinari 1939

Cantigas de Encurtar Caminho, Olegário Mariano

Bate o luar pelas encostas, Banha vales e grotões. Que noite clara e comprida! Entro no atalho da vida Com um grande saco nas costas, Cheio de recordações. A luz do luar, de mansinho. As sombras da noite espanta: Quem canta encurta caminho, Mata saudades quem canta. Pesa-me êste desalento Que a alma me aperta e espezinha "Caminha!" - murmura o vento, Dizem as nuvens: "Caminha!..." Vem do silêncio das matas Rumor de fonte e cachoeira. Cantam minhas alparcatas Cantando a canção da poeira. Tudo canta! A flor do mato, Uma ave noturna, um grilo Canta o veio do regato, Canta o luar no céu tranquilo. Canta o bacurau na serra, Canta o sapo na lagoa. Sobe do hálito da terra O canto da vida boa. Tanto amor! Tanta promessa Nesta vida em que definho!... E eu vou cantando baixinho... Quem canta chega depressa, Quem canta encurta caminho. Em Toda Uma Vida de Poesia vol.2 Ed.José Olympio 1957, págs.535-536 Nota: o blog manteve a ortografia original Imagem: Pixabay

O Livro Mais Velho Da Minha Estante

     Postei aqui sobre a devolução de um livro 105 anos depois da data agendada.  O livro estava em muito bom estado e isso me chamou a atenção.   Tenho toda a obra de Olegário Mariano, que comprei em 3 sebos e são os livros mais velhinhos que tenho em minha estante. Dois deles foram, em algum momento,  reencadernados com capa dura o que demonstra  que alguém deu importância ao objeto.       Outro chegou literalmente caindo aos pedaçõs. Para conseguir ler improvisei uma capa, que me permitisse manuseá-lo sem acabar de rasgar.    O interior do livro relativamente bem conservado. Quem leu não fez nenhum risco, orelha de burro, nada! O vol. 2 da coleção *  veio com capa dura. Para quem tem 67 anos, em ótimas condições. De saída chama a atenção a palavra "tôda" ainda escrito com acento.  Era assim  naquela época!! * Olegário Mariano escreveu vários livros e em 1957 a Ed. José Olympio reunião em 2 volumes....

Mané-Paciência, Olegário Mariano

Mané-Paciência é triste, esquelético e bambo. Barba sem côr, pele rugosa, olhar sem brilho. Se a vida transformou seu corpo num molambo, O infortúnio o adotou como se adota um filho. Pede esmolas, rodando entre as mãos a sacola. O grande chapelão lhe aumenta o ar de inocência. Se alguém dêle sorri quando lhe nega esmola, Mané- Paciência se descobre e diz: paciência... Mas, através daquele corpo, nas encolhas, Vive em sua humildade, uma alma nordestina Que se debruça como uma árvore sem fôlhas Procurando esconder aquela humana ruína. Mané-Paciência é bem  a paisagem nativa, O anônimo infortúnio e a miséria sem nome. Tanto esplendor no céu de uma chama tão via E debaixo do céu tanta gente com fome!

O João-de-Barro do Meu Quintal, Olegário Mariano

O João de barro do meu quintal Construiu dia a dia o seu ninho. Cantava E cantando sonhava, trabalhava Mal o sol descosia a bruma matinal. Argamassou o barro e, solitário, O ninho concluiu, graças a Deus, Com a paciência feliz de um operário Que, pedra a pedra, faz a casa para os seus. Feita a casa limpinha, arejada e modesta No poste mais agudo da Fazenda, Foi para êle esse dia um domingo de festa E uma canção mandou ao céu como oferenda:

A Elegia do Outono, Olegário Mariano

No bailado das folhas amarelas Velhinho trêmulo e setuagenário Rico se sensações e de lendas singelas, O outono aí vem...  Segundo reza o calendário. Aí vem de novo o céu nevoento... As árvores já estão tristes e pensativas: O outono deve atuar no sentimento Das crianças vibráteis e emotivas. A alma de poeta que ama o silêncio e o abandono Num reflexo diluído de ametistas, Vendo e sentindo o outono, Canta felicidades nunca vistas. O outono aí vem sonâmbulo...Trescala Com ele um cheiro novo de folhagem. O outono é humano, o outono fala Pelo gesto indeciso da paisagem... Não há sol. A neblina passa rente Da superfície azul da água estagnada. As folhas cantam comovidamente Canções de notas verdes pela estrada... E vão morrer depois fracas e débeis Contorcidas em gestos de ansiedade... Vendo-a, afino as cordas flébeis Da minha extrema sensibilidade. O outono lembra frases murmuradas Ao ouvido de alguém num gesto lento: Levou o outono as tuas mãos fanada...

Primavera, Olegário Mariano

Jarra com margaridas e anémonas, Van Gogh, Paris 1887 Terra florida. Estação nova. Tanta Vida em redor. Ser fôlha quem me dera! Cada arbusto que vejo é uma garganta, Um grito de entusiasmo à Primavera! Bendito o sol que no alto céu flameja E desce fogo pelas serranias... O sol é um velho sátiro que beija Sôfregamente as árvores esguias. Anda, tonto pelo ar, espanejante, Umenxame fntástico de abelhas Que estonteadoramente paira diante De corolas e pétalas vermelhas. Vida para o trabalho! Ouve-se o côro Dos lavradores e das raparigas... Ondula ao sol, como um penhacho de ouro, A cabeleira fulva as espigas. Primavera! No teu aspecto antigo, Alucinante e triste muitas vêzes, Quando chegas pelo ar trazes contigo Calma e fartura para os camponeses. Dás arrepios fortes e desejos... Teu nome é seiva, é fôrça, é mocidade... A terra anda a clamar pelos teus beijos Que são sementes de fecundidade. (In Toda Uma Vida de Poesia, vol 1 ) (Nota: o blog manteve a g...

Divagando Com Livros de Sebo, Regina Porto

     Quem tem mania(vício? doença?) de ler parece adquirir uns hábito estranhos.                Estive olhando os livros de sebo que possuo. Uns são novos. Bem perto de minha mão esquerda tem um  Moacyr Scliar que comprei por  menos que a metade do preço.  Chegou vindo do Rio de Janeiro e, conforme informado, em excelente estado de conservação.       - Será que o dono não gostou?     - Como não gostou se eu adorei esse livro?      - Te aquieta, Regina! Vai ver que o dono precisou de espaço na estante.       - É, pode ser.      - Ou talvez seja um desapegado fã do autor que pôs à venda  o livro depois de tê-lo emprestado a vários amigos como você mesma faz.        - É mesmo.      Ainda à minha esquerda e na letra M, achei Contos...

Crepúsculo de Junho,Olegário Mariano

A saudade do  Sol vibra nas folhas tenras E as alamêdas têm retos de mocidade... Ainda se ouve um rumor de assas que já fugiram. As árvores estão chorando de saudade Pelas últimas folhas que caíram... Há sombras na água... O poente é ouro velho                                                             [diluído E a paisagem perdida em meia tinta, Tem sombras imperfeitas e bizarras... Sente-se muito ao longe, apagada, indistinta, A música das últimas cigarras... Com estas sugestões de crepúsculos tristes Esta Elegia trêmulo rascunho... dos meus olhos fugiu tôda Felicidade Para sentir-vos, ó Crepúsculos de Junho, Na vossa humana e intérmina saudade. Foi preciso sent...

A Cigarra e a Formiga,Olegário Mariano

A Cigarra E A Formiga Dona formiga, nesta redondeza Rústica e solitária, É tida Como três vezes milionária, Possuidora de esplêndida riqueza Que levou a juntar durante toda a vida. Acostumou-se desde criança à luta, Ao sol de fogo e à aventura brava. Vivia a trabalhar heróica e resoluta Armazenando tudo o que ganhava. Hoje está bem, mas é geralmente malquista Faltam-lha uns poucos sentimentos nobres. É em demasia egoísta E odeia as raparigas que são pobres. Dona Cigarra, por exemplo, alheia A tudo, vive como pode, à toa ... Canta os dias a fio... Tem a garganta quase sempre cheia E quase sempre o estômago vazio... Entretanto,coitada! é humilde e boa. Chega a passar misérias, mas que importa? Só quer que a sua vida não se acabe. Anda de porta em porta... Se não trabalha, é só porque não sabe. Entregou-se de vez à vida airada e quando Se lhe fala em riqueza, Ela responde, trêfega, cantando Que o seu grande tesouro é a Natureza. - Ora, um dia ... (ch...

Príncipes da Poesia (3) Olegário Mariano

           Ainda escolhido por votação organizada pela Revista FonFon em 1938 o 3º príncipe dos poetas é  Olegário Mariano. Pernambucano do Recife tem vários livros de poesia reunidos pela Ed.José Olímpio em Toda Uma Vida de Poesia I e II, que só pode ser adquirido em sebos.  Além de poeta, Olegário Mariano foi também compositor e escreveu para revistas usando pseudônimo. Este blog vem mostrando poemas de Olegário Mariano  internet e músicas dele em parceria com Joubert de Carvalho . Até seu aniversário em março de 2013 o blog LivroErrante vai partilhar descobertas a respeito do terceiro príncipe dos poetas do Brasil. Que Haverá Para Além Das Montanhas?  Olegário Mariano Que haverá para além das montanhas, na linha Que o horizonte apagou para o céu abraçar? Por que Deus não me deu asas de ave marinha? Que haverá para além das montanhas? - o Mar. que haverá para além do corpo azul do oceano,...

Descobrindo Olegário Mariano (1)

Morro da Conceição- Recife. Imagem: FolhaPE Dezembro Dezembro é um mês religioso. Sinto Todas as sensações que ele me empresta. Do livro do Passado quase extinto É um pouco de emoção que ainda me resta. Evoca tempo idos... Desenterra Velhas lembranças comovidamente: Dezembro fala ao coração da Terra E a Terra fala ao coração da gente. Rumor lento de sinos! Por que rolas Do alto e vais murmurando pelos valos ? Não perturbes a toada das violas Nem o canto metálico dos galos! Dezembro é um velho cofre de memórias, Cheio de fantasias e de afetos. Ai como bolem na alma as tais histórias Que as avozinhas contam para os netos! Hoje que faz luar e a noite é bela, Alongando os meus olhos à distância, Deixo-me aqui ficar nesta janela Enquanto voa o pensamento à infância... Há vozes, alaridos , algazarras, Expressões de alegria, olhos de espanto: Passam as raparigas ... Falam tanto, Que parecem um bando de cigarras. Olho absorto... A paisagem se assemelha Àquela que eu deixei d...

Descobrindo Olegário Mariano (1)

Num remanso bucólico e sombrio Onde atenua a marcha o grande rio, Batem roupa,cantando as lavadeiras. Trago ainda nos olhos: é bem ela, A Paisagem do Poço da Panela!     Consultada sobre a autoria e correção do texto acima, descobri que, como eu, pouco pernambucano sabe quem foi Olegário Mariano. Há quem diga que é o pai dele que dá nome ao Cais José Mariano. Só. Uma pena, porque, o poeta recifense e um dos ocupantes da cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras (hoje com Paulo Coelho) tem textos muito bonitos e é autor da letra de algumas músicas. A partir de hoje convido o internauta a descobrir Olegário Mariano comigo.   A propósito, o texto acima postado incompleto   em muitos blogs e sites da internet   é do poema O Poço da Panela, que pode ser lido na íntegra neste blog. Clique aqui . De Papo Pro Á ( título original)  é um cataretê composto por Joubert de Cavalho em parceria com Olegário Mariano. Não quero outra ...

Andorinha, Olegário Mariano

A frescura do céu baixou com a tarde calma, Penetrou pouco a pouco os meus sentidos ... Vejo Em cada boca estuar a volúpia de um beijo, Arder em cada corpo a chama do desejo E um frêmito passar vibrando de alma em alma... Voa, chilreando, louca, uma inquieta andorinha. Cruza o céu, desce à tona azul da água apressada, Pousa num fio telegráfico da rua - Dá-me um pouco de sol! eu que não tenho nada, Preciso de aquecer a minh'alma na tua.            Andorinha! Andorinha! Tens em meu coração tua melhor morada... Mas és outro e afinal bem podias ser minha! (Do livro: O Enamorado da vida -1937) Leia sobre o autor clicando aqui . Leia poema de Olegário Mariano clicando aqui

As Duas Árvores, Olegário Mariano

Vendo esta árvore velha ao pé da adolescente, Penso em nós dois. A luz e a treva, lado a lado. As cigarras em ti cantam festivamente, Nos meus braços o vento é um choro desolado. Perto de ti, vivo de ti separado Que a luz comum que cai sobre nós, de repente, Em mim nada mais é que um reflexo prateado Enquanto em ti abre clarões de sol nascente. Não tenho nada mais para dar-te. Meus braços Sem folhas,sem calor, torcidos nos espaços, Cavam sombras de dor no barro da barranca. E na luz estival que entre as duas se espelha, A árvore nova olha com pena a árvore velha Como gostas de olhar a minha cabeça branca. (Do livro: Mundo encantado 1955) ortografia atualizada.

Natal, Olegário Mariano.

Presépio artesanal, da exposição Oriundi - SP “Filho! Serás feliz!” – Era a voz de Maria Que entre beijos e lágrimas dizia, Ao ver seu grande filho que nascia De olhos azuis e cabecinha loura. Foi no palácio de uma estrebaria, No berço de ouro de uma manjedoura. Lá fora, em céu tranquilo, uma estrela  luzia. A areia do areal machucada rangia: Eram os passos dos camelos, eram Três vultos numa sombra que crescia... E os Reis Magos trouxeram Para o Senhor do Mundo que dormia Ouro, Mirra e Incenso. Aleluia! Aleluia! Alegria! Alegria! Um era preto como a noite, Outro moreno como a tarde, Outro era claro como o dia. Ajoelharam-se trêmulos de espanto Diante da estrela humana que nascia. Mas, no silêncio, em torno só se ouvia: - “Filho! Serás feliz!”  Sempre a voz de Maria Martirizada, cadenciada. Era mãe e previa No seu saber profundo, Como ia ser rude a jornada E como sofreria Seu pequenino Deus – Senhor do Mundo. ...

Capibaribe, Olegário Mariano

Todos os crepúsculos se parecem Vendo essas velhas árvores recurvas E êsse lago profundo de água quieta Emoldurado por samambaias e avencas, Outros crepúsculos mais tristes Despertam na ansiedade dos meus olhos: Os canoeiros passavam cantando na tarde lívida. A cidade emergia das águas do rio, Da enchente do rio. Na rua da aurora Como eram tristes os crepúsculos, baixando Da solidão do céu na alegria da terra! E a água do rio - miradouro dos poentes - Cheia de baronesas e ninféias, Ia levando para longe o bôjo das canoas E as varas dos canoeiros mergulhavam Na água revôlta, ferindo fundo O coração do grande rio da minha terra. E vejo no outro lado esbatido da margem A câmara, o Ginásio e a casa alta Bem na esquina da Rua Riachuelo Onde vivi meu tempo amargo de pobreza. E o rio me recorda outros dias longínquos Quando as canoas, na calma das noites sem lua Passavam levando escondida a escuridão eterna De outras noites, na pele reti...

O Poço da Panela, Olegário Mariano

 Igreja Nsa.Sra. da Saúde no Poço da Panela - Imagem: Regina Porto Num remanso bucólico e sombrio Onde atenua a marcha o grande rio, À sombra de recurvas ingàzeiras, Batem roupa,cantando as lavadeiras. Trago ainda nos olhos: é bem ela, A Paisagem do Poço da Panela: A igreja, a casa grande,as gameleiras E ao fundo o pátio verde e as ribanceiras que afagam, num lúbrico arrepio, A corpo adolescente e alvo do rio. Do outro lado da margem - capinzais Da olaria e do sítio de Morais. Morais Pilôto - um português antigo, Compadre de meu Pai, seu grande amigo, A quem seguia como um cão de fila Através da política intranqüila. Homens, éramos dois. Completamente Diferentes em tudo.Eu, manso e doente, Meu irmão insubmisso e insuportável Como um potrinho de expressão saudável Cometendo distúrbios... Meu irmão Levava surras como um boi ladrão. Mas vingava-se em mim. O quanto eu tinha Era nas suas mãos como farinha. Animais de madeira, leões, camelos, Até a minha coleção de selos Êle queimou...