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Mostrando postagens com o rótulo Pablo Neruda

Aqui Eu Me Despeço, Pablo Neruda

Eu me despeço. Volto à minha casa, em meus sonhos. Volto à Patagônia, aonde o vento golpeia os estábulos e salpica de fresco o Oceano. Sou nada mais que um poeta: amo a todos, ando errante pelo mundo que amo. Em minha pátria, prende-se mineiros e os soldados mandam mais que os juízes. Entretanto, amo até mesmo as raízes de meu pequeno país frio. Se tivesse que morrer mil vezes, ali quero morrer. Se tivesse que nascer mil vezes, ali quero nascer. Perto da araucária selvagem, do vendaval que vem do sul, das campanas recém compradas. Que ninguém pense em mim. Pensemos em toda a terra, golpeando com amor a mesa. Não quero que volte o sangue... a molhar o pão, os feijões, a música: quero que venha comigo o mineiro, a criança, o advogado, o marinheiro, o fabricante de bonecas. Que entremos no cinema e bebamos o vinho mais tinto. Eu não vim para resolver nada. Vim aqui para cantar e quero que cantes comigo

O Bosque Chileno, Pablo Neruda

Flor de Copihue/ flor de la nacionalidad Ao pé dos vulcões, junto aos ventisqueiros, entre os grandes lagos, o fragrante, o silencioso, o emaranhado bosque chileno... Os pés  afundam na folhagem morta, um ramo quebradiço crepita, os gigantescos raulíes* levantam sua estrutura encrespada, um pássaro da selva fria atravessa o ar, esvoaça e se detém entre as ramagens sombrias - e logo, de seu esconderijo, soa como um oboé... o aroma selvagem do loureiro e o aroma obscuro do boldo me penetram pelas narinas até a alma... O cipreste das Guaitecas intercepta meus passos... É um mundo vertical: uma nação de pássaros, uma multidão de folhas... Tropeço em uma pedra, escarvo a cavidade descoberta e uma aranha imensa de pêlo vermelho me olha fixamente, imóvel, grande como um caranguejo... Um besouro dourado me lança sua emanação metífica enquanto desaparece coo relâmpago seu radiante arco-íris ... Ao passar, atravesso o bosque de fetos muito mais alto do que eu; caem no meu rosto sessenta lágr...

8 de Setembro, Pablo Neruda

Hoje, este dia foi uma taça cheia, hoje, este dia foi a onda imensa, hoje, foi a terra inteira. Hoje, o mar tempestuoso ergueu-nos num beijo tão alto que estremecemos ao clarão de um relâmpago e, unidos, descemos para mergulharmos enlaçados. Hoje os nossos corpos dilataram-se, cresceram até ao extremo do mundo e rolaram fundidos numa só gota de cera ou meteoro. Entre mim e ti abriu-se uma nova porta e alguém, sem rosto ainda, esperava-nos ali . Pablo Neruda, in "Os Versos do Capitão"

Me Alugo Para Sonhar, Gabriel García Márquez

     Às nove, enquanto tomávamos o café da manhã no terraço do Habana Riviera, um tremendo golpe de mar em pleno sol levantou vários automóveis que passavam pela avenida à beira-mar, ou que estavam estacionados na calçada, e um deles ficou incrustado num flanco do hotel. Foi como uma explosão de dinamite que semeou pânico nos vinte andares do edifício e fez virar pó a vidraça do vestíbulo.           Os numerosos turistas que se encontravam na sala de espera foram lançados pelos ares junto com os móveis, e alguns ficaram feridos pelo granizo de vidro. Deve ter sido uma vassourada colossal do mar, pois entre a muralha da avenida à beira-mar e o hotel há uma ampla avenida de ida e volta, de maneira que a onda saltou por cima dela e ainda teve força suficiente para esmigalhar a vidraça.     ...

Depois do Terceiro Uísque, Aluízio Falcão

    Depois do terceiro uísque, qualquer paulista normal, com idade superior a trinta anos, passa a gostar de baladas de Roberto Carlos. A conclusão é também válida para acadêmicos de PUC/USP/UNICAMP, sociólogas descasadas, críticos pós modernos, jornalistas em geral.Dá-se, nesse momento, que o precioso líquido escocês, queimando nas fornalhas do metabolismo, ilumina uma zona escura de cérebro, onde secretamente habita nossa porção latino-brega. Afloram, de repente, canções baratas e adormecidas no inconsciente sob o véu de escrúpulos estéticos. Depois do terceiro uísque, ninguém é de ferro. Até o governador Mário Covas seria capaz de cantar, em lágrimas, "Os botões da blusa".       Não me perguntem detalhes da metodologia que usei par chegar a tais revelações. Este não é um texto científico e eu sou pago para escrevinhar amenidades. Não tenho comigo as planilhas. Mas, se a tanto for obrigado, posso exibi-las diante de um tribunal técnico. O máximo ...

Poema 20, Pablo Neruda

Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Escultura de Abelardo da Hora. Imagem:Regina Porto Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada, e tiritam, azuis, os astros, ao longe". O vento da noite gira no céu e canta. Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Eu a quis, e às vezes ela também me quis... Em noites como esta eu a tive entre os meus braços. A beijei tantas vezes debaixo o céu infinito. Ela me quis, às vezes eu também a queria. Como não ter amado os seus grandes olhos fixos. Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi. Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela. E o verso cai na alma como na relva o orvalho. Que importa que meu amor não pudesse guardá-la. A noite está estrelada e ela não está comigo. Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. Minha alma não se contenta com tê-la perdido. Como para aproximá-la meu olhar a procura. Meu coração a procura, e ela não está c...

Ode a Uma Estrela, Pablo Neruda (Melhores livros infantis de 2011)

Trata-se de uma das mais belas e inspiradas adaptações da obra do poeta chileno Pablo Neruda (1904-1973) para o universo infantil. A poesia aborda o aprisionamento de uma estrela e a dificuldade em manter o furto em segredo, dado o brilho intenso do corpo celeste. Ode a Uma Estrela Texto:Pablo Neruda Ilustrações; Elena Odriozola Tradução: Carlito Azevedo Ed.Casac Naify Indicação: 7 anos Este é um dos 30 melhores livros infantis de 2011 escolhidos pela Revista Crescer.

Aniversariante da semana: Pablo Neruda

Pablo Neruda: Parral 12.06.1904-Santiago 23.09.1973 Meu primeiro poema      Agora vou contar-lhes uma história de pássaros. No lago Budi, os cisnes eram perseguidos com ferocidade. Aproximavam-se deles sorrateiramente nos botes e, em seguida, rápido rapido, remavam... Os cisnes, como o albstroz, devem correr patinando sobre a água,empreendendo dificilmente o vôo e levantando com dificuldade as grandes asas. Alcançados, eram exterminados a pauladas.      Trouxeram-me um cisne meio morto. Era uma dessas aves maravilhosas que não voltei a ver no mundo: o cisne de pescoço negro,uma nave de neve com o pescoço esbelto como que metido em uma estreita meia de seda negra, o bico alaranjado e os olhos vermelhos.      Isto foi perto do mar, em Porto Saavedra, Imperial do Sul.      Entregaram-no a mim quase morto. Lavei suas feridas e lhe empurrei pedacinhos de pão e peixe pela garganta. Devolvia tudo.No enta...

El Culpable, Pablo Neruda

Me declaro culpable de no hacer hecho, con estas manos que me dieron, una escoba ` Por qué no hice uma escoba? Por qué me dieron manos? Para qué me sirvieron si sólo vi el rumor del cereal, si sólo tuve oídos para el viento y no recogí el hilo de la escoba, verde aun en la tierra, y no puse a secar los tallos tiernos y no los pude unir en un haz áureo y no junté una caña de madera a la falda amarilla hasta dar uma escoba a los caminos? Así fue: no sé cómo se me pasó la vida sin aprender,sin ver, sin recoger y unir los elementos En esta hora no niego que tuve tiempo, tiempo, pero no tuve manos, y así, cómo podia aspirar com razón a la grandeza si nunca fui capaz de hacer una escoba. una sola, una? (Las Manos Del Día - 1968)