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Mostrando postagens de outubro, 2023

A Bruxa, Carlos Drummond de Andrade

Nesta cidade do Rio, de dois milhões de habitantes, estou sozinho no quarto, estou sozinho na América. Estarei mesmo sozinho? Ainda há pouco um ruído anunciou vida ao meu lado. Certo não é vida humana, mas é vida. E sinto a bruxa presa na zona de luz. De dois milhões de habitantes! E nem precisava tanto… Precisava de um amigo, desses calados, distantes, que leem verso de Horácio mas secretamente influem na vida, no amor, na carne. Estou só, não tenho amigo, e a essa hora tardia como procurar amigo? E nem precisava tanto. Precisava de mulher que entrasse nesse minuto, recebesse este carinho, salvasse do aniquilamento um minuto e um carinho loucos que tenho para oferecer. Em dois milhões de habitantes, quantas mulheres prováveis interrogam-se no espelho medindo o tempo perdido até que venha a manhã trazer leite, jornal e clama. Porém a essa hora vazia como descobrir mulher? Esta cidade do Rio! Tenho tanta palavra meiga, conheço vozes de bichos, sei os beijos mais violentos, viajei, brigu

Estão Batendo na Porta, Ricardo Azevedo

homem sério chega cedo olha seco pras pessoas cumprimenta com a cabeça fica longe e vai sentando homem culto chega aéreo vive no mundo da lua abre um livro des’tamanho distraído vai sentando homem belo vem bonito elegante e perfumoso puxa o espelho, passa o pente vem pro centro e vai sentando homem pobre quando chega chega sem nada na mão olha quieto, fala baixo e depois senta no chão homem sábio chega calmo um por um vai abraçando fala pouco, olha os olhos fica junto e vai sentando homem doido chega e planta bananeira na janela mostra a língua, tira a roupa pinta o sete e vai sentando homem chato chega bobo vem torrando a paciência fala mole, não se enxerga enche o saco e vai sentando homem triste vem sozinho puxa o lenço e chora um pouco muita gente chega perto ele gosta e vai sentando homem fraco chega branco capengando agasalhado geme, espirra, tosse, funga cospe, engasga e vai deitando homem alegre chega leve vem contando as novidades dá três beijos, quatro abraços solta o riso e

A Coruja Cega, Sadegh Hedayat (Irã) - tradução Marcelo Antinori

Neste mundo perverso, cheio de infelicidade e miséria, pensei que ao menos uma vez, um raio de sol iluminara minha vida. Talvez não um raio de sol, mas quem sabe um lampejo fugaz, ou mesmo uma estrela cadente, que reluziu sobre mim na forma de uma mulher – ou de um anjo. No brilho daquele momento, que durou poucos segundos, pude confirmar a má sina de minha vida e conhecer sua real dimensão e grandeza. Depois, a claridade esvaneceu dentro do sombrio abismo a que fui predestinado. Não, eu não pude guardar aquele brilho de luz para mim. Foi há três meses, não, dois meses e quatro dias atrás, que eu a perdi. Ainda assim a memoria de seus olhos encantadores, não, a memoria da envolvente malicia de seus olhos, permaneceu indelével em meus pensamentos. Como poderia esquecer alguém tão importante para a minha vida? Não, jamais direi seu nome. Ela, com seu corpo delicado e aqueles grandes olhos intensos, cheios de magia, que incendiaram minha vida e depois lenta e dolorosamente a fizeram esva

No Ritmo da Rima, Luciene de Freitas

No Ritmo da Rima é uma série de 4 livros de doces poesias infantis de Luciene de Freitas caprichadamente ilustrados por crianças.  Brincando Com Água Brincando Com Flores Brincando Só e  Brincando de Faz de Conta,   são os livros que compõem essa série tão agradável de ler  e ou de apenas olhar e ser envolvido pela ternura que cada exemplar transmite.   Há Poesia  No mar, no silêncio, no ar nos passos, na noite, no compasso na rua, no assobio,na lua no voo ritimado, colorido, da juriti na chuva que do céu desce, na lágrima que no rosto esmorece. no firmamento, na inocência, no encantamento, no bailado da folha que, no Outono, cai ou na palavra que, com sentimento, da boca sai.

O Menino Que Carregava Água na Peneira, Manoel de Barros

Tenho um livro sobre águas e meninos. Gostei mais de um menino que carregava água na peneira. A mãe disse que carregar água na peneira era o mesmo que roubar um vento e sair correndo com ele para mostrar aos irmãos. A mãe disse que era o mesmo que catar espinhos na água. O mesmo que criar peixes no bolso. O menino era ligado em despropósitos. Quis montar os alicerces de uma casa sobre orvalhos. A mãe reparou que o menino gostava mais do vazio, do que do cheio. Falava que vazios são maiores e até infinitos. Com o tempo aquele menino que era cismado e esquisito, porque gostava de carregar água na peneira. Com o tempo descobriu que escrever seria o mesmo que carregar água na peneira. No escrever o menino viu que era capaz de ser noviça, monge ou mendigo ao mesmo tempo. O menino aprendeu a usar as palavras. Viu que podia fazer peraltagens com as palavras. E começou a fazer peraltagens. Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela. O menino fazia prodígios. Até fez uma pedra dar fl