Vejo-me debruçado numa janela da Rua da Aurora, enquanto a noite baixava sobre o rio e a ponte.
Contra a luz morrente os sobrados pareciam mais esguios, a sombra arroxeada se projetando imprecisa nas águas escuras do Capibaribe. Lembro-me bem: embora o céu prometese chuva, o ar vibrava sob o calor. De vez em quando, a aragem fresca trazia cheiros estranhos: óleo, maresia e peixe frito; mas também de cajueiros e jaqueiras distantes, da alvarenga abarrotada de abacaxis que estaria navegando na direção do Cais de Santa Rita. A aragem, entretanto, não me acalmava.
O mapa, é o primeiro capítulo da novela Vento de Amanhecer em Macambira, de José Condé, que, com outra novela sua, Tempo, Vida, Solidão, e com o livro de contos As chuvas, integram Obras escolhidas de José Condé, 2ª ed., publicado no pela Civilização Brasileira em convênio com o Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, em 1978, p.18-19..
Contra a luz morrente os sobrados pareciam mais esguios, a sombra arroxeada se projetando imprecisa nas águas escuras do Capibaribe. Lembro-me bem: embora o céu prometese chuva, o ar vibrava sob o calor. De vez em quando, a aragem fresca trazia cheiros estranhos: óleo, maresia e peixe frito; mas também de cajueiros e jaqueiras distantes, da alvarenga abarrotada de abacaxis que estaria navegando na direção do Cais de Santa Rita. A aragem, entretanto, não me acalmava.
“Vai ser um estirão de enlouquecer.”
As palavras de Albérico iam e vinham, confusas, dentro de mim. Ah, se tivesse sido apenas isso!
A lembrança do mapa azul largado em cima da mesa me levava a um pequeno ponto preto – impreciso e quase desnecessário – que seria meu destino: o Poti. Ficava à margem de uma linha grossa e sinuosa, em vermelho, cortando a gravura como uma cobra: o São Francisco.
Não iria jantar e meter-me em seguida na cama. Passaria a noite num cabaré do Recife, daí seguindo diretamente para o Ford e a estrada que me esperava com sua poeira, o calor, a enervação.
A noite apossava-se completamente do rio e do casario da Rua da Aurora. Na ponte, um bonde rodava para os arrabaldes. Apesar dos postes a intervalos na amurada do Capibaribe, a água lamacenta confundia-se com o próprio céu numa só mancha salpicada, aqui e ali, de pequeninos olhos luminosos, olhos de bicho no cio espreitando a noite.
Não demorou muito e a chuva caiu, maciça, morna, ferindo com aspereza a face do rio. Uma barcaça, lanterna à proa em sentinela, passou, monstruosa e indefinida. Os grossos pingos em vertical lavavam o casco e a lona que cobriam o carregamento. Alguém surgiu à popa, mas logo recuou para dentro.
Novamente a lembrança do mapa azul em cima da mesa: o ponto insignificante diluído entre centenas de outros pontos e de outras linhas vermelhas, azuis, amarelas; novamente a observação inquietante de Albérico.
E, no entanto, creia-me, alguns daqueles pontos negros no mapa tinham uma significação específica: lugares, casas, bichos, árvores, sobretudo criaturas às quais me sentia ligado por um passado e uma paisagem comuns

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