Pular para o conteúdo principal

O Mapa, José Condé

Vejo-me debruçado numa janela da Rua da Aurora, enquanto a noite baixava sobre o rio e a ponte.
Contra a luz morrente os sobrados pareciam mais esguios, a sombra arroxeada se projetando imprecisa nas águas escuras do Capibaribe. Lembro-me bem: embora o céu prometese chuva, o ar vibrava sob o calor. De vez em quando, a aragem fresca trazia cheiros estranhos: óleo, maresia e peixe frito; mas também de cajueiros e jaqueiras distantes, da alvarenga abarrotada de abacaxis que estaria navegando na direção do Cais de Santa Rita. A aragem, entretanto, não me acalmava.
“Vai ser um estirão de enlouquecer.”
As palavras de Albérico iam e vinham, confusas, dentro de mim. Ah, se tivesse sido apenas isso!
A lembrança do mapa azul largado em cima da mesa me levava a um pequeno ponto preto – impreciso e quase desnecessário – que seria meu destino: o Poti. Ficava à margem de uma linha grossa e sinuosa, em vermelho, cortando a gravura como uma cobra: o São Francisco.
Não iria jantar e meter-me em seguida na cama. Passaria a noite num cabaré do Recife, daí seguindo diretamente para o Ford e a estrada que me esperava com sua poeira, o calor, a enervação.
A noite apossava-se completamente do rio e do casario da Rua da Aurora. Na ponte, um bonde rodava para os arrabaldes. Apesar dos postes a intervalos na amurada do Capibaribe, a água lamacenta confundia-se com o próprio céu numa só mancha salpicada, aqui e ali, de pequeninos olhos luminosos, olhos de bicho no cio espreitando a noite.
Não demorou muito e a chuva caiu, maciça, morna, ferindo com aspereza a face do rio. Uma barcaça, lanterna à proa em sentinela, passou, monstruosa e indefinida. Os grossos pingos em vertical lavavam o casco e a lona que cobriam o carregamento. Alguém surgiu à popa, mas logo recuou para dentro.
Novamente a lembrança do mapa azul em cima da mesa: o ponto insignificante diluído entre centenas de outros pontos e de outras linhas vermelhas, azuis, amarelas; novamente a observação inquietante de Albérico.
E, no entanto, creia-me, alguns daqueles pontos negros no mapa tinham uma significação específica: lugares, casas, bichos, árvores, sobretudo criaturas às quais me sentia ligado por um passado e uma paisagem comuns

O mapa, é o primeiro capítulo da novela Vento de Amanhecer em Macambira, de José Condé, que, com outra novela sua, Tempo, Vida, Solidão, e com o livro de contos As chuvas, integram Obras escolhidas de José Condé, 2ª ed., publicado no pela Civilização Brasileira em convênio com o Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, em 1978, p.18-19
..

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

A Beleza Total, Carlos Drummond de Andrade.

A beleza de Gertrudes fascinava todo mundo e a própria Gertrudes. Os espelhos pasmavam diante de seu rosto, recusando-se a refletir as pessoas da casa e muito menos as visitas. Não ousavam abranger o corpo inteiro de Gertrudes. Era impossível, de tão belo, e o espelho do banheiro, que se atreveu a isto, partiu-se em mil estilhaços. A moça já não podia sair à rua, pois os veículos paravam à revelia dos condutores, e estes, por sua vez, perdiam toda a capacidade de ação. Houve um engarrafamento monstro, que durou uma semana, embora Gertrudes houvesse voltado logo para casa. O Senado aprovou lei de emergência, proibindo Gertrudes de chegar à janela. A moça vivia confinada num salão em que só penetrava sua mãe, pois o mordomo se suicidara com uma foto de Gertrudes sobre o peito. Gertrudes não podia fazer nada. Nascera assim, este era o seu destino fatal: a extrema beleza. E era feliz, sabendo-se incomparável. Por falta de ar puro, acabou sem condições de vida, e um di...

Mãe É Quem Fica, Bruna Estrela

           Mãe é quem fica. Depois que todos vão. Depois que a luz apaga. Depois que todos dormem. Mãe fica.      Às vezes não fica em presença física. Mas mãe sempre fica. Uma vez que você tenha um filho, nunca mais seu coração estará inteiramente onde você estiver. Uma parte sempre fica.      Fica neles. Se eles comeram. Se dormiram na hora certa. Se brincaram como deveriam. Se a professora da escola é gentil. Se o amiguinho parou de bater. Se o pai lembrou de dar o remédio.      Mãe fica. Fica entalada no escorregador do espaço kids, pra brincar com a cria. Fica espremida no canto da cama de madrugada pra se certificar que a tosse melhorou. Fica com o resto da comida do filho, pra não perder mais tempo cozinhando.      É quando a gente fica que nasce a mãe. Na presença inteira. No olhar atento. Nos braços que embalam. No colo que acolhe.      Mãe é quem fica...

Vamos pensar? (18)

Será que às vezes o melhor não é se deixar molhar?