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Mostrando postagens com o rótulo poema

Fada da Rua Favorita, soneto de Luciano Maia

antes que a noite finde e se conclua o derradeiro gesto do luar ainda se vesta de mistério e lua o seu corpo de enigmas sem par. Seu gesto com aquele compactua e um fascínio de lua, singular cai sobre as pedras toscas desta rua a favorita rua do meu bar. Quem lhe dará o bem que ela lhe quer? Quem das perdas de noite se ressarce nas dádivas de amor dessa mulher? Se o seu gesto é sem medo e sem disfarce e se a paixão do mundo ela souber quem saberá por ela apaixonar-se? Em: Dunas, livro de sonetos, Luciano Maia, Academia Cearense de Letras 1984, pág.81

Adeus, poema de Ondjaki

no jardim da minha casa encruzilhei-me com uma lesma. ela ofereceu um olhar. vi o mundo pela sedução da lesma: tudo ardilhado de simplicidade. ofereci uma tristeza: ela quase cedeu a transparências. aprendi com a lesma: uma tristeza não deve ser emprestada. o mundo, mesmo partilhado é muito a pele de cada qual. na falta de dedos a lesma fez adeus com o corpo. e veio a chuva reaprendemos assim o lugar de nossas almas. Em: Materiais Para Confecção de Um Espanador de Tristezas, Ed. Caminho, 2009

Pausa Lenta, poema de Amanda Gaspar

Antes de tocar a pele, acende uma ideia dentro, como se o pensamento sentisse primeiro e só depois o corpo concordasse. O mar segura a luz na linha do horizonte, como quem demora num segredo. E ele surge, solto do abraço das águas, e tudo muda de tom sem fazer alarde. A luz não manda, não empurra, não disputa. Ela vem baixa, molhada, misturada de sal e ouro, e o mundo vai ficando possível. O azul não some: amacia. O vento não corta: afaga. O calor não queima: aquece. E o peito, que às vezes pesa, ganha espaço, como quem abre uma janela por dentro. Não se pede prova. Não se tem pressa. Numa alquimia quieta: pensamento vira calma, calma vira gesto, gesto vira presença. O brilho muda de formato. Uma nova hora. Um novo tempo. O seu momento. Nasce do mar e, por alguns minutos, é como se a vida dissesse, sem falar: aqui. agora. de novo. Não grita, não disputa, não performa. Apenas revela o que sempre esteve ali.

Flores, poema de Adélia Prado

A boa-noite floriu suas flores grandes, parecendo saia branca. Se eu tocasse um piano elas dançavam. Fica tão bom o mundo assim com elas, que nem me desprezo por querer marido. Perfumam a noite. A gaita de um menino que nunca morre toca erradinho e doce. Eu cumpro alegremente minhas obrigações paroquiais e não canso de esperar; mais hoje; mais amanhã, qualquer coisa esplêndida acontece: as cinco chagas, o disco voador,o poeta com seu cavalo relinchando na minha porta. Desejava tanto tomar bênção de pai e mãe, juntr uns pios, umas nesgas de tarde, um balançando de tudi que balança no vento e tocar na flauta. É tão bom que nem ligo que Deus não me conceda ser bonita e jovem ( um dos desejos mais fundos da minha alma) "O Espírito de Deus pairava sobre as águas..." Sobre o meu, pairam estas flores e sou mais forte que o tempo. Em: O coração disparado, Ed. Salamandra 1984, pág.23

A Professora Encantadora, Márcio Vassalo

  Maísa era uma professora que olhava para tudo com olho de assombro e estranheza. Ela dizia que assombro é um susto cheio de beleza e que estranheza é o casamento do estranho com a surpresa. As aulas da Maísa eram mesmo assombrosas, estranhas e surpreendentes. Na escola, ela se derretia de amor pelas palavras, pelas frases, pelos livros. Mas a Maísa se derretia pelas pessoas ainda mais que pelos livros. Então, a professora contagiava a gente com todo aquele derretimento. E dava aula de esticar suspiro. De olhos fechados, nós aprendíamos a suspirar fundo. E a Maísa suspirava junto com a gente, com aquele seu riso, às vezes freado, às vezes desembestado. Ah, e para ninguém atrapalhar a aula com urgências sem importância, no lado de fora da porta a professora pendurava um aviso: NÃO ENTRE AGORA. ESTAMOS SUSPIRANDO… No começo, os alunos que não conheciam bem a Maísa achavam que um dia ela daria uma prova para ver quem tinha aprendido a suspirar certo.Mas a professora logo explicava qu...

Mulheres da Fuvest (3): O Africano e o Poeta, poema de Narcisa Amália

Les eclaves... Est-ce qu'ils ont des dieux? Est-ce qu'ils ont des fils, eux qui n'ont point d'aieux? (Lamartine) No canto tristonho Do pobre cativo Que elevo furtivo, Da lua ao clarão; Na lágrima ardente Que escalda-me o rosto, De imenso desgosto Silente expressão;       Quem pensa? - O poeta       Que os carmes sentidos        Concerta aos gemidos        De seu coração. Deixei bem criança Meu pátrio valado, Meu  ninho embalado Da Líbia no ardor; Mas esta saudade Que em túmulo anseio Lacera-me o seio Sulcado de dor,      Que sente? - O poeta      Que o elísio descerra      Que vive na terra      De místico amor!  -Roubaram-me feros A f'ervidos braços; Em rígidos laços Sulquei vasto mar; Mas este queixume Do triste mendigo, Sem pai, sem abrigo, Quem quer escutar?...      Quem quer? O poeta      Que os térreos mistérios ...

Análise, poema de Fernando Pessoa

Tão abstrata é a ideia do teu ser Que me vem de te olhar, que, ao entreter Os meus olhos nos teus, perco-os de vista, E nada fica em meu olhar e dista Teu corpo do meu ver tão longamente, E a ideia do teu ser fica tão rente Ao meu pensar olhar-te, a ao saber-me Sabendo que tu és,que, só por ter-me Consciente de ti, nem a mim sinto. E assim, nesre ignorar-me a ver-te, minto A ilusão da sensação, e sonho Não te vendo, nem vendo, nem sabendo Que te vejo, ou sequer que sou risonho Do interior crepúsculo tristonho Em que sinto que sonho o que me sinto sendo. F.P - dezembro de 1911 Imagem: Baile, Picasso

Beretê, poema de Olegário Mariano

Beretê! No teu sangue tumultua O ódio às bandeiras invasoras... Passa Da tua vida na paisage nua O amor - vento de glória e de desgraça. Se em tu corpo morno se insinua Flor de beleza e de frescura, - a graça, O orgulho dos teus gestos perpetua O indomável ardor da tua raça. Em teus olhos pequenos e selvagens Como no espelho imóvel das paisagens Vejo rios, penhascos e cachoeiras... E a tua voz sem timbre me parece Um som confuso de borés que viesse Do fundo das florestas brasileira... Imagem: Mulher mulata, Portinari 1939

Vida em Branco, poema de Zélia Duncan

Você não precisa de artistas? Então me devolve os momentos bons Os versos roubados de nós Arranca o rádio do seu carro Destrói a caixa de som Joga fora os instrumentos E todos aqueles quadros Deixa as paredes em branco Assim como é sua cabeça Seu céu de cimento Silêncio cheio de ódio Nenhuma canção pra ninar E suas crianças em guarda Esperando a hora incerta Pra mandar ou receber rajadas Você não precisa de artistas? Então fecha os olhos, mora no breu Esquece o que a arte te deu Nenhum som, nenhuma cor Nenhuma flor na sua blusa Nem Van Gogh, nem Tom Jobim Nenhum Gonzaga, ou Diadorim Você vai rimar com números Vai dormir com raiva e acordar sem sonhos, sem nada E esse vazio no seu peito Não tem refrão pra dar jeito Não tem balé pra bailar Você não precisa de artistas? Então nos perca de vista Nós deixe de fora Desse seu mundo perverso Sem graça, sem alma. 

Prece, Fernando Pessoa

Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está - (o teu templo) - eis o teu corpo. Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome. Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faz com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai. Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar. Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te...

Vamos Pensar: O Louco, Kalil Gibran (2)

Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim: Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas. sim, as sete máscaras que para mim tinha fabricado e utilizado nas minhas sete vidas. corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: - Ladrões, ladrões, malditos ladrões! Homens e mulheres riram-se de mim e alguns fecharam-se em casa, com medo de mim. E quando cheguei à praça do mercado, um rapaz que estava de pé no telhado da casa, gritou apontando-me com o dedo: - É um louco! Ergui os olhos para o ver, O sol banhou o meu rosto despido e a minha alma encheu-se de amor ao sol, e desde então nunca mais quis usar máscara. Depois gritei como se estivesse em transe: - Benditos, benditos os ladrões que me roubaram máscaras!” Foi assim que me tornei louco. encontrei muita liberdade e segurança na minha loucura; a liberdade da solidão e a segurança de nunca ser compreendido, pois aquele q...

Canção Para Van Gogh, Cecília Meireles

Os azuis estão cantando No coração das turquesas: Formam lagos delicados, Campo lírico, horizonte, Sonhando onde quer que estejas. E os amarelos estendem Frouxos tapetes de outono, Cortinados de ouro e enxofre, Luz de girassóis e dálias Para a curva do teu sono. Tudo está preso em suspiros, Protegendo o teu descanso. E os encarnados e os verdes E os pardacentos e os negros Desejam secar-te o pranto. Ó vastas flores torcidas, Revoltos clarões do vento, Voz do mundo em campos e águas, De tão longe cavalgando As perspectivas do tempo! No reino ardente das cores, Dormem tuas mãos caídas. Luz e sombra estão cantando Para os olhos que fechaste Sobre as horas agressivas. E é tão belo ser cantado, Muito acima deste mundo… E é tão doce estar dormindo! É preciso dormir tanto! (É preciso dormir muito…) ( Amsterdã, 5 de novembro de 1951) Fonte: Sonia Zagheto Imagem: 12 girassóis, Van Gogh

Eulália, Rogaciano Leite

  Deixei-a solitária, por uns dias, Enquanto melhorava do ciúme, E saí pra evitar muitas porfias Que entre nós já se davam — de costume.   Nesse tempo eu andava arrumado! As brigas entre nós, frequentemente, Transformaram a abelha do passado Numa aranha de dor — sempre presente!   Então o inseto que fazia, outrora, Mel de carícias na feliz colmeia, Vinha fazendo entre nós dois, agora, O fel da vida — numa horrível teia!   Corri mundos... andei por terra estranha Procurando renúncia, esquecimento... Mas dia-a-dia se infiltrava a aranha Na teia enorme do meu pensamento!   Mandava-lhe presentes de onde estava, Escrevia-lhe cartas carinhosas Pedindo que esperasse que eu voltava E novamente nasceriam rosas...   Mas, uma noite, (Triste noite, amigo!) Eu entrei num Cassino.. . (Que amargura!) Ai! Não chores de ouvir o que te digo Nem te rias da minha desventura!   A sala estava cheia do cinismo Dos que, no vício, vão matar a sede. .. Era um antro de fumo e de...

Manoel de Barros.

Eu estava encostado na manhã como se um pássaro  à toa estivesse encostado na manhã. Me veio uma aparição: Vi a tarde correndo atrás de um  cachorro.   Eu teria 14 anos.Essa aparição deve ter vindo de minhas origens. Porque nem me lembro de ter visto nenhum cachorro a correr de uma tarde. Mas tomei nota desse delírio. Esses delírios irracionais da imaginação fazem mais bela a nossa linguagem. Tomei nota desse delírio em meu caderno de frases. Àquele tempo eu já guardava delírios. Tive outra visão naquele mês. Mas preciso antes contar as circunstâncias. Eu exercia um pedaço da minha infância encostado à parede da cozinha no quintal de casa. Lá eu brincava de cangar sapos. Havia muitos sapos atrás da cozinha. A gente bem se entendia. Eu reparava que os sapos têm o couro das costas bem parecido com o chão. Além de que eram do chão e encardidos. Um dia falei pra mãe: sapo é um pedaço de chão  que pula . A  mãe disse que eu estava meio variado. ...

Poema no saco de pão.

A Mágica do Pão Recy Lopes Avancini  Paz, amor, oração! Olha só o que se encontra Nas três letrinhas  do pão! É só colocar o til Soa como coração. Paz da fome saciada Amor pra quem o concedeu Oração a que Jesus Orou na última ceia e, Junto o pão sagrado comeu Pão também traz esperança Quando alimenta uma criança. Com pão se faz mágica Veja bem, quando é pouco o que se tem Mas, com criatividade Ele vira novidade Só nos resta agradecer Àqueles que de madrugada Enquanto nós descansamos Já estão na sua jornada Assim que o dia desponta A fornada já está pronta E toda sociedade Sem nenhuma distinção Por toda nossa nação Com sentimentos verdadeiros Mesmo que em pensamento GRITA: muito obrigado padeiros.

Poema 20, Pablo Neruda

Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Escultura de Abelardo da Hora. Imagem:Regina Porto Escrever, por exemplo: "A noite está estrelada, e tiritam, azuis, os astros, ao longe". O vento da noite gira no céu e canta. Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Eu a quis, e às vezes ela também me quis... Em noites como esta eu a tive entre os meus braços. A beijei tantas vezes debaixo o céu infinito. Ela me quis, às vezes eu também a queria. Como não ter amado os seus grandes olhos fixos. Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi. Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela. E o verso cai na alma como na relva o orvalho. Que importa que meu amor não pudesse guardá-la. A noite está estrelada e ela não está comigo. Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Ao longe. Minha alma não se contenta com tê-la perdido. Como para aproximá-la meu olhar a procura. Meu coração a procura, e ela não está c...