Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo curitiba

Anotações Sobre Um Amor Urbano, conto de Caio Fernando Abreu

      Desculpa, digo, mas se eu não tocar você agora vou perder toda a naturalidade, não conseguirei  dizer  mais nada, não tenho culpa, estou apenas sentindo sem controle, não me entenda mal, não me entenda bem, é só esta vontade quase simples de estender o braço para tocar você, faz tempo demais que estamos aqui parados conversando nesta janela, já dissemos tudo que pode ser dito entre duas pessoas que estão tentando se conhecer, tenho a sensação impressão ilusão de que nos compreendemos, agora só preciso estender o braço e, com a ponta dos meus dedos, tocar você, natural que seja assim: o toque, depois da compreensão que conseguimos, e agora. Não diz nada, você não diz nada. Apenas olha para mim, sorri. Quanto tempo dura? Faz pouco despencou uma estrela e fizemos, ao mesmo tempo e em silêncio, um pedido, dois pedidos. Pedi para saber tocá-lo. Você não me conta seus desejos. Sorri com os olhos, com a mesma boca que mais tarde, um dia, depois daqui, poderá me d...

Chove Chuva, conto de Dalton Trevisan( 14/6/1925 - 9/12/2024)

      A fumaça da chuva sobe pela chaminé das casas e se espalha sobre a cidade. Um fio de silêncio cai de cada gota. As gatas dengosas se viram de costas para dormir. Chove chuvinha, um lado da palmeira nunca se molha.      A casa das formigas não tem porta, e quando chove, não se afogam? Piam milhares de pardais entre as folhas do chorão. Não existe melhor conchego que um barzinho. Nada como a meia grossa de lã. Apaixonadas ou não, mocinhas espirram na fila do ônibus.      Neste instante há no mínimo três mil pessoas infelizes com o sapato furado. Basta que não chova eu me chamo Felipe, o Belo. Como pisar na lama, garotas da várzea, sem sujar as sapatilhas? Orelhas de piás são puxadas por brincarem na chuva. Os mascates que vendem maçã na rua, em desespero comem as maçãs?      Não estivesse chovendo eu teria sete filhos.      Guardas de trânsito abrem os braços na esquina e apitam: por que choves, Senhor? Chove...

Carnaval Em Curitiba, Cristóvão Tezza (Nascido em 21 de Agosto)

        Carnaval Em Cruritiba        Lembro Jamil Snege, atrás da mesa, cigarro entre os dedos: "Carnaval em Curitiba? Não dá. O sujeito pula na rua, alegrinho, vem o guarda e prende!" Vendo de um certo jeito, é uma espécie de maldição esse carnaval — ou não-carnaval — na cidade. Temos até de nos explicar por escrito, como agora. Parece que carregamos a culpa pela falta de espírito carnavalesco, a vergonha do falso rebolado, essa triste ausência de brasilidade, quem sabe até falta de patriotismo! Quando o Brasil inteiro dança, nós aqui, naquele silêncio de missa, andando pelas ruas vazias, metendo o olho crítico no primeiro engraçadinho que sai por aí fazendo escândalo. Coisa de bêbados! Nem as crianças se entusiasmam: uma terça-feira gorda no Parque Barigüi, que descanso! Parece que estamos passeando em Genebra num começo de primavera! Nenhuma máscara de pirata ou palhaço, nada de serpentina, nem um único confete no chão, naquelas trilhas onde o ...

Penélope, Dalton Trevisan

     Naquela rua mora um casal de velhos. A mulher espera o marido na varanda, tricoteia em sua cadeira de balanço. Quando ele chega ao portão, ela está de pé, agulhas cruzadas na cestinha. Ele atravessa o pequeno jardim e, no limiar da porta, beija-a de olho fechado.            Sempre juntos, a lidar no quintal, ele entre as couves, ela no canteiro de malvas. Pela janela da cozinha, os vizinhos podem ver que o marido enxuga a louça. No sábado, saem a passeio, ela, gorda, de olhos azuis e ele, magro, de preto. No verão, a mulher usa um vestido branco, fora de moda; ele ainda de preto. Mistério a sua vida; sabe-se vagamente, anos atrás, um desastre, os filhos mortos. Desertando casa, túmulo, bicho, os velhos mudam-se para Curitiba      Só os dois, sem cachorro, gato, passarinhos. Por vezes, na ausência do m...

Para Que Leda Me Leia,Paulo Leminski

Leda e o cisne, Paul Prosper Tillier - 1860         para que Leda me leia precisa papel de seda        precisa pedra e areia para que leia me Leda        precisa lenda e certeza precisa ser e sereia        para que apenas me veja        pena que seja Leda quem quer você que me leia

Pequenas Doses de Paulo Leminski

S.O.S      não houve sim que eu dissesse que não fosse o começo      de um esse o esse Viver É Super Difícil      viver é super difícil o mais fundo      está sempre na superfície. Leite Leitura      leite, leitura letras literatura      tudo o que passa tudo o que dura      tudo o que duramente passa tudo o que passageiramente dura      tudo, tudo, tudo não passa de caricatura      de você minha amargura de ver que viver não tem cura.