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Mostrando postagens com o rótulo hipocrisia

A Fé E As Obras, Leandro Karnal

  J esus salvou todos. Para acessar a assembleia dos eleitos, a fé é o ticket. Solo fide, apenas a fé, proclamaram muitos reformadores religiosos do século 16. Lutero buscou a base em  Hebreus 10,38 : o justo viverá pela fé (também na  Epístola aos Romanos  e em outros trechos).        Os católicos valorizam a fé. Porém, a salvação passa pelas obras boas que evidenciem sua crença. A epístola do apóstolo Tiago enfatiza no capítulo segundo: a fé sem obras é morta. Lutero desconfiava desse trecho (epístola de palha, ele dizia). Chegou a querer afastar a carta do cânone do Novo Testamento. Tiago está próximo de uma concepção religiosa judaica: a prática correta da vida e de ações éticas. O princípio se chama ortopraxia. A  Bíblia  apresenta muitas concepções ao longo dos séculos em que foi redigida, com disputas entre grupos e diversas elaborações teológicas. Para um historiador, isso é a riqueza do texto.     ...

A Lei, Lima Barreto

     Este caso da parteira merece sérias reflexões que tendem a interrogar sobre a serventia da lei. Uma senhora, separada do marido, muito naturalmente quer conservar em sua companhia a filha; e muito naturalmente também não quer viver isolada e cede, por isto ou aquilo, a uma inclinação amorosa.      O caso se complica com uma gravidez e para que a lei, baseada em uma moral que já se findou, não lhe tire a filha, procura uma conhecida, sua amiga, a fim de provocar um aborto de forma a não se comprometer.       Vê-se bem que na intromissão da “curiosa" não houve nenhuma espécie de interesse subalterno, não foi questão de dinheiro. O que houve foi simplesmente camaradagem, amizade, vontade de servir a uma amiga, de livrá-la de uma terrível situação.       Aos olhos de todos, é um ato digno, porque, mais do que o amor, a amizade se impõe.      Acontece que a sua intervenção foi desastrosa e lá vem a lei...

Nascida em 10 de dezembro: Clarice Lispector.

    Feliz Aniversário        A família foi pouco a pouco chegando. Os que vieram de Olaria estavam muito bem vestidos porque a visita significava ao mesmo tempo um passeio a Copacabana. A nora de Olaria apareceu de azul-marinho, com enfeite de paetês e um drapeado disfarçando a barriga sem cinta. O marido não veio por razões óbvias: não queria ver os irmãos. Mas mandara sua mulher para que nem todos os laços fossem cortados — e esta vinha com o seu melhor vestido para mostrar que não precisava de nenhum deles, acompanhada dos três filhos: duas meninas já de peito nascendo, infantilizadas em babados cor-de-rosa e anáguas engomadas, e o menino acovardado pelo terno novo e pela gravata.Tendo Zilda — a filha com quem a aniversariante morava — disposto cadeiras unidas ao longo das paredes, como numa festa em que se vai dançar, a nora de Olaria, depois de cumprimentar com cara fechada aos de casa, aboletou-se numa das cadeiras e emudeceu, a boca em ...

A Cidade dos Hereges, Federico Andahazi

     Apenas recentemente conheci o argentino Federico Andahazi. O jovem escritor de Buenos Aires é autor de um já best seller: O Anatomista .        Acabei de ler A Cidade dos Hereges, cuja história é narrada em dois cenários:  dentro e fora de mosteiros. Nos mosteiros, o ócio, o sexo, a hipocrisia, o medo e as orações; fora deles: a luta pelo poder num vale tudo sangrento e carregado de mentiras.        No livro a gente pode ver apenas a história, cheia de nuances, de invenção de um Santo Sudário falso. E essa história é narrada de forma magistral. As cartas de Christine, jovem que vai parar num convento não por fé, mas por circunstâncias, são verdadeiras aulas de ética, filosofia e religiosidade.  Humanas, apaixonadas e sinceras.         A história que se passa fora dos mosteiros, pode ser comparada com a atualidade, brasileira, inclusive.  A criação de u...