Franco, direto e sem rodeios, João Cabral de Melo Neto escreveu: A Palo Seco ( poesias completas 1975) 1.1. Se diz a palo seco o cante sem guitarra; o cante sem; o cante; o cante sem mais nada; se diz a palo seco a esse cante despido: ao cante que se canta sob o silêncio a pino. 1.2. O cante a palo seco é o cante mais só: é cantar num deserto devassado de sol; é o mesmo que cantar num deserto sem sombra em que a voz só dispõe do que ela mesma ponha. 1.3. O cante a palo seco é um cante desarmado: só a lâmina da voz sem a arma do braço; que o cante a palo seco sem tempero ou ajuda tem de abrir o silêncio com sua chama nua. 1.4. O cante a palo seco não é um cante a esmo: exige ser cantado com todo o ser aberto; é um cante que exige o ser-se ao meio-dia, que é quando a sombra foge e não medra a magia. 2.1. O silêncio é um metal de epiderme gelada, sempre incapaz das ondas imediatas da água; A pele do silêncio pouca coisa arrepia: o cante a palo seco de diamante precisa. 2.2. Ou o silê...
Vi uma estrela tão alta, Vi uma estrela tão fria! Vi uma estrela luzindo Na minha vida vazia. Era uma estrela tão alta! Era uma estrela tão fria! Era uma estrela sozinha Luzindo no fim do dia. Por que da sua distância Para a minha companhia Não baixava aquela estrela? Por que tão alta luzia? E ouvi-a na sombra funda Responder que assim fazia Para dar uma esperança Mais triste ao fim do meu dia.