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Crônica Cantada: Cotidiano, Chico Buarque de Holanda

Todo dia ela faz tudo sempre igual         Me sacode às seis horas da manhã Me sorri um sorriso pontual E me beija com a boca de hortelã Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar E essas coisas que diz toda mulher Diz que está me esperando pr'o jantar E me beija com a boca de café Todo dia eu só penso em poder parar Meio-dia eu só penso em dizer não Depois penso na vida pra levar E me calo com a boca de feijão Seis da tarde como era de se esperar Ela pega e me espera no portão Diz que está muito louca pra beijar E me beija com a boca de paixão Toda noite ela diz pr'eu não me afastar Meia-noite ela jura eterno amor E me aperta pr'eu quase sufocar E me morde com a boca de pavor Todo dia ela faz tudo sempre igual Me sacode às seis horas da manhã Me sorri um sorriso pontual E me beija com a boca de hortelã Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar E essas coisas que diz toda mulher Diz que está me esperando pr'o jantar E me beija com a boca de café Todo dia eu só penso em...
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Abril, se a flor... soneto de Luciano Maia

Abril, se a flor se abrir esplendorosa sob o constante ou intermitente gume do sol, se o dia que as delícias goza da flor o seu mistério e o seu perfume trouxer a cor de mais nuançada rosa se a alegria acender, enfim, seu lume se a paixão for cantada em verso e prosa e se o luar - como antes, de constume- voltar a sua face e o seu fulgor aos namorados, como antigamente eu cantaria ainda aquele amor e confessá-lo-ia intimamente ao teu ouvido... Seja como for abril se abriu de novo, abril não mente. Em: Dunas, livro de sonetos, Luciano Maia, Academia Cearense de Letrs 1984, pág. 181

Crônica de Fernando Sabino

Esmulambado, barbudo, cabelos desgrenhados, seria o tipo acabado do  mendigo, não fosse certo ar de dignidade que emana de seus movimentos. Vive rondando a porta do botequim, ali na rua Visconde de Pirajá. Outro dia tomou coragem e se dirigiu ao balcão: - Uma cachaça, por favor. - Pinga primeiro - resmungou o dono do botequim, com maus modos. - Ele pensou um pouco, compenetrado e ordenou: - Está bem, suspende. Não fica bem um sujeito da minha categoria beber cachaça. Limito-me a transcrever o resto de um diálogo que ouvi entre uma mulher e o empregado de um supermercado em Ipanema: - Há pessoas que pagam o mal com o bem - dizia ela. - A mão que afaga é a mesma que que apedreja - respondeu ele - É, mas nada como um dia atrás do outro - acrescentou ela - Esse é bom - concordou ele. E tem outro assim: não diga desta água não beberei. - Não é sopa não? - Não: é água mesmo. - E tem aquele: cuidado, jacaré, que a lagoa há de secar. - É isso aí - Pois então até logo - Até logo. Passe bem...

A Faca no Coração, conto de Dalton Trevisan

– Você raspou o bigode, João? Ficou mais moço. – Na mesma hora em que ela me deixou. O amor é uma faca no coração. Cada dia se enterra mais fundo, que não deixe de sangrar. – Esse óculo rachado. Não pode enxergar direito. – Depois a gente acostuma, não atrapalha tanto. – Maria, ela não merece você. É bom demais. E os filhos? – A mais velha me odeia. Dizer que me chamava Paizinho. – No começo eles tomam o partido da mãe. – Ao encontrá-la na rua, me virou o rosto: Você é uma filha ingrata. Nada de ingrata. Nem considero o senhor meu pai. Então a culpada foi sua mãe… Sabe o que ela fez? Quis me avançar com a unha afiada. – A outra filhinha? – Também do lado da mãe. – E o filho? – Esse é o maior inimigo. – Você, João, uma infância tão feliz. Agora sofrendo esse horror. Dona Cotinha teve a felicidade de não ver. – Se ela está vendo… Tudo! – Vendo o quê? – É espírito forte. Tudo ela vê. Fala comigo em sonho. Sabe o que repete? – … – Meu filho, sinto uma pena de você! – Ó Maria, mal de cada d...

Livros Proibidos Nas Escolas dos Estados Unidos

  O Conto da Aia ,  Margaret Atwood O que é: Distopia que se passa num futuro muito próximo e tem como cenário uma república onde não existem mais jornais, revistas, livros nem filmes. As universidades foram extintas. Também já não há advogados, porque ninguém tem direito a defesa. Os cidadãos considerados criminosos são fuzilados e pendurados mortos no Muro, em praça pública, para servir de exemplo enquanto seus corpos apodrecem à vista de todos. Para merecer esse destino, não é preciso fazer muita coisa – basta, por exemplo, cantar qualquer canção que contenha palavras proibidas pelo regime, como “liberdade”. Nesse Estado teocrático e totalitário, as mulheres são as vítimas preferenciais, anuladas por uma opressão sem precedentes.  ( Amazon, editado) Motivo:   machismo? Ironicamente, o livro nos avisa sobre um futuro onde as mulheres perdem seus direitos é um dos mais perseguidos em escolas dos USA. (Thayseadriana) O Diário de Anne Frank O que é:  No período e...

No Fundo Ele Sentia, crônica de Fernando Sabino

     No fundo, ele sentia ainda algum esperança, tal era o péssimo conceito que fazia da natureza humana:      - Esse juiz deve ter lá o seu fraco,      - Não tem. Solteirão, reaça, Deus-Pátria-Família, só pensa em cumprir a lei.      - De alguma coisa ele deve gostar - coçava a cabeça intrigado. - Não é possível que não tenha algum vício.      - Se tem ninguém sabe. Não bebe, não fuma, não joga. E não aceita nem cumprimento. Já quis processar um advogado que lhe ofereceu um cigarro.      Estas eram as desanimadoras informações que conseguia colher: inabordável e incorruptível. O meritíssimo era uma parada! Mas havia de dar um jeito.      Verdadeiro mestre na arte da alta trampolinagem, não existia irregularidade que, como empreiteiro, não tivesse praticado ao longo dos secretos meandros que levam à conquista das concorrências oficiais e à majoração dos lucros na execução dos ser...

Lua e Gnac, conto de Ítalo Calvino

     A noite durava vinte segundos, vinte segundos o GNAC. Durante vinte segundos se via o céu entrecortado de nuvens negras, a foice da lua crescente dourada, sublinhada por um halo impalpável, e depois estrelas que quanto mais se olhava para elas mais acentuavam sua  pequenez, até a poeira da Via Láctea, tudo isso visto rápido rápido, cada detalhe no qual nos detínhamos era algo do conjunto que se perdia, pois os vinte segundos logo terminavam e começava o GNAC.      O GNAC era uma parte de incrição publicitária SPAAK-COGNAC no telhado em frente, que ficava vinte segundos acesa e vinte segundos apagada, e quando estava acesa não se via mais nada. Inesperadamente, a lua empalidecia, o céu se tornava uniformemete negro e achatado, as estrelas perdiam o brilho, e os gatos e as gatas que havia dez segundos emitiam grunhidos de amor, mexendo-se lânguidos um na direção do outro ao longo das calhas e dos eirais, agora, com o GNAC, se agachavam sobre as telh...