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Por Que Ler Grande Sertão, Veredas? Prof. Wander Melo de Miranda

Ler “Grande sertão: veredas”é uma experiência que se renova sempre a cada releitura, como ocorre com os livros que se tornam clássicos à medida que o tempo passa. Para Italo Calvino, um clássico é um livro que nunca termina de dizer o que tem para dizer, o que lhe assegura sobrevivida histórica, acrescentaria Walter Benjamin. É o que comprova a diversificada fortuna crítica do romance, da crítica sociológica à psicanalítica, da análise estrutural à antropológica, que atravessa gerações de pesquisadores e não para de crescer nos últimos 70 anos. Resultado de quinhentos anos de cultura oral reelaborada com o apuro da mais alta cultura letrada, a obra do poliglota Guimarães Rosa é um desafio à inteligência e à sensibilidade do leitor. Vencida a dificuldade inicial diante de uma “língua”outra – neologismos, arranjos sintáticos inesperados, aliterações, metáforas inusitadas –, acabamos por participar do que lemos como coautores e recriadores. E não paramos mais de ler. A leitura se abre, en...
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Conversa de Calçada, crônica de Ana Pottes

Cheguei há pouco de um passeio pela Encruzilhada do jeito que fazia há tempos. Sem hora nem pressa de buscar comida nas mercearias, barracas, mercado ou supermercados. Olhei a reforma daquele prédio de esquina com a Av. Norte. De tanto descuido, pedia socorro. No térreo, lojas — duas delas guardam muitas décadas. Os andares superiores foram bonitas residências. Parei. Pensei no tanto de vida que já foi vivida entre aquelas paredes. Agora pintadas, recuperadas, prontas a abrigar outros sonhos. Enquanto olhava e me deixava levar pelo fio das ideias, fui acordada pelo bom dia de um senhor que saía. Falei da minha satisfação em ver o prédio recuperado. Sorrindo, disse que outros proprietários, animados com o resultado, vão iniciar trabalhos de benfeitoria nos seus edifícios. Gostei do que ouvi. Conversamos um pouco sobre o abandono dos prédios e do esvaziamento de um comércio que já foi palpitante: movelarias, a Lobrás, lojas de variedades, uma padaria que fazia bolos e pães saborosos e, ...

Bons Dias, crônica de Machado de Assis

     Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.      Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.      No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as ideias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendi...

História de Amor, crônica de Orígenes Lessa

     João Pereira da Silva, que também poderia chamar-se Aluísio Lisboa ou João Silveira, via na praia de Copacabana - o luar dava nas águas e se prolongava em praia oscilante sobre as ondas - a jovem Luizinha Arruda, que também se poderia chamar Yvete, Daniela ou Maria disso ou daquilo. O nome de fato, não importa. Não foi pelo nome nem pelo sobrenome que eles reciprocamente ignoravam, que o amor chegou. Foi pelo jeitão alto dele, pelo jeito redondinho dela. E pelos olhos, que nela eram negros e nele azuis. O primeiro olhar bastou. Parou o coração dela. Ele parou também. Não o coração, a marcha. Parou, voltou-se, acompanhou. Quando se viu seguida, Luizinha teve uma festa na alma. Quis fugir de contente. Quis morrer de alegria. Não sabia ao certo. E quando José Pereira da Silva falou - o nome ela saberia depois - Luizinha Arruda - o nome ele conheceria mais tarde - ficou plantada no lugar, muda e feliz, tal a grande emoção que sentia. “Permite-me acompanhá-la, senhorita...

Valsinha, Chico Buarque

Um dia ele chegou tão diferente Do seu jeito de sempre chegar Olhou-a de um jeito muito mais quente Do que sempre costumava olhar E não maldisse a vida Tanto quanto era seu jeito de sempre falar E nem deixou-a só num canto Pra seu grande espanto convidou-a pra rodar Então, ela se fez bonita Como há muito tempo não queria ousar Com seu vestido decotado Cheirando a guardado de tanto esperar Depois o dois deram-se os braços Como há muito tempo não se usava dar E cheios de ternura e graça Foram para a praça e começaram a se abraçar E ali dançaram tanta dança Que a vizinhança toda despertou E foi tanta felicidade Que toda cidade se iluminou E foram tantos beijos loucos Tantos gritos roucos como não se ouvia mais Que o mundo compreendeu E o dia amanheceu em paz Fonte: LyricFind Compositores: Francisco Buarque de Hollanda / Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes Álbum: Construção Ano 1971. Ouça aqui Resultados da Web

O Que Estou Lendo? A Casa do Mar Cerúleo, TJ Klune

 Meu neto, Theo, me falou que está lendo A Casa do Mar Cerúleo e que faz relatório da leitura por etapas determinadas pelo colégio onde estuda.  Respondi não conhecer o tílulo nem autor, TJ Klune.  Theo já havia passado da metade do livro de 384 páginas estava gostando mas não me adiantou nada a respeito: "não vou dar spoiler!"  Me bateu curiosidade e eu comprei. É uma aventura adolescente com seres fantásticos num ambiente com humanos.  De forma convidativa o autor americano TJ Klune trata de aceitação do diferente, explorando o medo e a desconfiança que os grupos, humano e sprite, despertam entre si.  Fazendo o que meu neto não faz por nada, dou um pequeno spoiler.  O departamento de Jovens Mágicos, envia seu funcionário, assistente social, Linus, para fazer avaliação detalhada e rigorosa como só ele é, de um orfanato onde estariam seis crianças perigosas... uma delas chama Lucy, o Anticristo.   O Sr. Linus Baker, passa alguns perrengues,...

A Árvore, crônica de Rubem Braga

     Assisti de minha varanda a um crime de morte: a vítima devia ter vinte ou vinte e cinco anos. Era uma bela árvore de copa redonda, no terreno junto à praia, onde havia antes uma casinha verde. A casa já fora derrubada, mas a árvore durou ainda algumas semanas, como se os criminosos, antes de matá-la, resolvessem passar ainda algum tempo gozando a sua sombra imensa.      Assisti à queda; os homens gritaram, ela estremeceu toda e houve primeiro como um gemido do folhame, depois baque imenso, um fragor surdo; no mar uma grande onda arrebentou; e o  mar e a árvore  pareceram estrondar de depois chorar juntos. Houve como um pânico no ar, pássaros voaram janelas se abriram; e a grande ramaria ficou tremendo, tremendo.      Anteontem e ontem os homens passaram o tempo a cortar os galhos, esquartejando a morta para poder retirá-la; o tronco mutilado ainda está lá, com uma dignidade dolorosa de estátua de membros partidos.    ...