Chove? Nenhuma chuva cai… Então onde é que eu sinto um dia Em que o ruído da chuva atrai A minha inútil agonia? Onde é que chove, que eu o ouço? Onde é que é triste, ó claro céu? Eu quero sorrir-te, e não posso, Ó céu azul, chamar-te meu… E o escuro ruído da chuva É constante em meu pensamento. Meu ser é a invisível curva Traçada pelo som do vento… E eis que ante o sol e o azul do dia, Como se a hora me estorvasse, Eu sofro… E a luz e a sua alegria Cai aos meus pés como um disfarce. Ah, na minha alma sempre chove. Há sempre escuro dentro de mim. Se escuto, alguém dentro de mim ouve A chuva, como a voz de um fim… Quando é que eu serei da tua cor, Do teu plácido e azul encanto, Ó claro dia exterior, Ó céu mais útil que o meu pranto? Fonte: Como Fazer Um Poema
Dizem que finjo ou minto Tudo o que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é Sentir? Sinta quem lê Em: O Eu Profundo E Os Outros Eus (seleção poética) Fernando Pessoa, pág.104