E como eu palmilhasse vagamente uma estrada de Minas, pedregosa, e no fecho da tarde um sino rouco se misturasse ao som de meus sapatos que era pausado e seco; e aves pairassem no céu de chumbo, e suas formas pretas lentamente se fossem diluindo na escuridão maior, vinda dos montes e de meu próprio ser desenganado, a máquina do mundo se entreabriu para quem de a romper já se esquivava e só de o ter pensado se carpia. Abriu-se majestosa e circunspecta, sem emitir um som que fosse impuro nem um clarão maior que o tolerável pelas pupilas gastas na inspeção contínua e dolorosa do deserto, e pela mente exausta de mentar toda uma realidade que transcende a própria imagem sua debuxada no rosto do mistério, nos abismos. Abriu-se em calma pura, e convidando quantos sentidos e intuições restavam a quem de os ter usado os já perdera e nem desejaria recobrá-los, se em vão e para sempre repetimos os mesmos sem roteiro tristes périplos, convidando-os a todos, em coorte, a se aplicarem sobre o pasto ...
O AMOR DETERMINA A Matilde e Mário da Silva Brito L'amour veut qu'aujourd'hui mon ami André Salmon se marie. (Apolinnaire) O amor determina hoje que se casem minha amiga Matilde e meu amigo Mário. Sua lei é sagrada. Cumpra-se com música de clavicórdios, clavicímbalos, espinetas, tiorbas, violas d'amore, harpas davídicas, sem esquecer o fagote, o oficlide, todos os metais, e o saçaricante pinho carioca, mesmo que tais instrumentos não figurem ostensivamente no ato. Estarão soando no ar interior que respiram os enamorados conscientes. E seja esta quinta-feira de perfejta claridade e sombra mais suave a acarinhar os noivos de refletida vontade e lúcida escolha. Emoldure-os a luz. Doure-os o maravilhoso silêncio entranhado no som, em que a alegria do amor-conhcimento se entreabre à feição de flor nascida do chão mesmo da vida. E cantemos todos, em torno deles, em musical ciranda: M de Matilda M de Mário M do centro da palavra amor....