Abril, se a flor se abrir esplendorosa sob o constante ou intermitente gume do sol, se o dia que as delícias goza da flor o seu mistério e o seu perfume trouxer a cor de mais nuançada rosa se a alegria acender, enfim, seu lume se a paixão for cantada em verso e prosa e se o luar - como antes, de constume- voltar a sua face e o seu fulgor aos namorados, como antigamente eu cantaria ainda aquele amor e confessá-lo-ia intimamente ao teu ouvido... Seja como for abril se abriu de novo, abril não mente. Em: Dunas, livro de sonetos, Luciano Maia, Academia Cearense de Letrs 1984, pág. 181
Esmulambado, barbudo, cabelos desgrenhados, seria o tipo acabado do mendigo, não fosse certo ar de dignidade que emana de seus movimentos. Vive rondando a porta do botequim, ali na rua Visconde de Pirajá. Outro dia tomou coragem e se dirigiu ao balcão: - Uma cachaça, por favor. - Pinga primeiro - resmungou o dono do botequim, com maus modos. - Ele pensou um pouco, compenetrado e ordenou: - Está bem, suspende. Não fica bem um sujeito da minha categoria beber cachaça. Limito-me a transcrever o resto de um diálogo que ouvi entre uma mulher e o empregado de um supermercado em Ipanema: - Há pessoas que pagam o mal com o bem - dizia ela. - A mão que afaga é a mesma que que apedreja - respondeu ele - É, mas nada como um dia atrás do outro - acrescentou ela - Esse é bom - concordou ele. E tem outro assim: não diga desta água não beberei. - Não é sopa não? - Não: é água mesmo. - E tem aquele: cuidado, jacaré, que a lagoa há de secar. - É isso aí - Pois então até logo - Até logo. Passe bem...