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Quarto de Pensão, poema de Marina Colasnati

Sou pensionista da vida. Na mesma ábua em que durmo escrevo meu trabalho e ela farfalha, embora já sem folhas, só da lembrança de já ter sido tronco. Tenho uma pia no canto que goteja, e é meu lago, meu rio, meu fundo mar. Tenho um rijo cabide à cabeceira para dependurar a pele a cada noite. Me dão café om pão, e às vezes algum vinho. Dizem que só paguei meia pensão. Há uma fome indistinta que me habita enquanto o medo com felpudo passos percorre o labirinto das entranhas. Mas agradeço essas quatro paredes e que me tenham dado uma janela. Pois sei que qualquer hora sem possibilidade de recurso e talvez mesmo sem aviso prévio serei intimada a devolver o quarto. Leia também:  A Morada do Ser, Marina Colasanti
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O Olhar e o Carnaval, crônica de Mariana Bertolucci

Eu sempre adorei a folia e as  fantasias de Carnaval . Não tinha a disciplina e a técnica do balé clássico (que eu também amava), tampouco a imponência e o acabamento dos trajes e nem o frio na barriga antes de entrar no palco nas apresentações de final de ano da tia Lenita, minha professora amada que hoje está de aniversário. Um jeito diferente e mais descontraído de encarnar um personagem e contar uma história cheia de liberdade e purpurina. Era como esperar o ano inteiro a   festa da liberdade , como faz a turma da escola de samba, se preparando, ensaiando, economizando e esperando pelo maior espetáculo da terra. O mundo inteiro assiste, e a   festa   popular contagia. Lembro das minhas primeiras  fantasias  e trajes com muito carinho, mas hoje falarei só das  fantasias . A de índia com penas rosa-choque foi a primeira — eu era tão pequena que nem a parte de cima minha mãe colocou — e, depois, a de melindrosa, que é essa da foto acima. No tempo em q...

Método Rítmico, poema de Yusef Komunyakaa (USA)

Se você estivesse preso em uma caixa dentro de outra caixa no interior de uma floresta, sem o canto dos pássaro, sem grilos roçando as pernas, sem folhas caindo de galhos manchados, você ainda ouviria o ritmo do seu coração. Uma maré vermelha de peixes encalhados oscila na areia, copulando sob a lua cheia, & nós podemos chamar a isso o primeiro ritmo porque o sexo é o que fez despertar a língua & ensinou a mão a tocar bateria & adotar flautas de bambu antes de serem feitas de madeira & mito. Em cima & embaixo, dentro & fora, o pistão conduz uma casa dos sonhos. A água pinga até esculpir uma xícara em uma laje de pedra. Primeiro, não maior que um dedal, que guarda alegria, mas cresce até medir o ritmo da solidão que derrete o açúcar no chá. Há uma temporada para as cobras soltarem arco-íris na grama, para os gafanhotos cantarem no estrume. Sim, sim, sim, sim é uma confirmação de que a pele canta para as mãos. O Mantra da chuva de primavera abre a rosa & enred...

Trapo, poema de Fernando Pessoa

O dia deu em chuvoso A manhã, contudo, esteve bastante azul. O dia deu em chuvoso Desde manhã eu estava um pouco triste. Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma? Não sei: já ao acordar estava triste. O dia deu em chuvoso. Bem sei: a penumbra de chuva é elegante. Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante. Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? Dêem-me o céu azul e o sol visível, Névoa, chuvas, escuros - isso tenho eu em mim. Hoje quero só sossego. Até amaria o lar, desde que o não tivesse. Chego a ter sono de vontade de ter sossego. Não exageremos! Tenho efetivamente sono, sem explicação. O dia deu em chuvoso. Carinhos? Afetos? São memórias... É preciso ser-se criança para os ter... Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro! O dia deu em chuvoso. Boca bonita da filha do caseiro, Polpa de fruta de um coração por comer... Quando foi isso? Não sei... No azul da manhã... O dia deu em chuvo...

Canção do Vento e da Minha Vida, poema de Manuel Bandeira

O vento varria as folhas O vento varria os frutos, O vento varria as flores...      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De frutos, de flores, de folhas. O vento varria as luzes O vento varria as músicas, O Vento varria os aromas...      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De aormas, de estrelas, de cânticos. O vento varrria os sonhos E varria as amizades... O vento varria as mulheres.      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De afeto e de mulheres. O vento varria os meses E varria os teus sorrisos... O vento varria tudo!      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De tudo. ( Em: Bandeira -Seleta em Prrosa e Verso, 1975, págs. 151-152)

Buganvília 1 , Pepetela

     A buganvília continua a crescer.      Apareceu no alpendre ao lado da casa, mesmo por baixo do meu quarto e ninguém sabe como. António diz que deve ter sido cortada antes do pai comprar a quinta e ter ficado alguma raiz. Eu vi o primeiro ramito aparecer. Era tenrinho, de um verde tenrinho. Mais tarde cobriu-se de espinhos. Outro raminho surgiu e depois mais outro.      Desde o princípio, o Lucapa, o nosso pastor-alemão, tem horror à buganvília. Não é por causa dos espinhos, pois já antes de ela ter os espinhos o Lucapa a odiava. Passava de lado e ladrava para ela. Um dia tentou mesmo esmagar com as patas o único raminho que na época ela tinha. Várias folhas foram arrancadas e ficaram espalhadas pelo chão. O ramo ficou estropiado, mas sobreviveu.      O Lucapa contempla a sua impotência e ladra. Creio que protesta para um ponto qualquer no futura. Em: O Cão e os Caluandas, Pepetela, pág. 17

Recomendo: O Lugar das Coisas Possíveis, Nadezhda Bezerra

Falo novamente de Nadezhada Bezerra porque em dezembro li um livro dela que achei muito bom.  São crônicas curtinhas, algumas delas bem divertidas, outras muito doces... todas muito bem escritas.   Com muito talento Nadezhada prende o leitor com assunto diversos, simplérrimos, cotidianos. Ela é precisa nos toques de humor, de ternura, na capacidade de enxergar  crônica nas coisas mais inusitadas.  Recomendo muito a leitura de O Lugar das Coisas Possíveis. Leia a  autora no blog: Otávio,   postado em 14 de janeiro de 2026 Obrigada Por Vir, postado em 24 de novembro de 2023