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Não Leve Flores, canção de Belchior

Não cante vitória muito cedo, não Nem leve flores para a cova do inimigo Que as lágrimas dos jovens São fortes como um segredo Podem fazer renascer um mal antigo Não cante vitória muito cedo, não Nem leve flores para a cova do inimigo Que as lágrimas dos jovens São fortes como um segredo Podem fazer renascer um mal antigo, sim, sim Tudo poderia ter mudado, sim Pelo trabalho que fizemos, tu e eu Mas o dinheiro é cruel E um vento forte levou os amigos Para longe das conversas, dos cafés e dos abrigos E nossa esperança de jovens não aconteceu E nossa esperança de jovens não aconteceu, não, não Palavra e som são meus caminhos pra ser livre E eu sigo, sim Faço o destino com o suor de minha mão Bebi, conversei com os amigos ao redor de minha mesa E não deixei meu cigarro se apagar pela tristeza Sempre é dia de ironia no meu coração Sempre é dia de ironia no meu coração Tenho falado a minha garota 'Meu bem, difícil é saber o que acontecerá' Mas eu agradeço ao tempo O inimigo eu já con...
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Livro das Horas, poema de Miguel Torga

Aqui diante de mim, eu, pecador, me confesso de ser assim como sou. Me confesso o bom e o mau que vão ao leme da nau nesta deriva em que vou. Me confesso possesso das virtudes teologais, que são três, e dos pecados mortais, que são sete, quando a terra não repete que são mais. Me confesso o dono das minhas horas O das facadas cegas e raivosas, e o das ternuras lúcidas e mansas. E de ser de qualquer modo andanças do mesmo todo. Me confesso de ser charco e luar de charco, à mistura. De ser a corda do arco que atira setas acima e abaixo da minha altura. Me confesso de ser tudo que possa nascer em mim. De ter raízes no chão desta minha condição. Me confesso de Abel e de Caim. Me confesso de ser Homem. De ser um anjo caído do tal céu que Deus governa; de ser um monstro saído do buraco mais fundo da caverna. Me confesso de ser eu. Eu, tal e qual como vim para dizer que sou eu aqui, diante de mim!

O Fazedor de Luzes, conto de Mia Couto

Estou deitada, baixo do céu estreloso, lembrando meu pai. Nesse há muito tempo, nós nos dedicávamos, À noite, a apanhar frescos. O céu era uma ardósia riscada por súbitos morcegos, desses caçadores de perfumes. —Pai, eu quero ter uma estrela! —Estrela, não: é muito custosa de criar. Eu insistia. Queria possuir estrela como as outras meninas tinham brinquedos, bonecos, cachorros. Aqui, no rés da terra, eu não podia ter nada. Ao menos, lá no infirmamento, se autenticassem minhas posses. —Mas, pai: o senhor diz que faz criação de estrelas. —Fazia, tive que entregar todas. Eram dívidas, paguei com estrelas. —Eu sei que sobrou uma. Meu pai não respondia nem sim nem talvez. Era um homem vagaroso e vago, sabedor de coisas sem teor. Dedicava se a serviços anónimos, propicio a nenhum esforço. Dizia: —Sou como o peixe, ninguém me viu transpirar. E me alertava: veja o musgo, que é o modo do muro ser planta. Quem o rega, quem o aduba? Nada, ninguém. Há coisas que só paradas é que crescem. —É, minh...

A Mulher de Olhos Verdes,

Annuska nasceu na Hungria, pouco antes da Segunda Guerra. Os pais judeus, preocupados com seu futuro, a deixaram com amigos em Paris. Ainda bem, que pouco depois acabaram num campo de concentração. E, deles, nunca mais se soube.  Esses amigos, como tantos naquele tempo, decidiram tentar vida nova em outro lugar. Era algo natural, em uma Europa tão despedaçada. Foi assim que Annuska veio bater no Recife.      Aqui, tão logo pôde, começou a trabalhar. Num salão de beleza. Por ser diferente das outras mulheres do bairro - na cor da pele, nos cabelos bem lisos e sobretudo nos olhos verdes - , não faltavam pretendentes à sua porta. Escolheu um deles, cadete da  Escola Naval, Jaime. E não por ser militar. É que Jaime, além de simpático, era um homem bom. Pouco depois de casar, Jaime foi expulso da corporação. Segundo a denúncia por ser comunista. Não era. Mas desde, desde cedo, se incomodava com a miséria dos hospitais e das escolas públicas. Seus comandante...

Pardon Anything, crônica de Gregório Duvivier

Hello, Gringo! Welcome to Brazil. Não repara a bagunça. Don’t repair the mess. In Brazil we give two beijinhos. Em São Paulo, just one beijinho. If you are em Minas, it’s three beijinhos, pra casar. It’s a tradition. If you don’t give three kisses, you don’t marry in Minas. In the other places of Brazil, you can give how much beijinhos you want. In Rio, the beijinho is in the shoulder. The house is yours. Fica à vontade. Qualquer coisa é só gritar. Shout. Mas keep calm. Como é que se fala keep calm em inglês? Here the things demoram. It’s better to wait seated. Everything is atrasado, it’s like subentendido that the person will be atrasada. For a meeting, it’s meia hora. For a party, it’s two hours. For a stadium, it’s one year. For the metrô, it’s forever. Never say you are a gringo. Yes, people love gringo but people also love money and gringos have money so people vai cobrar de você mais money because you are gringo. Say you are from Florianópolis. People de Florianópolis look like ...

O Perfume, conto de Mia Couto

- Hoje nós vamos ao baile!    Justino assim se anunciou, estendendo em suas mãos um embrulho cor de presente. Glória, sua esposa, nem soube receber. Foi ele quem desatou os nós e fez despontar do papel colorido um vestido não menos colorido. A mulher, subvivente, somava tanta espera que já esquecera o que esperava. Justino guardava ferrovias, seu tempo se amalgava, fumo dos fumos, ponteiro encravado em seu coração.  Entre marido e mulher o tempo metera a colher, rançoso roubador de espantos. Sobrara o pasto dos cansaços, desnamoros, ramerremes.  O amor, afinal, que utilidade tem?    De onde o espanto de Glória, deixando esparramar o vestido sobre seu colo. Que esperava ela, por que não arranjava? O marido, parecia ter ensaiado brincadeira. Que lhe aconteceu? O homem sempre dela se enciumara, quase ela nem podia assomar à janela, quanto mais. Glória se levantou, ela e o vestido se arrastaram mutuamente para o quarto. Incrédula e sonambulenta, a...

Aos Nossos Filhos, Ivan Lins e Vitor Martins

Perdoem a cara amarrada Perdoem a falta de abraço Perdoem a falta de espaço Os dias eram assim Perdoem por tantos perigos Perdoem a falta de abrigo Perdoem a falta de amigos Os dias eram assim Perdoem a falta de folhas Perdoem a falta de ar Perdoem a falta de escolha Os dias eram assim E quando passarem a limpo E quando cortarem os laços E quando soltarem os cintos Façam a festa por mim Quando largarem a mágoa Quando lavarem a alma Quando lavarem a água Lavem os olhos por mim Quando brotarem as flores Quando crescerem as matas Quando colherem os frutos Digam o gosto pra mim Ouça aqui Em: Saudade do Brasil - 1980