Meu irmão chegou em casa com um embrulhão. Gritou da porta: – Pacote da tia Brunilda! Todo mundo correu, minha irmã falou: – Olha como vem coisa. Rebentaram o barbante, rasgaram o papel, tudo se espalhou na mesa. Aí foi aquela confusão: – O vestido vermelho é meu. – Ih, que colar bacana! Vai combinar com o meu suéter. – Vê se veio alguma camisa do tio Júlio pra mim. – Que sapato alinhado, tá com jeito de ser meu número. Eu fico boba de ver como a tia Brunilda compra roupa. Compra e enjoa. Enjoa tudo: vestido, bolsa, sapato, blusa. Usa três, quatro vezes e pronto: enjoa. Outro dia eu perguntei: – Se ela enjoa tão depressa, pra que ela compra tanto? É pra poder enjoar mais? Ninguém me deu bola. Não parava de sair coisa do pacot...
Como ninguém conhece o Alfinete de Fralda, muito bem, eu acho melhor contar a história dele antes de continuar contando a minha: Um dia eu ia passando e vi o Alfinete caído na rua. Peguei, limpei, desenferrujei, experimentei a pontinha dele no meu dedo, vi que ela era afiada toda a vida: - Puxa! E ela começou a riscar na minha mão tudo que o Alfinete queria dizer: - Me guarda? Já não aguento mais viver aqui jogado: passa gente em cima de mim; chove, eu fico todo molhado, pego cada ferrugem medonha; e cada vez que varrem a rua eu esfrio: "pronto! vão achar que eu não sirvo mais pra nada, vão me levar no caminhão do lixo"; me encolho todo pra vassoura não me ver; e depois que ela passa, e depois que o susto passa, eu risco na calçada um anúncio de mim dizendo que eu sirvo sim; mas nunca acontece nada. Me guarda? - Guardo. - Então guarda. ...