Sou pensionista da vida. Na mesma ábua em que durmo escrevo meu trabalho e ela farfalha, embora já sem folhas, só da lembrança de já ter sido tronco. Tenho uma pia no canto que goteja, e é meu lago, meu rio, meu fundo mar. Tenho um rijo cabide à cabeceira para dependurar a pele a cada noite. Me dão café om pão, e às vezes algum vinho. Dizem que só paguei meia pensão. Há uma fome indistinta que me habita enquanto o medo com felpudo passos percorre o labirinto das entranhas. Mas agradeço essas quatro paredes e que me tenham dado uma janela. Pois sei que qualquer hora sem possibilidade de recurso e talvez mesmo sem aviso prévio serei intimada a devolver o quarto. Leia também: A Morada do Ser, Marina Colasanti
Eu sempre adorei a folia e as fantasias de Carnaval . Não tinha a disciplina e a técnica do balé clássico (que eu também amava), tampouco a imponência e o acabamento dos trajes e nem o frio na barriga antes de entrar no palco nas apresentações de final de ano da tia Lenita, minha professora amada que hoje está de aniversário. Um jeito diferente e mais descontraído de encarnar um personagem e contar uma história cheia de liberdade e purpurina. Era como esperar o ano inteiro a festa da liberdade , como faz a turma da escola de samba, se preparando, ensaiando, economizando e esperando pelo maior espetáculo da terra. O mundo inteiro assiste, e a festa popular contagia. Lembro das minhas primeiras fantasias e trajes com muito carinho, mas hoje falarei só das fantasias . A de índia com penas rosa-choque foi a primeira — eu era tão pequena que nem a parte de cima minha mãe colocou — e, depois, a de melindrosa, que é essa da foto acima. No tempo em q...