Pular para o conteúdo principal

Postagens

Manuel Bandeira: 140 anos do poeta pernambucano

Evocação do Recife Recife Não a Veneza americana Não a Mauritssatd dos armadores das Índias Ocidentais Não o Recife dos Mascates Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois — Recife das revoluções libertárias Mas o Recife sem história nem literatura Recife sem mais nada Recife da minha infância A Rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de Dona Aninha Viegas Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincené na ponta do nariz Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras, mexericos, namoros, risadas A gente brincava no meio da rua Os meninos gritavam: Coelho sai! Não sai! A distância as vozes macias das meninas politonavam: Roseira dá-me uma rosa Craveiro dá-me um botão (Dessas rosas muita rosa Terá morrido em botão...) De repente nos longes da noite um sino Uma pessoa grande dizia: Fogo em Santo Antônio! Outra contrariava: São José! Totônio Rodrigues achava sempre que era São José. Os homens punham o chapéu saíam fumando E eu tinh...
Postagens recentes

O Que Eu Estou Lendo? Só Sei Que Foi Assim, Octávio Santiago

Como é construído um estereótipo? Quando o Nordeste passou a ser retratado como sinônimo de atraso, miséria e ignorância? E por que essa imagem, injusta e imprecisa, persiste no imaginário? Essas são algumas das perguntas que movem  Só sei que foi assim: A trama do preconceito contra o povo do Nordeste  , do jornalista e pesquisador Octávio Santiago.  Resultado da pesquisa de doutorado do autor, realizada na Universidade do Minho, em Portugal, a obra revela como o preconceito contra os nordestinos foi construído historicamente a partir de interesses políticos, econômicos e simbólicos. Nesse manual antirracista, Santiago trilha a trajetória do preconceito contra os nordestinos desde a fundação do Brasil, revê a herança maldita da ditadura militar e analisa obras de nomes como Euclides da Cunha e Clarice Lispector, sem esquecer as telenovelas. Um livro para ajudar a reenquadrar um país.

Menina de Vermelho a Caminho da Lua, conto de Marina Colasanti

     Esta é uma história que não quero contar, uma pequena história sem fatos, espessa como um mênstruo, que não pretendo assumir. Tentei livrar-me dela, afundá-la e ao fastio que me causa. Não consegui. Desnecessária como é, ainda assim insiste em existir. Foi por isso que botei um anúncio no jornal. Dizia: “Procura-se narrador. Exigem-se modéstia e prazer descritivo. Pagamento a combinar. Procurar… endereço… etcétera”.      Só um apresentou-se. Teria preferido, me caberia melhor, fosse mulher. Mas não tive escolha, fiquei com ele. Homem e um pouco inexperiente, me vi obrigada a insistir na minha vontade, concisão de estilo e docilidade nos ramos. E a vesti-lo com nova roupagem. É assim, pois, de saia rosa e lenço nos cabelos, que o apresento: mãe de duas filhas pequenas que pouco irão agir, levando-as para brincar num parquinho de diversões, sábado à tarde, naquela exata tarde, naquele exato momento em que a história quer acontecer, e onde ele se torna, p...

Arrasando na Terceira Idade(70 anos da primeira edição): Grande Sertão, Veredas de Guimarães Rosa

Ler “Grande sertão: veredas”é uma experiência que se renova sempre a cada releitura, como ocorre com os livros que se tornam clássicos à medida que o tempo passa. Para Italo Calvino, um clássico é um livro que nunca termina de dizer o que tem para dizer, o que lhe assegura sobrevivida histórica, acrescentaria Walter Benjamin. É o que comprova a diversificada fortuna crítica do romance, da crítica sociológica à psicanalítica, da análise estrutural à antropológica, que atravessa gerações de pesquisadores e não para de crescer nos últimos 70 anos. Resultado de quinhentos anos de cultura oral reelaborada com o apuro da mais alta cultura letrada, a obra do poliglota Guimarães Rosa é um desafio à inteligência e à sensibilidade do leitor. Vencida a dificuldade inicial diante de uma “língua”outra – neologismos, arranjos sintáticos inesperados, aliterações, metáforas inusitadas –, acabamos por participar do que lemos como coautores e recriadores. E não paramos mais de ler. A leitura se abre, en...

Crônica Cantada: Cotidiano, Chico Buarque de Holanda

Todo dia ela faz tudo sempre igual         Me sacode às seis horas da manhã Me sorri um sorriso pontual E me beija com a boca de hortelã Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar E essas coisas que diz toda mulher Diz que está me esperando pr'o jantar E me beija com a boca de café Todo dia eu só penso em poder parar Meio-dia eu só penso em dizer não Depois penso na vida pra levar E me calo com a boca de feijão Seis da tarde como era de se esperar Ela pega e me espera no portão Diz que está muito louca pra beijar E me beija com a boca de paixão Toda noite ela diz pr'eu não me afastar Meia-noite ela jura eterno amor E me aperta pr'eu quase sufocar E me morde com a boca de pavor Todo dia ela faz tudo sempre igual Me sacode às seis horas da manhã Me sorri um sorriso pontual E me beija com a boca de hortelã Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar E essas coisas que diz toda mulher Diz que está me esperando pr'o jantar E me beija com a boca de café Todo dia eu só penso em...

Abril, se a flor... soneto de Luciano Maia

Abril, se a flor se abrir esplendorosa sob o constante ou intermitente gume do sol, se o dia que as delícias goza da flor o seu mistério e o seu perfume trouxer a cor de mais nuançada rosa se a alegria acender, enfim, seu lume se a paixão for cantada em verso e prosa e se o luar - como antes, de constume- voltar a sua face e o seu fulgor aos namorados, como antigamente eu cantaria ainda aquele amor e confessá-lo-ia intimamente ao teu ouvido... Seja como for abril se abriu de novo, abril não mente. Em: Dunas, livro de sonetos, Luciano Maia, Academia Cearense de Letrs 1984, pág. 181

Crônica de Fernando Sabino

Esmulambado, barbudo, cabelos desgrenhados, seria o tipo acabado do  mendigo, não fosse certo ar de dignidade que emana de seus movimentos. Vive rondando a porta do botequim, ali na rua Visconde de Pirajá. Outro dia tomou coragem e se dirigiu ao balcão: - Uma cachaça, por favor. - Pinga primeiro - resmungou o dono do botequim, com maus modos. - Ele pensou um pouco, compenetrado e ordenou: - Está bem, suspende. Não fica bem um sujeito da minha categoria beber cachaça. Limito-me a transcrever o resto de um diálogo que ouvi entre uma mulher e o empregado de um supermercado em Ipanema: - Há pessoas que pagam o mal com o bem - dizia ela. - A mão que afaga é a mesma que que apedreja - respondeu ele - É, mas nada como um dia atrás do outro - acrescentou ela - Esse é bom - concordou ele. E tem outro assim: não diga desta água não beberei. - Não é sopa não? - Não: é água mesmo. - E tem aquele: cuidado, jacaré, que a lagoa há de secar. - É isso aí - Pois então até logo - Até logo. Passe bem...