A flor do baobá é branca.De um branco que chega a brilhar,rasgando a penumbra do anoitecer. A flor do baobá sabe que os morcegos são o seu lobo da noite,mas,ainda assim,fulgurante. A enfermeira me disse vá para casa, nós cuidaremos dela. Qualquer coisa, eu lhe telefono. De nada adiantaria eu ficar pelos corredores. A flor do baobá brota num silêncio profundo, no início da noite, e o silêncio é a voz do espírito. Anoitecia, estava frio. Fiquei ali na praça, sentado num banco, junto da enorme raiz da árvore da vida. É assim que falam dos baobás, árvore da vida, pela sua longevidade. O baobá zomba da morte. Meses antes, você me disse vou ficar boa, vou sair dessa. Eu tinha a mesma esperança, respondi sim, meu amor, você vai ficar boa, embora ambos tivéssemos mais incertezas do que respostas. A flor do baobá está consciente do legado de sua beleza e do perigo dos morcegos. Por isso exala um cheiro desagradável, na esperança de afug...
Palavra puxa palavra,crônica puxa crônica e o Guia Turístico que espere. No sábado passado escrevi sobre os meus mortos. No dia seguinte fui a um churrasco criollo (e admiravelmente bem temperado) em casa de uns amigos austríacos que depois de três anos de América aprenderam a dourar a carne com mais perícia do que muitos argentinos. Entre o vinho, chouriços, morcela e bifes excelentíssimos, a conversa flutuou sem rumo e sem preocupação. Finalmente alguém falou sobre os mortos.Era uma tarde luminosa e quente, tudo convocava à sonolência. Só uma senhora vienense, de 80 anos confessados, embora aparentando menos de 70, de pele estirada e olhos muito azuis, continuava insone e cheia de vida.Num castelhano fluido, que o acento germânico tornava mais saboroso comentou: - Tive cinco maridos e uma infinidade de amigos. Muito poucas pessoas não gostaram de mim, e nunca entendi por quê. O pior é que elas me perseguiram, me faziam...