D. Alba, Só agora posso pegar na pena e escrever-lhe para agradecer o obséquio que me fez mandando-me de presente ao velho amigo Machado. No primeiro dia, não pude conhecer bem este cavalheiro; ele buscava-me com palavrinhas doces e estalinhos, mas eu fugia-lhe com medo e metia-me pelos cantos ou embaixo dos aparadores. No segundo dia, já me aproximava, mas ainda cauteloso. Agora, corro para ele sem receio, trepo-lhe aos joelhos e às costas, ele coça-me, diz-me graças, e, se não mia como eu, é porque lhe custa, mas espero que chegue até lá"."Só não consente que eu trepe à mesa, quando ele almoça ou janta, mas conserva-me nos joelhos e eu puxo-lhe os cordões do pijama. A minha vida é alegre. Bebo leite, caldo de feijão e de sopa, com arroz, e já provei alguns pedaços de carne. A carne é boa; não creio, porém, que valha a de um camundongo, mas camundongo é que não há aqui, por mais que os...
Tudo será difícil de dizer: a palavra real nunca é suave. Tudo será duro: luz impiedosa excessiva vivência consciência demais do ser. Tudo será capaz de ferir. Será agressivamente real. Tão real que nos despedaça. Não há piedade nos signos e nem no amor: o ser é excessivamente lúcido e a palavra é densa e nos fere. (Toda palavra é crueldade. Imagem: Rascunho Veja aqui livros de Orides Fontela e leia aqui sobre ela A poeta Orides Fontela (São João da Boa Vista, SP, 1940 – Campos do Jordão, SP, 1998) construiu uma obra considerada renovadora do modernismo brasileiro. Publicou seu primeiro livro, Transposição , em 1969, já cursando Filosofia na Universidade de São Paulo. Publicou ainda: Helianto (1973), Alba (1983) – obra pela qual ganhou o Prêmio Jabuti em 1983 –, Rosácea (1986), Trevo (1988) – uma coletânea de sua obra – e Teia (1996). Viveu uma vida de escassez e penúria financeira, com dificuldade...