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Trapo, poema de Fernando Pessoa

O dia deu em chuvoso A manhã, contudo, esteve bastante azul. O dia deu em chuvoso Desde manhã eu estava um pouco triste. Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma? Não sei: já ao acordar estava triste. O dia deu em chuvoso. Bem sei: a penumbra de chuva é elegante. Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante. Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? Dêem-me o céu azul e o sol visível, Névoa, chuvas, escuros - isso tenho eu em mim. Hoje quero só sossego. Até amaria o lar, desde que o não tivesse. Chego a ter sono de vontade de ter sossego. Não exageremos! Tenho efetivamente sono, sem explicação. O dia deu em chuvoso. Carinhos? Afetos? São memórias... É preciso ser-se criança para os ter... Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro! O dia deu em chuvoso. Boca bonita da filha do caseiro, Polpa de fruta de um coração por comer... Quando foi isso? Não sei... No azul da manhã... O dia deu em chuvo...
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Canção do Vento e da Minha Vida, poema de Manuel Bandeira

O vento varria as folhas O vento varria os frutos, O vento varria as flores...      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De frutos, de flores, de folhas. O vento varria as luzes O vento varria as músicas, O Vento varria os aromas...      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De aormas, de estrelas, de cânticos. O vento varrria os sonhos E varria as amizades... O vento varria as mulheres.      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De afeto e de mulheres. O vento varria os meses E varria os teus sorrisos... O vento varria tudo!      E a minha vida ficava      Cada vez mais cheia      De tudo. ( Em: Bandeira -Seleta em Prrosa e Verso, 1975, págs. 151-152)

Buganvília 1 , Pepetela

     A buganvília continua a crescer.      Apareceu no alpendre ao lado da casa, mesmo por baixo do meu quarto e ninguém sabe como. António diz que deve ter sido cortada antes do pai comprar a quinta e ter ficado alguma raiz. Eu vi o primeiro ramito aparecer. Era tenrinho, de um verde tenrinho. Mais tarde cobriu-se de espinhos. Outro raminho surgiu e depois mais outro.      Desde o princípio, o Lucapa, o nosso pastor-alemão, tem horror à buganvília. Não é por causa dos espinhos, pois já antes de ela ter os espinhos o Lucapa a odiava. Passava de lado e ladrava para ela. Um dia tentou mesmo esmagar com as patas o único raminho que na época ela tinha. Várias folhas foram arrancadas e ficaram espalhadas pelo chão. O ramo ficou estropiado, mas sobreviveu.      O Lucapa contempla a sua impotência e ladra. Creio que protesta para um ponto qualquer no futura. Em: O Cão e os Caluandas, Pepetela, pág. 17

Recomendo: O Lugar das Coisas Possíveis, Nadezhda Bezerra

Falo novamente de Nadezhada Bezerra porque em dezembro li um livro dela que achei muito bom.  São crônicas curtinhas, algumas delas bem divertidas, outras muito doces... todas muito bem escritas.   Com muito talento Nadezhada prende o leitor com assunto diversos, simplérrimos, cotidianos. Ela é precisa nos toques de humor, de ternura, na capacidade de enxergar  crônica nas coisas mais inusitadas.  Recomendo muito a leitura de O Lugar das Coisas Possíveis. Leia a  autora no blog: Otávio,   postado em 14 de janeiro de 2026 Obrigada Por Vir, postado em 24 de novembro de 2023

Fada da Rua Favorita, soneto de Luciano Maia

antes que a noite finde e se conclua o derradeiro gesto do luar ainda se vesta de mistério e lua o seu corpo de enigmas sem par. Seu gesto com aquele compactua e um fascínio de lua, singular cai sobre as pedras toscas desta rua a favorita rua do meu bar. Quem lhe dará o bem que ela lhe quer? Quem das perdas de noite se ressarce nas dádivas de amor dessa mulher? Se o seu gesto é sem medo e sem disfarce e se a paixão do mundo ela souber quem saberá por ela apaixonar-se? Em: Dunas, livro de sonetos, Luciano Maia, Academia Cearense de Letras 1984, pág.81

Acima de Tudo Ame, poema de Rupi Kaur

acima de tudo ame como se fosse a única coisa que você sabe fazerno fim do dia isso tudo não significa nada esta página onde você está seu diploma seu emprego o dinheiro nada importa exceto o amor e a conexão entre as pessoas quem você amou e com que profundidade você amou como você tocou as pessoas à sua volta e quanto você se doou a elas. Sobre a autora: Nascida em Panjabe, Índia Naturalizada: canadense Livros: A Cura pelas Palavras O Que o sol Faz Com as Flores Os Outros Jeitos de Usar a Boca Meu Corpo Minha Casa

Recomendo: Vidas de Algodão, contos de Ednice Peixoto

     Em dezembro fiz uma pequena viagem muito valiosa:  revi a encantadora Natal (RN) e estive no lançamento do livro de Ednice Peixoto, que eu só conhecia virtualmente.        Comecei assim, mas não vou falar da capital potiguar. Vim falar de Vidas de Algodão que comecei a ler ainda no hotel e terminei em casa:  São 39 contos que a autora selecionou entre os tantos que escreveu ao longo dos anos e que resolveu, agora sem timidez, mostrar ao público.        O livro caiu bem com o que gosto. Contos fáceis de ler, sem finais óbvios nem elaborados... nada do que chamo "sessão da tarde".  Conto realista, triste, engraçada, do tipo "nada a ver" como dizem os mais jovens. Ednice, que conheci grande leitora no velho e querido Orkut, sempre soube, escrevia muito bem.  Acho que ela também sabia disso, mas só recentemente perdeu a timidez e resolveu se lançar. Fez muito bem! Vidas de Algodão é um livro que eu rec...