Era terça-feira, quase feriado. Dia de jogo da Copa em Porto Alegre. Serviço público em ponto facultativo, bancos fechados, empresas em férias coletivas, pequenos comerciantes em dúvida. Pra mim, praticamente feriado: a Universidade fechada, sem aulas. Sem clima de trabalho. Decidi viver um dia de Copa do Mundo, do meu jeito, é claro. Já sabia que o trânsito estava em colapso. Vi a Osvaldo Aranha parada quando levei os cães para o passeio matinal no parque. Sabia também que os ônibus não seriam confiáveis. Peguei minha bicicleta e rumei para a Praça Argentina. Não que houvesse encontro da torcida hermana por lá, e sim porque era o lugar marcado para o Ato convocado pelo Bloco de Lutas de Porto Alegre. Contra a Copa. Remoções forçadas de milhares de famílias, morte de operários nas obras dos estádios, elitização do futebol e privatização de espaços públicos estavam na pauta. Já imaginava que não seria massivo, haviam poucas confirmações na chamada ...
A chuva derrubou as pontes. A chuva transbordou os rios. A chuva molhou os transeuntes. A chuva encharcou as praças. A chuva enferrujou as máquinas. A chuva enfureceu as marés. A chuva e seu cheiro de terra. A chuva com sua cabeleira. A chuva esburacou as pedras. A chuva alagou a favela. A chuva de canivetes. A chuva enxugou a sede. A chuva anoiteceu de tarde. A chuva e seu brilho prateado. A chuva de retas paralelas sobre a terra curva. A chuva destroçou os guarda-chuvas. A chuva durou muitos dias. A chuva apagou o incêndio. A chuva caiu. A chuva derramou-se. A chuva murmurou meu nome. A chuva ligou o para-brisa. A chuva acendeu os faróis. A chuva tocou a sirene. A chuva com a sua crina. A chuva encheu a piscina. A chuva com as gotas grossas. A chuva de pingos pretos. A chuva açoitando as plantas. A chuva senhora da lama. A chuva sem pena. A chuva apenas. A chuva empenou os móveis. A chuva amarelou os livros. A chuva corroeu as cercas. A chuva e seu baque seco. A chuva e seu ruído de ...