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Postagens

A Lei, Lima Barreto

     Este caso da parteira merece sérias reflexões que tendem a interrogar sobre a serventia da lei. Uma senhora, separada do marido, muito naturalmente quer conservar em sua companhia a filha; e muito naturalmente também não quer viver isolada e cede, por isto ou aquilo, a uma inclinação amorosa.      O caso se complica com uma gravidez e para que a lei, baseada em uma moral que já se findou, não lhe tire a filha, procura uma conhecida, sua amiga, a fim de provocar um aborto de forma a não se comprometer.       Vê-se bem que na intromissão da “curiosa" não houve nenhuma espécie de interesse subalterno, não foi questão de dinheiro. O que houve foi simplesmente camaradagem, amizade, vontade de servir a uma amiga, de livrá-la de uma terrível situação.       Aos olhos de todos, é um ato digno, porque, mais do que o amor, a amizade se impõe.      Acontece que a sua intervenção foi desastrosa e lá vem a lei, os regulamentos, a polícia, os inquéritos, os peritos, a faculdade e berram:
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Uma Casa Muito Engraçada, Natascha Duarte

Tenho prestado mais atenção nas coisas ao meu redor. Por exemplo, do meu lado direito tem uma árvore centenária que ainda não tem nome mas tem carinha de Angélica. À minha frente tem uma casa e nela uma enorme mesa de vidro que eu chamo de mesa da coragem. Do meu lado esquerdo tem um coração que está assustado como quase sempre, e se encontra no meio de uma reforma das paredes. Os móveis seguem o coração de um cômodo ao outro, curiosos, articulados, parecem ter pernas vivas. Fazem como as coisas em cima do vidro da mesa. Fotos, livros, CDs, quadros, um aparelho de dentes em uma caixinha cor-de-rosa. Todos contam histórias. Os móveis contam mais, contam histórias de outros. São os móveis de minha mãe e pai quando eles se casaram, madeira maciça, retorcida, envernizada, com cara de império. Ao fundo de onde estou tem uma cadela latindo. A encontrei na rua, intestino pra fora, quase uma morte em vida. Depois do resgate e de botar pra dentro o intestino, duas vezes, a pequena desenvo

O Rio Capibaribe Um Gigante Pernambucano, Roberto Celestino

                                                         Bem na Vila do Araça Município de Poção, Serra do Jacarará Pra banhar a região, Vai se ver nascer um rio Que terá mil desafios Pra cumprir sua missão.                   Corre todo em Pernambuco Esse rio abençoado, Que de  Capibara-ybe Pelos índios foi chamado. E o rio de águas claras Se tornou das Capivaras Assim fora batizado.                        Ele tímido desce a serra Inicia a jornada, Muito tem a percorrer Nessa sua caminhada. Logo chega a Jataúba, E depois que lhe saúda Vai-se embora em disparada. Inda há quarenta e um Municípios pra passar, Banhará muitas cidades Que estão a lhe esperar. E em grande serpenteio, Segue ele seu passeio Ansioso em ver o mar.                 Em suas margens viu nascer, E crescerem muitas vidas, Vilas foram se formando Ali eram acolhidas.  Daquelas comunidades Muitas hoje são cidades, Umas bem desenvolvidas.                 Pelo Rio Capibaribe Os nossos índios cresceram, No Rio das Capivaras

Poemas da M.P.B:Cidade Enluarada, Haidée Camelo Fonseca

A luz que veste esta cidade enluarada é a mesma luz que me habita e vive em mim. revela noites serenadas nas calçada atravessadas pelo cheiro do jasmim A igrejinha tão singela aponta o alto e faz a ponte entre o pai e o pecador leva promessas, queixas, súplicas e preces que, aos pés do altar, os penitentes vão depor Troca de olhares no ensaio dos amores por entre as flores da pracinha da matriz no perigoso e sempre doce aprendizado certeza incerta de um dia ser feliz O coração em descompasso faz concerto com o trenzinho que apita na estação o cheiro sonho de maçã invade a vida o pai chega traz espantos de outro chão Crianças brincam, acordando esperanças a mãe na porta avisa a hora de entrar minha cidade, tão pequena, tão serena dorme em meu peito sem ter hora pra acordar Música: Zé Renato Letra: Haidée Camelo Fonseca. Imagem: Mapio

A Página Que Estou Lendo: Pedidos x Exigências

Pedidos são recebidos como exigências quando os outros acreditam que serão culpados ou punidos se não os atenderem. Quando as pessoas nos ouvem  fazer uma exigência, elas enxergam apenas duas opções: submissão ou rebelião. Em ambos os casos,  a pessoa que faz o pedido é percebida como coercitiva, e a capacidade do ouvinte de responder compassivamente ao pedido é diminuta. Quanto mais tivermos culpado, punido ou acusado os outros quando não atenderam  a nossas solicitações no passado , maior será a probabilidade de que nossos pedidos sejam agora entendidos como exigências . Também pagamos pelo uso dessas táticas pelos outros.  Quanto mais as pessoas que fazem parte de nossa vida  tiverem sido acusadas , punidas ou forçadas  a sentirem-se culpada por não fazerem  o que os outros  pediram, mais provavelmente  elas levarão essa bagagem a todo relacionamento posterior e ouvirão  em cada solicitação uma exigência. Vejamos duas variações de uma mesma situação. José diz a sua amiga Maria: &qu

A Peste, Albert Camus - primeiras páginas.

     Na manhã de um dia 16 de abril dos anos de 1940, o doutor Bernard Rieux sai do seu consultório e tropeça num rato morto no meio do patamar. Nesse momento, afastou o bicho sem lhe prestar atenção e desceu a escada. Chegando à rua, porém, veio-lhe a ideia de que esse rato não estava no seu lugar e voltou atrás para prevenir o porteiro.  Perante a reação do velho Michel, sentiu melhor o que a sua descoberta tinha de insólito. A presença desse rato parecera-lhe apenas estranha, enquanto para o porteiro ela constituía um escândalo. A posição deste último era, aliás, categórica: não havia ratos em casa.  Por mais que o médico lhe afirmasse que havia um no patamar do primeiro andar e, provavelmente, morto, a convicção de Michel permanecia íntegra. Não havia ratos na casa, e era, pois, necessário que tivessem trazido aquele de fora. Em resumo, tratava-se de uma partida.      Nessa mesma noite, Bernard Rieux, de pé no corredor de edifício, procurava as chaves antes de subir para sua casa,

Fábulas de Monteiro Lobato: O Touro e as Rãs

Enquanto dois touros furiosamente lutavam pela posse exclusiva de certa campina,  as rãs novas, à beira do brejo, divertiram-se com a cena. Um rã velha, porém, suspirou. - Não se riam, que o fim da disputa vai ser doloroso para nós. - Que tolice! - exclamaram as rãzinhas. - Você está caducando, rã velha! A rã velha explicou-se: - Brigam os touros. Um deles há de vencer e expulsar da pastagem o vencido. Que acontece? O animalão surrado vem meter-se aqui em nosso brejo e ai de nós!... Assim foi. O touro mais forte, à força de marradas, encurralou no brejo o mais fraco, e as rãzinhas tiveram de dizer adeus ao sossego. Inquietas sempre, sempre atropeladas, raro era o dia em que não morria alguma sob os pés do bicharoco. É sempre assim: brigam os grandes, pagam o pato os pequenos.