Tenho uma cadeira de espaldar muito alto Para o visitante noturno E enquanto levemente balanço entre uma e outra vaga de sono, Ei-lo O que chegou de outros mundos - Ali sentado e sem um movimento. Talvez me olhe como se eu fora a branca estátua derribada de um deus. Talvez me olhe como ...
Padeci muita caçoada em menino, pela mania de ficar olhando o céu. Companheiros de escola chamavam-me de leso, as caboclas de casa me diziam palerma. Até uma tia velha deu de implicar comigo. As caçoadas malograram: não perdi a mania. Pela rua, a caminho de casa, no fundo do quintal, entregava-me, fascinado, à contemplação das grandalhonas e branquíssimas nuvens que passeavam pelo céu de minha infância. Se valeu a pena? Como valeu. Os tempos passaram, fui crescendo, a mania crescendo comigo, e o resultado foi magnífico. De fato, magnífico: vivo, hoje, inteiramente alheio à calendários. Talvez pareça presunçosa a afirmativa. Mas apenas parece; não vejo como ficar vaidoso de uma dádiva divina: aprender, desde criança, a entender as falas das nuvens. Dos dons que Deus me deu, o que me deixa mais agradecido é o poder de sentir a poesia, errante e maravilhosa, que existe sobre o mundo. Mas aquele é o que me deixa mais feliz. Das estações do ano, ...