Esmulambado, barbudo, cabelos desgrenhados, seria o tipo acabado do mendigo, não fosse certo ar de dignidade que emana de seus movimentos. Vive rondando a porta do botequim, ali na rua Visconde de Pirajá. Outro dia tomou coragem e se dirigiu ao balcão: - Uma cachaça, por favor. - Pinga primeiro - resmungou o dono do botequim, com maus modos. - Ele pensou um pouco, compenetrado e ordenou: - Está bem, suspende. Não fica bem um sujeito da minha categoria beber cachaça. Limito-me a transcrever o resto de um diálogo que ouvi entre uma mulher e o empregado de um supermercado em Ipanema: - Há pessoas que pagam o mal com o bem - dizia ela. - A mão que afaga é a mesma que que apedreja - respondeu ele - É, mas nada como um dia atrás do outro - acrescentou ela - Esse é bom - concordou ele. E tem outro assim: não diga desta água não beberei. - Não é sopa não? - Não: é água mesmo. - E tem aquele: cuidado, jacaré, que a lagoa há de secar. - É isso aí - Pois então até logo - Até logo. Passe bem...
– Você raspou o bigode, João? Ficou mais moço. – Na mesma hora em que ela me deixou. O amor é uma faca no coração. Cada dia se enterra mais fundo, que não deixe de sangrar. – Esse óculo rachado. Não pode enxergar direito. – Depois a gente acostuma, não atrapalha tanto. – Maria, ela não merece você. É bom demais. E os filhos? – A mais velha me odeia. Dizer que me chamava Paizinho. – No começo eles tomam o partido da mãe. – Ao encontrá-la na rua, me virou o rosto: Você é uma filha ingrata. Nada de ingrata. Nem considero o senhor meu pai. Então a culpada foi sua mãe… Sabe o que ela fez? Quis me avançar com a unha afiada. – A outra filhinha? – Também do lado da mãe. – E o filho? – Esse é o maior inimigo. – Você, João, uma infância tão feliz. Agora sofrendo esse horror. Dona Cotinha teve a felicidade de não ver. – Se ela está vendo… Tudo! – Vendo o quê? – É espírito forte. Tudo ela vê. Fala comigo em sonho. Sabe o que repete? – … – Meu filho, sinto uma pena de você! – Ó Maria, mal de cada d...