Pular para o conteúdo principal

Postagens

A Vitória de Cabo Verde, crônica de Miguel Esteves Cardoso

    A pergunta que agora mesmo está a ser posta às selecções de futebol de todo o mundo, pela boca dos treinadores, é esta: "mas porque é que vocês não são mais como os jogadores de Cabo Verde?" Foi este o grande triunfo dos cabo-verdianos no mundial: demonstraram que não há desculpas.      Os "tubarões azuis" - à maneira dos tubarões não se deixam impressionar pelas pernas que entram no mar. Para os tubarões, todas as pernas são iguais - as dos presidentes e as dos serventes, as dos génios e as dos tontos. E são iguais porque todas servem para comer. Todas são nutritivas. E nunca se deve ter medo de um petisco.      Os treinadores estão a pedir aos jogadores que adoptem, por amor de Deus, a atitude da selecção de Cabo Verde. Mas não é só a atitude - não ter medo, quere ganhar, ter orgulho na camisola - são coisas que muitas outras selecções têm.      Na selecção de Cabo Vede havia maia qualquer coisa. E não era amor à camisola. Era...
Postagens recentes

O Filho de Ana Maria, crônica de José Paulo Cavalcanti

     “Esse homem não é meu filho, doutor. Não pode ser.”      Joaquim era réu numa ação de reconhecimento de paternidade. E o autor, já com 25 anos, produto do desencontro entre duas pessoas que um dia estiveram juntas e se perderam nesse mundão de Deus. Joaquim amava Ana Maria perdidamente. Problema é que Ana Maria, por respeito à verdade se diga, não gostava de Joaquim do mesmo jeito que Joaquim gostava dela. Bonita de rosto, e ainda mais de corpo, tinha outros pretendentes. E lhes dedicava uma atenção incompatível com aquela veneração de Joaquim. Assim foi até quando confessou que já não gostava dele como antes. Melhor se afastar. Joaquim concordou, meio constrangido, antevendo algo para ele impossível de aceitar - que seria o fato de ser traído. Mas nunca esqueceu de Ana Maria. Tanto que, bem depois, confessou ao seu advogado: “Se soubesse que a saudade iria doer tanto, teria resolvido esse caso de outra maneira.” Só que acabaram se separando, era mesmo...

Um de Julho, soneto de Luciano Spagnol

Se sois, inverno, no cerrado se sente De tempos frios com tal bravio vento Que tomais a secura como elemento E neste movimento, és inteiramente Nuvioso,horas breves, chão sedento Da mesma natureza, e tão diferente Dias vão que passa no fugaz poente Rubente o céu num encaixotamento E desta vida em tudo ó mês valente Sê da metade do ano, planejamento Férias breves do docente e discente Como do calendário és afolhamento E teu entardecer não mais reluzente Tudo em vós, julho, traz sentimento

Crônica de Um Dia de Copa, Rafael Kruter Flores

     Era terça-feira, quase feriado. Dia de jogo da Copa em Porto Alegre. Serviço público em ponto facultativo, bancos fechados, empresas em férias coletivas, pequenos comerciantes em dúvida. Pra mim, praticamente feriado: a Universidade fechada, sem aulas. Sem clima de trabalho. Decidi viver um dia de Copa do Mundo, do meu jeito, é claro.      Já sabia que o trânsito estava em colapso. Vi a Osvaldo Aranha parada quando levei os cães para o passeio matinal no parque. Sabia também que os ônibus não seriam confiáveis. Peguei minha bicicleta e rumei para a Praça Argentina. Não que houvesse encontro da torcida hermana por lá, e sim porque era o lugar marcado para o Ato convocado pelo Bloco de Lutas de Porto Alegre. Contra a Copa. Remoções forçadas de milhares de famílias, morte de operários nas obras dos estádios, elitização do futebol e privatização de espaços públicos estavam na pauta. Já imaginava que não seria massivo, haviam poucas confirmações na chamada ...

A Chuva, poema de Arnaldo Antunes

A chuva derrubou as pontes. A chuva transbordou os rios. A chuva molhou os transeuntes. A chuva encharcou as praças. A chuva enferrujou as máquinas. A chuva enfureceu as marés. A chuva e seu cheiro de terra. A chuva com sua cabeleira. A chuva esburacou as pedras. A chuva alagou a favela. A chuva de canivetes. A chuva enxugou a sede. A chuva anoiteceu de tarde. A chuva e seu brilho prateado. A chuva de retas paralelas sobre a terra curva. A chuva destroçou os guarda-chuvas. A chuva durou muitos dias. A chuva apagou o incêndio. A chuva caiu. A chuva derramou-se. A chuva murmurou meu nome. A chuva ligou o para-brisa. A chuva acendeu os faróis. A chuva tocou a sirene. A chuva com a sua crina. A chuva encheu a piscina. A chuva com as gotas grossas. A chuva de pingos pretos. A chuva açoitando as plantas. A chuva senhora da lama. A chuva sem pena. A chuva apenas. A chuva empenou os móveis. A chuva amarelou os livros. A chuva corroeu as cercas. A chuva e seu baque seco. A chuva e seu ruído de ...

Lenda de São João, poema de Wally Salomão

Acorda, João Que eu também quero ser Batizado nas águas do Rio Jordão Êta menino sapeca capeta Dispara espoleta Êta menino ladino porreta danado divino Acorda, São João, e faz o menino levado Saltar de dentro da velha E do velho enferrujado Mas não faz muita zuada João dorme seu sono em paz E se acorda assustado Nem sei do que é capaz Sei não, incendeia o mundo E até o meu coração Sapeca mandureba na fogueira E acabou-se a brincadeira Acorda, João Que eu também quero ser Batizado nas águas do Rio Jordão – Waly Salomão, em “Poesia total”. Editora Companhia das Letras, 2014. Imagem: Noite de São João- Portinari 1957

A Foguêra de São João, Patativa do Assaré

Meu São João, meu São Joãozinho! Quanto amô, quanto carinho, Quanto afiado e padrinho Nesta terra brasilêra Não tem a gente arranjado, No quilaro abençoado, Tão belo e tão respeitado, Da sua foguêra. Meu querido e nobre santo, Que a gente qué e ama tanto, Sua foguêra é o encanto Da gente do meu sertão. Não pode sê carculada A porva que vai queimada Nessas noite festejada Da foguêra de São João. Quantos véio bacamarte Virge, que nunca fez arte, Não tão guardado de parte, Com amô e devoção, Mode o povo sertanejo Com eles fazê trovejo, No mais alegre festejo Da foguêra de São João! Pois quarqué arma ferina, Bacamarte ou lazarina, Já criminosa, assarsina, Como é a do caçadô, Não tem a capacidade De atirá com liberdade Na santa quilaridade Desta foguêra de amô. Meu São João! Meu bom São João! Santo do meu coração, Repare e preste tenção Quanto é lindo o seu festejo. Repare lá do infinito Como isto tudo é bonito, Sempre digo e tenho dito Que o senhor é sertanejo! O homem pode sê ruim E tê ma...