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Lenda de São João, poema de Wally Salomão

Acorda, João Que eu também quero ser Batizado nas águas do Rio Jordão Êta menino sapeca capeta Dispara espoleta Êta menino ladino porreta danado divino Acorda, São João, e faz o menino levado Saltar de dentro da velha E do velho enferrujado Mas não faz muita zuada João dorme seu sono em paz E se acorda assustado Nem sei do que é capaz Sei não, incendeia o mundo E até o meu coração Sapeca mandureba na fogueira E acabou-se a brincadeira Acorda, João Que eu também quero ser Batizado nas águas do Rio Jordão – Waly Salomão, em “Poesia total”. Editora Companhia das Letras, 2014. Imagem: Noite de São João- Portinari 1957
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A Foguêra de São João, Patativa do Assaré

Meu São João, meu São Joãozinho! Quanto amô, quanto carinho, Quanto afiado e padrinho Nesta terra brasilêra Não tem a gente arranjado, No quilaro abençoado, Tão belo e tão respeitado, Da sua foguêra. Meu querido e nobre santo, Que a gente qué e ama tanto, Sua foguêra é o encanto Da gente do meu sertão. Não pode sê carculada A porva que vai queimada Nessas noite festejada Da foguêra de São João. Quantos véio bacamarte Virge, que nunca fez arte, Não tão guardado de parte, Com amô e devoção, Mode o povo sertanejo Com eles fazê trovejo, No mais alegre festejo Da foguêra de São João! Pois quarqué arma ferina, Bacamarte ou lazarina, Já criminosa, assarsina, Como é a do caçadô, Não tem a capacidade De atirá com liberdade Na santa quilaridade Desta foguêra de amô. Meu São João! Meu bom São João! Santo do meu coração, Repare e preste tenção Quanto é lindo o seu festejo. Repare lá do infinito Como isto tudo é bonito, Sempre digo e tenho dito Que o senhor é sertanejo! O homem pode sê ruim E tê ma...

Enquanto Os Mineiros Jogavam, crônica de Carlos Drummond de Andrade

      Domingo, à tarde, na forma do antigo costume, eu ia ver os bichos do Parque Municipal (cansado de lidar com gente nos outros dias da semana), quando avistei grande multidão parada na avenida Afonso Pena. Meu primeiro pensamento foi continuar no bonde; o segundo foi descer e perguntar as causas da aglomeração. Desci, e soube que toda aquela gente estava acompanhando, pelo telefone, o jogo dos mineiros na capital do país. Onze mineiros batiam bola no Rio de Janeiro; dois mil mineiros escutavam, em Belo Horizonte, o eco longínquo dessa bola e experimentavam uma patriótica emoção.       Quando chegou a notícia da vitória dos nossos patrícios, depois de encerrado o expediente, isto é, depois de terminado o segundo tempo, vi, claramente visto, chapéus de palha que subiam para o ar e não voltavam, adjetivos que se chocavam no espaço com explosões inglesas de entusiasmo, botões que se desprendiam dos paletós, lenços que palpitavam como asas, enquanto ga...

Vamos Aprender? Festas Juninas

Origem das festas juninas Antes de se tornar uma festa em comemoração vinculada aos santos do catolicismo, as celebrações no mês de junho já eram realizadas muitos antes da era cristã. O solstício de verão no hemisfério norte ocorre em 21 ou 22 de junho, quando temos o dia mais comprido e a noite mais curta do ano. Os povos antigos, incluindo as civilizações gregas, egípcias e celtas, comemoravam essa passagem do calendário. Regadas com o calor do fogo e muita bebida e comida, eram celebrações à fertilidade e também para rogar aos seus deuses para que eles trouxessem fartura nas próximas colheitas. Com a evangelização da Europa na Idade Média, o ritual pagão foi incorporado ao calendário cristão e ganhou um cunho religioso. Isso ocorreu, basicamente, por dois motivos: para facilitar a catequese dos pagãos e esvaziar ideologicamente suas comemorações. Não é por acaso que as comemorações cristãs possuem relação com as principais passagens de tempo. É o caso da Páscoa (que ocorre no prime...

A Bolsa Amarela, Lygia Bojunga - uma polêmica boba.

 Somente hoje vi a razão da polêmica sobre o livro A Bolsa Amarela de Lygia Bojunga: "O ambiente entre pais e responsáveis de alunos do  Colégio Militar Dom Pedro II , do  Corpo de Bombeiros do Distrito Federal (CBMDF),  ficou tenso após a inclusão do livro  A Bolsa Amarela, da escritora Lygia Bojunga , na lista de leitura de turmas do 4º ano do ensino fundamental. A obra passou a ser alvo de críticas de famílias que consideram inadequada a abordagem de temas relacionados à  identidade de gênero para crianças de aproximadamente 9 anos . A reação ocorreu principalmente em grupos de  WhatsApp  utilizados para comunicação entre pais de alunos. Em mensagens compartilhadas entre os responsáveis, houve críticas à escolha pedagógica e questionamentos sobre a compatibilidade do conteúdo com os valores tradicionalmente associados ao ensino militar. " ( destaques feitos pela reportagem do site Metrópoles ) Fonte: Metrópolopes . O que penso:     ...

O Pecado do Rio, poema de Mia couto

Na igreja, Rosarinho se confessou: engravidei do rio, senhor padre. Com gesto de água arredondou o ventre. O padre se enrugou: ela que não usasse desculpa para os seus mortais pecados. A ofensa tremia na voz dela quando retorquiu: - Desculpe, padre, mas Nossa Senhora não emprenhou de um feixe de luz? Para mais, acrescentou Rosarinho, o senhor padre nem nunca, nem jamis viu esse rio. E rematou com lânguida saudade: aquele ondear, as tonturas que ele traz... Pegou o padre pela mão e o convidou para descer o vale. Agora, todas as noites o padre se banha nas águas do rio pecador. Mia Couto Poemas Escolhidos, cia das Letras 2016 págs. 44-45 em: págs. 44-45

Conjuga-me, poema de Fagner Mera

Na minha oração era você meu sujeito, meu predicado predileto. Onde eu, você e nós éramos além de pronomes. Mal sabia que, talvez o amor fosse apenas um objeto, direto. E eu no singular, pensando no plural, Acabei me tornando um mero sujeito oculto… Faltou concordância e não era nominal. Fui julgado, conjugado de forma errada, Me perdi no tempo, tornei-me passado, mais que imperfeito, faltaram verbos. E no futuro do pretérito havia um indicativo, um problema que talvez, não fosse simples, Composto talvez. E vendo aquele caos difícil de entender, na última lição de casa o verbo amar, decidiu me ensinar a conjugação do esquecer. Em: Leia Um Café e Tome Uma Poesia