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Trânsito,conto de Ednice Peixoto

     Obrigado a parar no sinal. Está atrasado como sempre, impacienta-se porque não vê carro nenhum no cruzamento, a presença da câmara o impede de continuar, cortar o sinal para compensar o atraso de ter acordado tarde. Um carro prateado para ao seu lado. Percebe uma mulher na direção e tem a impressão de ver asas. O sinal não abre, escuta o bater de uma porta e estranha. Olhando em direção ao carro de antes, não encontra mulher alguma, apenas um casaco preto repousa no banco do motorista. Tenta olhar em todas as direções, mas o cinto de segurança lhe impede os movimentos. Vira-se e destrava o cinto no mesmo instante em que o sinal abre. No para-brisa do carro, a mulher ergue a mão, estilhaça o vidro e o leva em direção ao céu.
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Carta do Gatinho Preto. De Machado de Assis para D. Alba

          D. Alba,             Só agora posso pegar na pena e escrever-lhe para agradecer o obséquio que me fez mandando-me de presente ao velho amigo Machado. No primeiro dia, não pude conhecer bem este cavalheiro; ele buscava-me com palavrinhas doces e estalinhos, mas eu fugia-lhe com medo e metia-me pelos cantos ou embaixo dos aparadores. No segundo dia, já me aproximava, mas ainda cauteloso. Agora, corro para ele sem receio, trepo-lhe aos joelhos e às costas, ele coça-me, diz-me graças, e, se não mia como eu, é porque lhe custa, mas espero que chegue até lá"."Só não consente que eu trepe à mesa, quando ele almoça ou janta, mas conserva-me nos joelhos e eu puxo-lhe os cordões do pijama.      A minha vida é alegre. Bebo leite, caldo de feijão e de sopa, com arroz, e já provei alguns pedaços de carne. A carne é boa; não creio, porém, que valha a de um camundongo, mas camundongo é que não há aqui, por mais que os...

Fala,poema de Orides Fontela

Tudo será difícil de dizer: a palavra real nunca é suave. Tudo será duro: luz impiedosa excessiva vivência consciência demais do ser. Tudo será capaz de ferir. Será agressivamente real. Tão real que nos despedaça. Não há piedade nos signos e nem no amor: o ser é excessivamente lúcido e a palavra é densa e nos fere. (Toda palavra é crueldade. Imagem: Rascunho Veja aqui livros de Orides Fontela  e leia aqui sobre ela A poeta  Orides Fontela  (São João  da Boa Vista, SP, 1940 – Campos do Jordão, SP, 1998) construiu uma obra considerada renovadora do modernismo brasileiro. Publicou seu primeiro livro,  Transposição , em 1969, já cursando Filosofia na Universidade de São Paulo. Publicou ainda:  Helianto  (1973),  Alba  (1983) – obra pela qual ganhou o Prêmio Jabuti em 1983 –,  Rosácea  (1986),  Trevo  (1988) – uma coletânea de sua obra –  e Teia  (1996). Viveu uma vida de escassez e penúria financeira, com dificuldade...

Poema da Quarta-feira de Cinzas, Manuel Bandeira

Entre a turba grosseira e fútil Um Pierrot doloroso passa. Veste-o um túnica inconsútil Feita de sonho e desgraça. O seu delírio manso agrupa Atrás dele os maus e os basbaques. Este o indigita, este outro o apupa... Indiferente a tais ataques, Nublada a vista em pranto inútil, Dolorosamente ele passa. Veste-o uma túnica inconsútil Feita de sonho e desgraça

Quarto de Pensão, poema de Marina Colasnati

Sou pensionista da vida. Na mesma ábua em que durmo escrevo meu trabalho e ela farfalha, embora já sem folhas, só da lembrança de já ter sido tronco. Tenho uma pia no canto que goteja, e é meu lago, meu rio, meu fundo mar. Tenho um rijo cabide à cabeceira para dependurar a pele a cada noite. Me dão café om pão, e às vezes algum vinho. Dizem que só paguei meia pensão. Há uma fome indistinta que me habita enquanto o medo com felpudo passos percorre o labirinto das entranhas. Mas agradeço essas quatro paredes e que me tenham dado uma janela. Pois sei que qualquer hora sem possibilidade de recurso e talvez mesmo sem aviso prévio serei intimada a devolver o quarto. Leia também:  A Morada do Ser, Marina Colasanti

O Olhar e o Carnaval, crônica de Mariana Bertolucci

Eu sempre adorei a folia e as  fantasias de Carnaval . Não tinha a disciplina e a técnica do balé clássico (que eu também amava), tampouco a imponência e o acabamento dos trajes e nem o frio na barriga antes de entrar no palco nas apresentações de final de ano da tia Lenita, minha professora amada que hoje está de aniversário. Um jeito diferente e mais descontraído de encarnar um personagem e contar uma história cheia de liberdade e purpurina. Era como esperar o ano inteiro a   festa da liberdade , como faz a turma da escola de samba, se preparando, ensaiando, economizando e esperando pelo maior espetáculo da terra. O mundo inteiro assiste, e a   festa   popular contagia. Lembro das minhas primeiras  fantasias  e trajes com muito carinho, mas hoje falarei só das  fantasias . A de índia com penas rosa-choque foi a primeira — eu era tão pequena que nem a parte de cima minha mãe colocou — e, depois, a de melindrosa, que é essa da foto acima. No tempo em q...

Método Rítmico, poema de Yusef Komunyakaa (USA)

Se você estivesse preso em uma caixa dentro de outra caixa no interior de uma floresta, sem o canto dos pássaro, sem grilos roçando as pernas, sem folhas caindo de galhos manchados, você ainda ouviria o ritmo do seu coração. Uma maré vermelha de peixes encalhados oscila na areia, copulando sob a lua cheia, & nós podemos chamar a isso o primeiro ritmo porque o sexo é o que fez despertar a língua & ensinou a mão a tocar bateria & adotar flautas de bambu antes de serem feitas de madeira & mito. Em cima & embaixo, dentro & fora, o pistão conduz uma casa dos sonhos. A água pinga até esculpir uma xícara em uma laje de pedra. Primeiro, não maior que um dedal, que guarda alegria, mas cresce até medir o ritmo da solidão que derrete o açúcar no chá. Há uma temporada para as cobras soltarem arco-íris na grama, para os gafanhotos cantarem no estrume. Sim, sim, sim, sim é uma confirmação de que a pele canta para as mãos. O Mantra da chuva de primavera abre a rosa & enred...