Pular para o conteúdo principal

Postagens

A Bolsa Amarela, conto de Lygia Bojunga

     Meu irmão chegou em casa com um embrulhão. Gritou da porta:      – Pacote da tia Brunilda!      Todo mundo correu, minha irmã falou:      – Olha como vem coisa.      Rebentaram o barbante, rasgaram o papel, tudo se espalhou na mesa. Aí foi aquela confusão:      – O vestido vermelho é meu.      – Ih, que colar bacana! Vai combinar com o meu suéter.      – Vê se veio alguma camisa do tio Júlio pra mim.      – Que sapato alinhado, tá com jeito de ser meu número.      Eu fico boba de ver como a tia Brunilda compra roupa. Compra e enjoa. Enjoa tudo: vestido, bolsa, sapato, blusa. Usa três, quatro vezes e pronto: enjoa.      Outro dia eu perguntei:      – Se ela enjoa tão depressa, pra que ela compra tanto? É pra poder enjoar mais? Ninguém me deu bola.       Não parava de sair coisa do pacot...
Postagens recentes

A História do Alfinete de Fralda ( que mora no bolso bebê da bolsa amarela) Lygia Bojunga

     Como ninguém conhece o Alfinete de Fralda, muito bem, eu acho melhor contar a história dele antes de continuar contando a minha:    Um dia eu ia passando e vi o Alfinete caído na rua. Peguei, limpei, desenferrujei, experimentei a pontinha dele no meu dedo, vi que ela era afiada toda a vida:      - Puxa!      E ela começou a riscar na minha mão tudo que o Alfinete queria dizer:      - Me guarda? Já não aguento mais viver aqui jogado: passa gente em cima de mim; chove, eu fico todo molhado, pego cada ferrugem medonha; e cada vez que varrem a rua eu esfrio: "pronto! vão achar que eu não sirvo mais pra nada, vão me levar no caminhão do lixo"; me encolho todo pra vassoura não me ver; e depois que ela passa, e depois que o susto passa, eu risco na calçada um anúncio de mim dizendo que eu sirvo sim; mas nunca acontece nada. Me guarda?      - Guardo.      - Então guarda.     ...

Desertificação, conto de Marina Colasanti

 O deserto começou a infiltra-se na casa por baixo da porta, areia tangida por invisível sopro. Abriram, espiaram o elevador, examinaram as escadas. Nada. Nem areia nem vento. Em casa, porta fechada, halitava o siroco. Abrasivo debaixo dos pés, suave concha nos cantos, a areia  acumulava-se. Desapareceram as flores do tapete, secaram as folhagens do sofá. Quando o desero sufocou os pássaros da tapeçaria, nenhum verde rstava na sala. Sem chuva, breve morreria também o oásis do quarto. Formada a primeira duna, o pai trouxe a cabra e o cabrito amarrados de corda. Garantiriam o leite. A mãe, arrancando as cortinas, providenciou panos, folgadas roupas, turbantes que protegiam a cabeça e a boca. Os olhos, na claridade, trabalhavam para descobrir entre frestas algum alimento para as cabras. E à noite acendiam em fogueiras o que restava dos móveis. Mas logo a duna começou a mover-se. Desfaziam-se as ondas do cimo para ondularem mais adiante. Era hora de partir. Desmontaram a tenda, a...

Os Amantes de Maio, crônica de Thiago de Mello

Maio acabou. E com ele se foi aquele encantamento que tombava do céu e subia do chão, tornando as mulheres extraordinariamente belas no instante do pôr do sol e fazendo com que o nosso amor florescesse mais radioso e mais puro. Nesta cidade como olhares, todas as criaturas , durante trinta e um dias, foram roçadas ou feridas por maio,mesmo aquelas que jamais se comoveram ou se perturbam ante a beleza de suas tardes e de suas madrugadas.     Maio saiu do céu. Sei  que às vezes ele ressuscita, louco, em pleno outubro e há certos fins-de-tarde em dezembro que acordam em nós saudades do mês que ontem findou. Mas é sempre muito incerto e não se sabe nunca se de fato é maio que renasce ou se é um resto de encanto que ficou guardado no coração dos amantes, para ser gasto em meses futuros, quando os dias forem cinzentos e os caminhos da noite estiverem cerrados.     Agora que não tem maio, pergunto, o que será de nosso amor, única coisa que...

Chove? Nenhuma Chuva Cai..., poema de Fernando Pessoa

Chove? Nenhuma chuva cai… Então onde é que eu sinto um dia Em que o ruído da chuva atrai A minha inútil agonia? Onde é que chove, que eu o ouço? Onde é que é triste, ó claro céu? Eu quero sorrir-te, e não posso, Ó céu azul, chamar-te meu… E o escuro ruído da chuva É constante em meu pensamento. Meu ser é a invisível curva Traçada pelo som do vento… E eis que ante o sol e o azul do dia, Como se a hora me estorvasse, Eu sofro… E a luz e a sua alegria Cai aos meus pés como um disfarce. Ah, na minha alma sempre chove. Há sempre escuro dentro de mim. Se escuto, alguém dentro de mim ouve A chuva, como a voz de um fim… Quando é que eu serei da tua cor, Do teu plácido e azul encanto, Ó claro dia exterior, Ó céu mais útil que o meu pranto? Fonte: Como Fazer Um Poema  

Isto, poema de Fernando Pessoa

Dizem que finjo ou minto Tudo o que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é Sentir? Sinta quem lê Em: O Eu Profundo E Os Outros Eus (seleção poética) Fernando Pessoa, pág.104

Deixe O Nordeste Falar, Isabelly Moreira na Livraria Megafauna de São Paulo

Desculpa, Brasil, desculpa                                        Pelo Nordeste que somos com a coragem que pomos Por assumir tua culpa Tu que ficaste aqui e cresceste por ai ecoando liberdade Não esquece a tua história que um filho sem memória não tem da mãe nem saudade. Sabe, Brasil o Nordeste emprestou a mão humana deu sangue, trabalho, vida e se hoje és fama e gana foi porque um nordestino doou o próprio destino para construir o teu. Em cada edifíco erguido há um nordestino esculpido na mão de quem o ergueu. Meu Brasil, sabe o problema que tenho identificado? Que enquanto somos pedreiros, porteiros.. tudo arranjado. Mas se somos pensadores, engenheiros, escritores... Aí o povo acha ruim porque para de mandar de zombar e explorar e disso não querem o fim. Mas tem coisa que me anima que é ver gente do sudeste do sul e do centro-oeste que luta por nossa estima além do Brasil alegórico s...