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Os Ninguéns, poema de Eduardo Galeano

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os dono de nada. Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos: Que não são embora sejam. Que não falam idiomas, falam dialetos. Que não praticam religiões, praticam superstições. Que não fazem arte, fazem artesanato. Que não são seres humanos, são recursos humanos. Que não tem cultura, têm folclore. Que não têm cara, têm braços. Que não têm nome, têm número. Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local. Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata. Fonte: Geledes
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Tartarugas No Jardim, crônica de Maria Julieta Drummond de Andrade

     Você acaba de sair há menos de cinco minutos e de repente quarto ficou tão enorme, que resolvi te escrever. Claro que você nunca receberá esta carta, e eu mesma ainda não decidi se vou rasgá-la. Pode ser até que a ponha numa gaveta, não da mesinha de cabeceiras, mas do armário entre as combinações e camisolas de renda que não uso e insisto em conservar. Daqui a meses, dois anos, num dia de faxina geral, eu talvez a encontre e releia, talvez fique comovida e pense longamente em você, talvez chore com certa afetação diante do espelho, recordando o maior amor da minha vida. Depois não sei se voltarei a escondê-la entre a roupa e os sachês, ou se a picarei duramente em pedacinhos regulares, antes de atirá-la na lixeira com um secreto prazer. Depende - ainda é cedo para qualquer previsão. O ideal seria descobri-la, sorrir e continuar arrumando as gavetas. Coisas que acontecem, feliz e infelizmente: só o tempo é capaz de resolver situações semelhantes Em todo caso, agora ...

O Dia Em Que Morri, crônica de Zuenir Ventura

     O presidente da república tinha acabado de discursar quando recebi a notícia de minha morte. Eu estava na cerimônia de inauguração do Instituto Moreira Salles e vi Marcos Sá Corrêa vindo em minha direção com o cabelo molhado de quem saiu do banho às pressas e a cara de quem estava vendo fantasma. De fato, eram as duas coisas. Viera cor-rendo de casa, ali perto, para me avisar que infelizmente eu tinha morrido. Acho que cheguei a esbo-çar um ar compungido ao ouvir o relato e devo ter dito que o falecido era um cara legal.      O boato fora divulgado na Internet, on-line, pela Agência Estado, que se baseara no telefonema que um repórter deu para um antigo número meu: 267-0415. Quem atendeu disse que eu morrera num desastre de carro na Lagoa. O próprio repórter me contou depois: "a mulher deve ser uma louca, porque me atendeu chorando, dando detalhes de sua morte e dizendo que trabalhava com a familia há 14 anos: 'coitada da Mary, dos filhos', chegou a d...

Fim do Mundo, poema de Mário Quintana

Ponho-me às vezes a cismar como seria belo o fim                                                                    do mundo. Antes de Cristo…                             Nos campos verdes                             Decorativas ossadas                         ...

Além da Amendoeira, conto de Guimarães Rosa

Vai, vez, um fim de tarde, saía eu com o Sung, para nosso passeio, que era o de não querer ir longe nem perto, mas buscar o certo no incerto, a tão bom esmo. Só me esquece a data. Cumprindo-nos, também, conferir as amendoeiras.       Seria em março as frutinhas do verde já boladas? abril: as folhas birutas, com lustro sem murcho, dando ponto às sanguíneas e às amarelinhas de esmalte. Se em maio, aí que, por en-frequentam e se beliscam um isto de borboletas, quase límpidas, amadurecem as frutas, cheirando a pêssego e de que os morcegos ávidos? Talvez em junho, que as drupas caídas machucam-se ilegíveis roxos. Também julho, quando se colorem ainda mais as folhas, caducas, no enrolar-se, vistosas que nem as dos plátanos de Neuilly ou de San Miníato al Monte, e as amêndoas no chão são tantas? Seja em agosto - despojadas. Ou em setembro, a desfolha espalhando nas calçadas amena saropueira, em que feerem ainda árduos rubros. Sei não, sempre é tempo de amendo...

Espécie de Felicidade, conto de Maria Julieta Drummond de Andrade

Ao chegar em casa para o almoço, encontrei um recado singular: uma leitora brasileira telefonara, de passagem por aqui, pedindo que eu mandasse tirar um gato de uma árvore, na Rua Honduras, em frente ao número 3805. Pensei tratar-se de uma confusão da empregada nova, que não entendera a mensagem, ou de um trote. Se fosse verdade, bem que daria uma crônica... À noite, de volta do trabalho, outro telefonema: era Neide, da Tijuca, que viera visitar um amigo argentino e regressava na madrugada seguinte para o Rio. Notara, há três dias, a presença de um gato na cima da árvore plantada diante da casa em que se hospedava, e não sabia como ajudá-lo, pois o bichinho, que miava desconsoladamente, parecia temeroso de pular. Acudira a um veterinário do bairro, que a aconselhou a chamar os bombeiros, estes a encaminharam à Sociedade Protetora dos Animais, cujo telefone não atendia. Aí lembrara-se de mim e das crônicas em que costumo proclamar meu encantamento pelos felinos; estivera até n...

Azul o Quê? poema de Ladyce West

Não sou fã de azul. Só do céu. de preferência como pano de fundo de uma frondosa bananeira, de uma mangueira, de pitangueiras ou jabuticabeiras. Por trás da montanha, enquadrando a paisagem bucólica, contrastando com um flamboyant. Não há rosas azuis. Nem tulipas. Nem comidas, nem bebidas. Fruta tropical não se passa por azul, nem mesmo mirtilo que e roxo e europeu. A baleia azul, não o é… Tampouco é o blue cheese. Azul, pra mim é cor triste. Não sou a única. Picasso triste é azul. No Irã é a cor do luto. É a cor do nada, na televisão. Indefinível, precisa de companhia para existir: azul-bebê, marinho, celeste, anil, cobalto, ardósia, petróleo, meia-noite, piscina, turquesa. Em inglês, significa tristeza. Are you feeling blue? “Não. Não estou triste, estou verde e amarela!” Em: À Meia Voz , Ladyce West 2020, pág.22