Pular para o conteúdo principal

Postagens

Trigueira, poema de Júlio Dinis

  Trigueira! que tem? Mais feia Com essa cor te imaginas? Feia! tu, que assim fascinas Com um só olhar dos teus! Que ciúmes tens da alvura Desses semelhantes de neve! Ai, pobre cabeça, leve! Que te não castigue Deus. Trigueira! se tu soubesses O que é ser assim trigueira! Dessa ardilosa maneira Porque tu o sabes ser; Não virias lamentar-te, Toda sentida e chorosa, Tendo inveja à cor da rosa, Sem motivos para a ter. Trigueira! Porque és trigueira É que eu assim te quis tanto. Daí provém todo o encanto Em que me traz este amor. E suspiras e murmuras; Que mais desejavas inda? Pois serias tu mais linda, Se tivesses outra cor? Trigueira! onde mais realça O brilhar duns olhos pretos, Sempre húmidos, sempre inquietos, Do que numa cor assim? Onde o correr duma lágrima Mais encantos apresenta? E um sorriso, um só, nos tenta, Como me tentou a mim? Trigueira! E choras por isso! Choras, quando outras te invejam Essa cor, e em vão forcejam Por, como tu, fascinar? Ó louca, nunca mais digas, Nunc...
Postagens recentes

O Carro Já Estava... , crônica de José Lins do Rego

     O carro já estava bastante lotado quando apareceu um passageiro que se espremeu na lata de sardinhas. Mas todos estavam felizes porque, àquela hora, fora uma providência aparecer um lotação para o Jockey.      E quando saimos da avenida, a conversa já estava pegada e a intimidade estabelecida.      - A bomba at6omica fracassou - dizia o homem da frente , quase sem poder mexer o pescoço.      - Fracassou nada - respondeu o outro lá do fundo do carro, com uma voz que vinha de longe.      - É truque americano - informava o companheiro ao meu lado. - americano não quer negócio de dividir segredo. E por isso fez toda aquela viagem.      - É, mas russo não vai no jogo. Russo é bicho manhoso.      - Que nada. Manha é do inglês.      - Americano diz o que sente. Eu não acredito que a história da bomba seja manobra.      - Eu não sei, mas acreditar em gring...

Narração, poema de Giórgos Sefaris ( tradução: Darcy Damasceno)

Esse homem caminha chorando; Ninguém saberia dizer por quê. Alguns pensam que ele chora amores perdidos Como os que nos atormentam tanto, No verão, junto ao mar, com os fonógrafos. Outros pensam em suas tarefas cotidianas, Papéis inacabados, filhos que crescem, Mulheres que envelhecem com dificuldade. Ele possui dois olhos como papoulas, Como papoulas colhidas na primavera, E duas pequenas fontes no canto dos olhos. Ele caminha nas ruas, não se deita nunca, Transpondo pequenos quadrados sobre o dorso da terra, Máquina de viver um sofrimento sem limite Que termina não tendo mais importância. Outros ouviram-no falar Sozinho, enquanto passava, De espelhos partidos há muitos anos, De rostos partidos no âmago dos espelhos, Que ninguém poderá jamais restaurar. Outros ouviram-no falar do sono, De visões horríveis nas portas do sono, De rostos insuportáveis de ternura. Habituamo-nos a ele, ele é correto, é tranquilo Só que caminha chorando sem parar, Como os salgueiros à beira dos rios que per...

Canção da Rosa de Pedra, poema de Zila Mamede

Essa, a rosa da promessa da noite do nosso amor, murcha rosa indiferente, sem alma, escassa de olor? Por que essa rosa de pedra, o meu presente nupcial? – Pantanosa flor de lama gerada em brisas de sal. O riso da minha infância, gritam-no abismos de sangue onde boia impura, incauta, flor de pedra, flor de mangue. A vã promessa incumprida na noite do nosso amor repousa em praias de sombra navega em mares de dor. Sobre a autora: 1928-1985 - Nasceu na Paraíba mas está mais ligada às letras e à cultura do Rio Grande do Norte, onde viveu a maior parte de sua vida e onde o mar a levou para sempre. O  poema Elegia,  incluído na presente seleção, é como um prenúncio de seu destino.  Formada em biblioteconomia, tendo exercido cargos de importância no Instituto Nacional do Livro (em Brasília) e como diretora da Biblioteca Central da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Seus principais livros:  Rosa de Pedra  (1953),  Salinas  (1958),  O Arado...

Poemas da M.P.B: Se Avexe Não, Accioly Neto

Ô, xalalalalalalá Ô, xalalalalalalá Ô, xalalalalalalá Ô, coisa boa é namorar Se avexe não Amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada Se avexe não A lagarta rasteja até o dia em que cria asas Se avexe não Que a burrinha da felicidade nunca se atrasa Se avexe não Amanhã ela para na porta da sua casa Se avexe não Toda caminhada começa no primeiro passo A natureza não tem pressa, segue seu compasso Inexoravelmente chega lá Se avexe não Observe quem vai subindo a ladeira Seja princesa ou seja lavadeira Pra ir mais alto, vai ter que suar Ô, xalalalalalalá Ô, xalalalalalalá Ô, xalalalalalalá Ô, coisa boa é namorar Se avexe não Amanhã pode acontecer tudo, inclusive nada Se avexe não A lagarta rasteja até o dia em que cria asas Se avexe não Que a burrinha da felicidade nunca se atrasa Se avexe não Amanhã ela para na porta da sua casa Se avexe não Toda caminhada começa no primeiro passo A natureza não tem pressa, segue seu compasso Inexoravelmente chega lá Se avexe não Observe quem vai subindo a...

Assim Começa o Livro Que Eu Comecei: Ópera dos Mortos, Autran Dourado

O Sobrado O senhor querendo saber, primeiro veja: Ali naquela casa de muitas janelas de bandeiras coloridas vivia Rosalina. Casa de gente de casta, segundo eles antigamente. Ainda conserva a imponência e o porte senhorial, o ar solarengo que o tempo de todo não comeu. As cores das janelas e da porta estão lavadas de velhas, o reboco caído em alguns trechos como grandes placas de ferida mostra mesmo as pedras e os tijolos e as taipas de sua carne e ossos, feitos para durar toda a vida; vidros quebrados nas vidraças, resultado do ataque da meninada nos dias de reinação, quando vinham provocar Rosalina (não de propósito e ruindade, mais sem que fazer de menino), escondida detrás das cortinas e reposteiros; nos peitoris das sacadas de ferro rendilhado formando flores estilizadas, setas, volutas, esses e gregas, faltam muitas das pinhas de cristal facetado cor de vinho que arrematavam nas cantoneiras a leveza daqueles balcões. O senhor atente depois para o velho sobrado com a memória, com o...

Quero Pedir Desculpas A Todas As Mulheres, poema de Rupi Kaur

quero pedir desculpas a todas as mulheres que descrevi como bonitas antes de dizer inteligentes ou corajosas fico triste por ter falado como se algo tão simples como aquilo que nasceu com você fosse seu maior orgulho quando seu espírito já despedaçou montanhas de agora em diante dizer coisas como você é forte ou você é incrível não porque não te ache bonita mas porque você é muito mais do que isso. Rupi Kaur : poetisa contemporânea indiano-canadense, autora de: Outros Jeitos de Usar a Boca Imagem: Dança, Portinari