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Mostrando postagens com o rótulo Estórias Abensonhadas

O Cego Estrelinho, Mia Couto

                              O Cego Estrelinho era pessoa de nenhuma vez: sua historia poderia ser contada e descontada   não fosse seu guia, Gigito Efraim. A mão de Gigito conduziu o desvistado   por tempos e idades. Aquela mão era repartimento comum, extensão e um no outro, siamensal. E assim era quase de nascença. Memória de Estrelinho tinha cinco dedos e eram de Gigito postos, em aperto, na sua própria mão.      O cego, curioso, queria saber de tudo. Ele não fazia cerimônia no viver. O sempre lhe era pouco e o tudo insuficiente. Dizia deste modo:      - Tenho que viver já, senão esqueço-me.      Gigitinho, porém, o que descrevia era o não havia. O mundo que ele minuciava eram fantasias e rendilhados. A imaginação do guia era mais profícua que papaeira. ...

A Velha Engolida Pela Pedra, Mia Couto.

          Não sou homem de igreja. Não creio e isso me dá tristeza. Porque, afinal, tenho em mim a religiosidade exigível a qualquer crente. Sou religioso sem religião. sofro, afinal, a doença da poesia: sonho lugares em que nunca estive, acredito só no que não se pode provar. E, mesmo se eu hoje rezasse, não saberia  que pedir a Deus. Esse é o meu medo: só os loucos não sabem o que pedir a Deus. Ou não se dará o caso de Deus ter perdido fé nos homens? Enfim, meu gosto de visitar igrejas vem apenas da tranquilidade desses lugarinhos côncavos, cheios de sombras sossegadas. Lá eu sei respirar. fora fica o mundo e suas desacudidas misérias.