Amanhecia quando ele chegou, e eu estava aqui, exatamente aqui, nesta cadeira de balanço onde me recosto agora, a cadeira de onde contarei — pela última vez — a história. Primeiro, ouvi um ruído na porta. Apenas um roçar, um murmúrio, mas que me pôs em alerta, sem que eu soubesse por quê. Com as costas eretas, fiquei à espera. Antes de me levantar, queria a confirmação de que ouvira de fato um som. Passara uma noite inquieta. Adormecera na sala, cansada demais para subir os degraus, um a um, rumo ao quarto onde Carlos me aguardava, em nossa cama fria. E tivera sonhos agitados, nos quais me vira voando e dançando e sangrando nas mãos. Sentia‑me exaurida, como se houvesse caminhado no sono. Apurei os ouvidos. Nada. Olhei em torno. Meus olhos, virgens ainda, inocentes do que viria, percorreram estas mesmas paredes que hoje me cercam, conspurcadas. Vi seus ângulos e junções, os cantos onde a penumbra se adensa, mesmo se a madrugada vai al...
Poesia, conto, crônica, encontre bons autores e textos aqui.