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Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Ricardo Azevedo

Estão Batendo na Porta, Ricardo Azevedo

homem sério chega cedo olha seco pras pessoas cumprimenta com a cabeça fica longe e vai sentando homem culto chega aéreo vive no mundo da lua abre um livro des’tamanho distraído vai sentando homem belo vem bonito elegante e perfumoso puxa o espelho, passa o pente vem pro centro e vai sentando homem pobre quando chega chega sem nada na mão olha quieto, fala baixo e depois senta no chão homem sábio chega calmo um por um vai abraçando fala pouco, olha os olhos fica junto e vai sentando homem doido chega e planta bananeira na janela mostra a língua, tira a roupa pinta o sete e vai sentando homem chato chega bobo vem torrando a paciência fala mole, não se enxerga enche o saco e vai sentando homem triste vem sozinho puxa o lenço e chora um pouco muita gente chega perto ele gosta e vai sentando homem fraco chega branco capengando agasalhado geme, espirra, tosse, funga cospe, engasga e vai deitando homem alegre chega leve vem contando as novidades dá três beijos, quatro abraços solta o riso e ...

Araújo & Ophélia, Ricardo Azevedo (Infantil)

     Os homens de negócios chamaram seus engenheiros e resolveram derrubar as árvores.      Elas eram velhas, não seriam para nada e naquela praça, quase abandonada, dava para construir um moderno e luxuoso shopping center. A cidade precisa crescer!      Um velhinho que morava ali perto, quando soube de tudo, tirou o pijama, colocou camiseta branca e calça de brim, vestiu paletó, calçou o tênis e saiu de casa afobado.      Entrou na praça e foi direto até uma das árvores. Por sorte, ela ainda estava lá, frondosa, imensa e bela como sempre. Era uma mangueira.      O velho ficou ali um tempão parado, admirando a árvore. Depois, começou a procurar. Agachou-se, ficou em pé, examinou o trono inteiro com cuidado. No fim, num cantinho do lado esquerdo, encontrou uma mensagem escrita a canivete faz tempo.      - Ufa! ainda bem!      Um suspiro brotou na boca do homem. Seus olhos ficaram ve...

Se Eu Fosse Esqueleto, Ricardo Azevedo

     Se eu fosse esqueleto não ia poder tomar água nem suco porque ia vazar tudo e molhar a casa inteira. Tirando isso, ia acordar e pular da cama feliz como um passarinho. É que ser uma caveira de verdade deve ser muito divertido. Por exemplo. Faz de conta que um banco está sendo assaltado. Aqueles bandidões nojentões, mauzões, armados até os dentões, berrando: - Na moral! Cadê a grana? Se eu fosse esqueleto, entrava no banco e gritava: bu! Bastaria um simples bu e aquela bandidagem ia cair dura no chão, com as calças molhadas de úmido pavor. O gerente e os clientes do banco iam agradecer e até me abraçar, só um pouco, mas tenho certeza de que iam. Se eu fosse caveira, de repente vai ver que eu ia ser considerado um grande herói. Fora isso, um esqueleto perambulando na rua em plena luz do dia causaria uma baita confusão. O povo correndo sem saber para onde, sirenes gemendo, gente que nunca rezou rezando, o Exército batendo em retirada, aquele mundaréu d...

O Caso do Espelho, Ricardo Azevedo

Era um homem que não sabia quase nada. Morava longe, numa casinha de sapé esquecida nos cafundós da mata. Um dia, precisando ir à cidade, passou em frente a uma loja e viu um espelho pendurado do lado de fora. O homem abriu a boca. Apertou os olhos.  Depois gritou, com o espelho nas mãos: - Mas o que é que o retrato de meu pai está fazendo aqui? - Isso é um espelho - explicou o dono da loja. - Não sei se é espelho ou se não é, só sei que é o retrato do meu pai. Os olhos do homem ficaram molhados. - O senhor... conheceu meu pai? - perguntou ele ao comerciante. O dono da loja sorriu. Explicou de novo. Aquilo era só um espelho comum, desses de vidro e moldura de madeira. - É não! - respondeu o outro. - Isso é o retrato do meu pai. É ele, sim! Olha o rosto dele. Olha a testa. E o cabelo? E o nariz? E aquele sorriso meio sem jeito? O homem quis saber o preço. O comerciante sacudiu os ombros e vendeu o espelho, baratinho Naquele dia, o homem que não sabia quase ...

Papagaio Congelado, Ricardo Azevedo

Um dia, um sujeito ganhou de presente um papagaio. O bicho era uma praga. Não demorou muito, logo se espalhou pela casa. Atendia telefone. Gritava e falava sozinho nas horas mais inesperadas. Dava palpite nas conversas dos outros. Discutia futebol. Fumava charuto. Pedia café, tomava, cuspia, arregalava os olhos, esparramava semente de girassol e cocô por todo lado, gargalhava e ainda gritava para o dono de casa: "Ô seu doutor, vê se não torra faz favor!" Uma noite, a família recebeu uma visita para jantar. O papagaio não gostou da cara do visitante e berrou: "Vai embora, ratazana!" e começou a falar cada palavrão cabeludo que dava medo. Depois que a visita foi embora, o dono da casa foi até o poleiro. Estava furioso: — Seu mal-educado, sem-vergonha de uma figa! Estou cheio! Agora você vai ver o que é bom pra tosse. Agarrou o papagaio pelo cangote e atirou dentro da geladeira: — Vai passar a noite aí de castigo! Depois, fech...