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Mostrando postagens com o rótulo autobiografia

Clube Errante: Leitura de Março

 Por sorteio o Clube Errante vai ler no mês de março o livro: A Imaginária de Adalgisa Nery. Fui sombra à procura de equilíbrio encontro no confuso desencontro sem chegar à irrealidade do que sou.  (Adalgisa Nery) Fu Há muitos anos, me deparei com a escrita da  Adalgisa Nery , um grande nome da literatura nacional. Apesar de pouco conhecida, por alguns, a autora lançou em 1959,  A imaginária , livro  best-seller  da época; hoje, relançado pelo  Grupo Editorial Record . Em A Imaginária o enredo gira em torno de Berenice, que perde a mãe na infância e vai para um colégio interno. Mais tarde, porém ainda muito jovem, 15 anos, casa-se, mas a paixão e arroubos da juventude perdem espaço para o cotidiano violento de um relacionamento abusivo. Ela passa a viver com a família do marido, entre eles, a sogra beata histérica. Logo o marido morre tuberculoso, mas seus problemas continuam, afinal, a sogra com atitudes mesquinhas e doentes está disposta a transfo...

Eu, Orhan Pamuk

     Quando eu tinha quatro anos, meu irmão, na época com seis, entrou para a escola, e ao longo dos dois anos seguintes o companheirismo intenso e ambivalente que se desenvolvera entre nós começou a perder a força. Eu estava livre da nossa rivalidade e da opressão de sua força superior; agora que eu tinha o Edifício Pamuk e a atenção exclusiva da minha mãe o dia inteiro, tornei-me mais feliz e descobri as alegrias da solidão.      Enquanto o meu irmão ficava na escola, eu pegava suas revistas em quadrinhos de aventura e, guiado pela lembrança do que ele lera para mim, tornava a "lê-las", dessa vez sozinho. Numa tarde quente e agradável, eu tinha sido posto na cama para minha sesta diária mas, excitado demais para dormir, abri um número de Tom Mix e logo senti a coisa que minha mãe chamava de meu "bibi" ficando dura. Estava olhando para o desenho de um pele-vermelha seminu com um cordão finíssimo em torno da cintura e, cobrindo sua virilha como uma band...

Autobiografia de Um Só Dia, João Cabral de Melo Neto

     No engenho Poço do Aleixo, em São Lourenço da Mata, moravam Luiz Antônio Cabral de Mello e sua mulher Carmem Carneiro Leão Cabral de Mello, meus avós paternos, que preparavam uma viagem para ao Recife, para que Carmem, às vésperas do parto de seu segundo filho (ou filha, na época não dava para saber), seguisse o que decretou seu pai: "Meus netos haverão de nascer todos no sobrado da família às margens da maré", como era conhecido por eles o estuário do Capibaribe, que enche e vaza com as marés do oceano.       São Lourenço da Mata fica a menos de vinte quilômetros do Recife, mas dá para imaginar como deveriam ser as estradas nessa época.      Chegaram de noitinha. Posso sentir o desconforto de minha vó, em final de gravidez fazendo uma viagem dessas.      Ao chegarem, o quarto principal do casarão ainda não tinha sido arrumado para o parto, portanto acomodaram minha avó e sua barriga no quarto dos santos, misto de qua...

O Menino, Chico Anysio

      Vou fazer um apelo. É o caso de um menino desaparecido.       Ele tem 11 anos, mas parece menos; pesa 30 quilos, mas parece menos; é brasileiro, mas parece menos.       É  um menino normal, ou seja: subnutrido, desses milhares de meninos que não pediram para nascer; ao contrário, nasceram pra pedir.       Calado demais pra sua  idade, com idade demais pra sua idade. É, como a maioria, um desses meninos de 11 anos que ainda não tiveram infância. Parece ser menor carente, mas se é, não sabe disso. Nunca esteve na Febem, portanto, não teve tempo de aprender a ser criança-problema. Anda descalço por amor à bola.       Suas roupas são de segunda mão, seus livros são de segunda mão e tem a desconfiança de que a sua própria história alguém já viveu antes.