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Mostrando postagens com o rótulo Lêdo Ivo

O Que Estou Lendo? O Caminho Sem Aventura, Lêdo Ivo. Primeira página

     Durante o momento em que, tendo já apagado a luz, eu entrecerrava os olhos, aguardando um sono que  não vinha, era que me afluiam à memória todos os acontecimentos em que fôra jogado. Êsses fatos vinham em dsua maioria decepados, partidos, as imagens misturando-se à medida que o aniquilamnto do adormecer me tomava. Principalmente as lembranças da infância se transfiguravam, vestindo-se de tonalidades que eu sabia não serem reais, mas forjadas pela imaginação, surgindo dessa maneira como coisas criadas, afastando-se de suas linhas lúcidas para espalhar-se e desenvolver-se numa atmosfera de sonho. A imagem de Bárbara que flutuava em minha lembrança não era decerto a presença física de minha amiga, mas se tratava de Maria Eleonora, sua mãe, a pessoa que modificara, com sua influência e existência que eu levava, e se projetara de um modo considerával em minha vida.      Maria Eleonora era uma dessas criaturas que, mesmo desaparecidas, permanecem em no...

Os Dois Amigos, conto de Lêdo Ivo

     Quando os dois amigos se encontravam, um deles sempre tinha pressa. No instante mal cabia um aperto de mão. O gesto afetuoso perdia-se no ar, inacabado.      - Precisamos nos encontrar! - exclamava o amigo vitorioso e apressado, e talvez uma fagulha de satisfação cintilasse no olhar do outro que sempre respondia, catando as migalhas da antiga estima:      - Telefone. Tenho o nome no catálogo.      O amigo sempre ocupado, não dispunha de tempo para deter-se na calçada ou no meio da rua, tirar o caderninho de notas e escrever-lje o nome e número do telefone. Mas não havia necessidade desse ritual miudo: seu nome estava no catálogo telef6onico!      Contava, à noite, à sua mulher, que encontrara o amigo de infância. "Estive hoje com o Felisberto Barrosso."dizia o nome todo, embora ambos tivessem sentado juntos nos bancos do grupo escolar. chegara mesmo a salvá-lo uma vez de morrer afogado. Felisberto ( ou Feli...

Nascido em 18 de fevereiro: Lêdo Ivo.

Soneto da Aurora Revista Piaui - Ilustração de Caio Borges. Quando a aurora se for, não mais seremos o que ora somos, entre a Noite e o Dia, cegos contempladores da magia que no aquário da noite surpreendemos;  Somos flamas do instante, e em luz ardemos presos eternamente ao que seria  o amor em nossos corpos, alegria do perpétuo horizonte em que nascemos. Das corolas do céu extraio ardente forma de redenção cativa à hora  em que ao puro lilá fui entregar-me.  . Que somos nós senão a eternidade?  o amor transfigurou-se como a aurora e se extinguiu após enfeitiçar-me. Leia mais sobre o autor

O Montepio, Lêdo Ivo

Que herança transmite o pai a seu filho? Não lhe deixa casa ou sombra de apólice nem tampouco o sujo de seu colarinho. Não lhe lega a velha mala das viagens nem os seus amores e as suas bagagens. E as roupas do pai que a chuva encolheu no filho não cabem. Com pau seco e fogo o pai de resina arma seu legado. Deixa a fogueira que ele fez sozinho no escuro da mata. (Borboletas em seus ombros pousavam) E também menino na pele do vento solta para o céu o seu papagaio. E antes de mudar-se de suor em musgo o pai dá ao filho como pé-de-meia algo da paisagem - sobra de pupila, moeda de lágrimas. Deixa-lhe o balaio cheio de apetrechos e o jeito de andar com as mãos às costas. Para o filho, passa todo o seu cansaço suas promissórias e seu olhar baço. Da árvore do povo deixa-lhe o grito de espantado amor que gritou na praia. De agrestes gravetos faz o fogo e esquenta na palhoça ao vento a comida fria de sua marmita. O pai dá ao filho o n...

A Recompensa,Lêdo Ivo

Eis a dádiva da noite: fenda, cova, gruta, porta casto pássaro sem canto cisterna oculta no bosque concha perdida na praia viva natureza-morta. Um corredor de coral matriz e canal de mangue trilha, sebe, valva, furna voluta cheia de adornos desfiladeiro da tarde tumba de sol e corola sereno da madrugada.

Pequenas notícias (2)

O filme Universo Graciliano de Sylvio Back, que traz depoimento do recém falecido Lêdo Ivo , tem estreia marcada para março de 2013. O documentário teve locações em Maceió e Rio de Janeiro. Do mesmo produtor, ainda este ano começam as filmagens de Angústia. Um dos clássicos de Graciliano Ramos.  Lançado no Sesc de Triunfo - PE a segunda edição do livro: A Dona de Lampião , da jornalista Wanessa Campos. Versa sobre Maria Bonita.

Crônica Carioca de Natal - Lêdo Ivo

     O Homem zarolho, postado atrás do balcão da portaria do hotel, olhou para o ventre de Maria e disse, peremptório:      - Não há vagas. Os quartos estão todos tomados.      Ela e José desceram; em silêncio, a suja escada que rangia. Logo os envolveu, na noite nova, o rumor da cidade. O povo corria para os ônibus e trens, jornaleiros anunciavam o lançamento de uma bomba atômica no Pacífico – e tudo aquilo desnorteava ainda mais o casal que passara o dia procurando um quarto na grande cidade indiferente. Como dispunham de pouco dinheiro, subiam apenas as escadas das hospedarias que lhes pareciam acessíveis, mas em nenhuma delas haviam encontrado acolhida.      José e Maria continuaram perambulando, ora através de grandes avenidas, ora por estreitas ruas transversais. Estavam cansados, tinham vindo de longe, perseguidos por uma calamidade, e a ninguém conheciam. De vez em quando, Maria parava, queixando-se d...

Soneto da Porta, Lêdo Ivo

Quem bate à minha porta não me busca. Procura sempre aquele que não sou e, vulto imóvel atrás de qualquer muro, é meu sósia ou meu clone, em mim oculto. Que saiba quem me busca e não me encontra: sou aquele que está além de mim, sombra que bebe o sol, angra e laguna unidos na quimera do horizonte. Sempre andei me buscando e não me achei: E ao pôr-do-sol, enquanto espero a vinda da luz perdida de uma estrela morta, sinto saudades do que nunca fui, do que deixei de ser, do que sonhei e se escondeu de mim atrás da porta.