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Mostrando postagens com o rótulo Graciliano Ramos

A Espingarda de Alexandre, conto de Graciliano Ramos

     – Os senhores querem saber como se deu esse caso do veado, uma história que apontei outro dia? perguntou Alexandre às visitas, um domingo, no copiar. Ora muito bem. Olhem aquele monte ali na frente. É longe, não é?      – Muito longe, respondeu o cego preto Firmino.      – Como é que o senhor sabe, seu Firmino? grunhiu o narrador. O senhor não vê.      – Não sei não, seu Alexandre, voltou o negro. Eu disse que era longe porque o senhor é o dono da casa e deve saber. O senhor achou que era longe e eu concordei. Não está certo?      – Está, resmungou Alexandre. Mas eu quero a opinião dos outros. Que distância vai daqui àquele monte, seu Libório?      Seu Libório arriscou meia légua. Mestre Gaudêncio afastou o monte para duas léguas. E Das Dores afirmou que ele devia estar a umas cinquenta:      – É o que eu digo, meu padrinho. Cinquenta léguas, daí para cima. Alexandre, moderadam...

O Prefeito Escritor, sinopse da Amazon sobre livro de Graciliano Ramos

     Ainda não li o pequeno. Sei que é conciso e objetivo porque Gaciliano Ramos escrevia assim.  Ah, O Prefeito Escritor tem apenas 96 páginas.  Pelo que conheci (de leitura) de sua administração, acho que o livro devia ser obrigatório para todos os eleitores independente de partido. por que eleitores e não políticos?  Por a estes não interessa ser bom gestor. O eleitor é que deve ter plena consciência do que cabe ao prefeito, do que esperar dele e do que lhe cobrar. O eleitor é o único responsável por ter maus gestores e representantes.   Por isso ao eleitor, repito, de qualquer partido recomendo a leitura.    Segue a sinopse:  “Evitei emaranhar-me em teias de aranha”, registrou Graciliano Ramos em um dos relatórios dirigidos ao governador do estado de Alagoas, datado de 1929. Em  O prefeito escritor: dois retratos de uma administração , temos um vislumbre do futuro escritor ainda na época em que era político emergente, pre...

De Ricardo Ramos Filho Sobre a Avó D. Heloisa Ramos

Difícil  encontrar o tom certo para escrever sobre Heloísa Ramos. Quando o amigo Angelo Caio Mendes Corrêa pediu-me para falar a respeito, quase recusei. Sabia que iria me aproximar o tempo todo de coisas que ela detestava: pieguices, lugares comuns e frases feitas. Paciência. Como não acredito em almas de outro mundo resolvi arriscar. A percepção do sinal que ela trazia no olho direito, referenciado por Graciliano em suas cartas de amor, remonta à minha infância. Sempre me intrigou e percebo, com certa surpresa, que nunca fiz referência a ele em nossos contatos. Talvez identificasse nesta marca a possibilidade de um olhar especial e, conhecendo-a, achasse natural. Inteligente, autêntica, minha avó enxergava diferentemente dos outros. Heloísa de Medeiros Ramos nasceu em Maceió no dia 11 de janeiro de 1910, e faleceu em 23 de julho de 1999. Aos dezoito anos casou-se com o viúvo Graciliano Ramos, herdando do relacionamento anterior os enteados: Márcio, Júnio, Múcio e Maria Augusta. D...

Fusca Graciliênico do Sr. Mariano Alves ( Graciliano Ramos em Maceió)

     Em Maceió, um fusca grafite decorado externamente com fotos e frases do escritor alagoano Graciliano Ramos carrega inúmeros livros pela cidade. O pedagogo Mariano Alves de Oliveira, de 59 anos, conduz a biblioteca itinerante e visita as escolas públicas dos bairros. No pátio, ele expõe seu acervo literário e os alunos se aproximam para conhecer, acessar os livros e ouvir sobre literatura. “Graciliano Ramos descreveu como ninguém a realidade de quem vive no sertão nordestino, como um espelho retrovisor onde podemos aprender sobre nossas origens”, relata o pedagogo aos alunos. O “fusca graciliânico” também visita os locais de grande movimento e desperta a atenção das pessoas por onde passa. Junto com os livros, ele monta o pequeno cenário no teto do carro com panela de barro, chapéu de couro, colher de pau e uma escultura de metal que representa Baleia, a cachorrinha personagem de Vidas Secas, e fica à disposição para conversar sobre literatura e, em especial, sobre o ...

Angústia, Graciliano Ramos - primeiras páginas...

      Levantei-me há cerca de trinta dias, mas julgo que ainda não me restabeleci completamente. Das visões que me perseguiam naquelas noites compridas  umas sombras permaneceram, sombras que se  misturam à realidade e me produzem calafrios.      Há criaturas que não suporto. Os vagabundos, por exemplo. Parece-me que eles cresceram muito, e, aproximando-se de mim, não vão gemer peditórios: vão gritar, exigir, tomar-me qualquer coisa.      Certos lugares que me davam prazer tornaram-se odiosos. Passo diante de uma livraria, olho com desgosto as vitrinas, tenho a impressão de que se acham ali pessoas exibindo títulos e preços nos rostos, vendendo-se. É uma espécie de prostituição. Um sujeito chega, atenta, encolhendo os ombros ou estirando o beiço, naqueles desconhecidos que se amontoam por detrás do vidro. Outro larga uma opinião à toa. Basbaques escutam, saem. E os autores, resignados, mostram as letras e os algarismos, oferecendo-s...

Clube Errante: O Que Vamos Ler?

O Clube Errante fará 3 leituras conjuntas em 2023. No momento estamos colhendo sugestões para posterior sorteio.    Logo mais às 20 horas o sorteio das leituras para Março, Julho e Novembro Angústia , Graciliano Ramos Ed. Record  - Páginas:368 Lançado originalmente em 1936 e apresentado aqui em novo projeto gráfico,  Angústia  tem como protagonista Luís Silva, funcionário público de Maceió que leva uma vida medíocre e sem grandes emoções até o dia em que se apaixona por Marina. De início, a jovem demonstra certo interesse no relacionamento e no conforto material que o casamento poderia lhe proporcionar, mas logo acaba trocando o noivo por Julião Tavares, mais rico e poderoso. Tomado por ciúmes e rancor, Silva fica perturbado com os acontecimentos que se desenrolam e passa a acompanhar a vida de Marina enquanto sonha em matar Julião. Escrito em primeira pessoa, o romance tem estrutura temporal não linear, seguindo o fluxo de consciência do narrador-persona...

Postagens Mais Acessadas em 2019

           Gosto de fazer a retrospectiva, porque revejo postagens e comentários. Este ano, o texto de uma amiga está entre as cinco mais lidas. Fiquei feliz por ela.    Clique no título e releia.  Vale a pena. Um Cinturão , Graciliano Ramos.  7 de maio 8 Mulheres Que Brilharam e Não Podem Ser Esquecidas - 8 de março Os Tigres de Tozamurai-No-Ma , Manuel António Pina - 26 de abril Aprenda a Chamar a Polícia , Luis Fernando Veríssimo - 31 de maio Corporiedade Feminina , Janete Barros - 12 de março

Festa, Graciliano Ramos

     A família foi à festa de Natal na cidade. Todos vestidos com suas melhores roupas, num traje pouco comum às suas figuras, o que lhes dava um ar ridículo. A caminhada longa tornava-se ainda mais cansativa por causa daquelas roupas e sapatos apertados. O mal-estar era geral, até que Fabiano cansou-se da situação e tirou os sapatos, metendo as meias no bolso, livrando-se ainda do paletó e da gravata que o sufocava. Os demais fizeram o mesmo. Voltaram ao seu natural. Baleia juntou-se ao grupo. Chegando à cidade, foram todos lavar-se à beira de um riacho antes de se integrarem à festa. Sinhá Vitória carregava um guarda-chuva. Fabiano marchava teso. Os meninos maravilham-se, assustados, com tantas luzes e gente. A igreja, com as imagens nos altares, encantou-os mais ainda. O pai espremia-se no meio da multidão, sentindo-se cercado de inimigos. Sentia-se mangado por aquelas pessoas que o viam em trajes estranhos à sua bruta feição. Ninguém na cidade era bom. Lembrou...

Nascido em 27 de Outubro: Graciliano Ramos

     A CACHORRA Baleia estava para morrer. Tinha emagrecido, o pêlo caíra-lhe em vários pontos, as costelas avultavam num fundo róseo, onde manchas escuras supuravam e sangravam, cobertas de moscas. As chagas da boca e a inchação dos beiços dificultavam-lhe a comida e a bebida. Por isso Fabiano imaginara que ela estivesse com um princípio de hidrofobia e amarrara-lhe no pescoço um rosário de sabugos de milho  queimados. Mas Baleia, sempre de mal a pior, roçava-se nas estacas do curral ou metia-se no mato, impaciente, enxotava os mosquitos sacudindo as orelhas murchas, agitando a cauda pelada e curta, grossa nas base, cheia de moscas, semelhante a uma cauda de cascavel.      Então Fabiano resolveu matá-la. Foi buscar a espingarda de pederneira, lixou-a, limpou-a com o saca-trapo e fez tenção de carregá-la bem para a cachorra não sofrer muito.     Sinhá Vitória fechou-se na camarinha, rebocando os meninos assustados, que advinhavam ...

Um Cinturão, Graciliano Ramos

     As minhas primeiras relações com a justiça foram dolorosas e deixaram-me funda impressão. Eu devia ter quatro ou cinco anos, por aí, e figurei na qualidade de réu. Certamente já me haviam feito representar esse papel, mas ninguém me dera a entender que se tratava de julgamento. Batiam-me porque podiam bater-me, e isto era natural.      Os golpes que recebi antes do caso do cinturão, puramente físicos, desapareciam quando findava a dor. Certa vez minha mãe surrou-me com uma corda nodosa que me pintou as costas de manchas sangrentas. Moído, virando a cabeça com dificuldade, eu distinguia nas costelas grandes lanhos vermelhos. Deitaram-me, enrolaram-me em panos molhados com água de sal – e houve uma discussão na família. Minha avó, que nos visitava, condenou o procedimento da filha e esta afligiu-se. Irritada, ferira-me à toa, sem querer.    Não guardei ódio a minha mãe: o culpado era o nó. Se não fosse ele, a flagelação me haveria causa...