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Mostrando postagens com o rótulo Seca

Águas e Mágoas do Rio São Francisco, poema de Carlos Drummond de Andrade

Está secando o velho Chico. Está mirrando, está morrendo. Já não quer saber de lanchas-ônibus, nem de chatas e seus empurradores. Cansou-se de gaiolas e literatura encomiástica e mostra o leito pobre, as pedras, as areias desoladas onde nenhum caboclo-d’água, nenhum minhocão ou cachorrinha-d’água, cativados a nacos de fumo forte, restam para semente de contos fabulosos e assustados. Ei, velho Chico, Já te estranham, meu Chico. Desta vez, encolheste demais. O cemitério de barcos encalhados se desdobra na lama que deixaste. O fio d’água (ou lágrimas?) escorre entre carcaças novas: é brinquedo de curumins, os únicos navios que aceitas transportar com desenfado. Mulheres quebram pedra no pátio ressequido que foi teu leito e esboça teu fantasma. Não escutas, ó Chico, as rezas músicas dos fiéis que em procissão imploram chuva? São amigos que te querem, companheiros que carecem de teu deslizar sem pressa (tão suave que corrias, embora tão artioso que muitas vezes tiravas a terra de um lado e ...

Imbuzeiro, Laelson Lourenço

Imbuzeiro, imbuzeiro Onde está o viajante Que descansou da viagem Debaixo da sua folhagem Num tempo nem tão distante? Das árvores do meu sertão Tu és a planta sagrada Por que se encontra despida Da sua copa florida Na beira dessa estrada? Hoje quem te contempla Fica muito admirado Cadê sua copa densa Muito verde e extensa Por que estás ressecado? A seca que te maltrata É injusta e persistente Te tira a cor e a beleza Por isso que a natureza Te fez planta resistente   Espero que as chuvas voltem Em dezembro ou janeiro Pra te ver belo e copado Dando sombra para o gado E frutos pro estradeiro. Foto de: Eduardo Henrique

Chuva de Honestidade, Flávio Leandro.

Hoje a segunda-feira poética traz uma música  que conheci recentemente e que é um retrato do Nordeste. Vejam o vídeo com a letra. Clique na imagem Add a playlist Tamanho A

O Estranho Visitante, Regina Ruth Rincón Caires

A cada enxadada, fincando o chão seco, duro e praguejado, o suor escorrendo pelas costas abaixo, sob um sol impiedoso, Gregório, involuntariamente, matuta. Se ao menos essas lembranças o abandonassem um pouco, a força dos braços seria mais viva. Qual o quê? Ferem seu corpo como espinhos, ficam como acordes de tristeza a lhe tocarem a alma. Pensamentos teimosos! Por que não se vão, feito a chuva?! Gregório para um pouco... Tira o chapéu. Os cabelos grudados à testa, o suor caindo-lhe sobre as pálpebras enrugadas. Sente-se um caco! Olha a sua volta, demoradamente, depois ergue seus olhos para o céu. Nada de nuvens! O céu infinitamente azul, e o sol, majestoso, reinando tirano. Tem sede... Olha para a moita de arbustos lá adiante, e sente-se desanimado calculando a distância que o separa da sua moringa. O jeito é arranjar forças pra chegar até lá. Sem água nem é possível pensar, quanto mais continuar! Descansa a enxada sobre o torrão de terra que acabou de revirar e segue em dir...

O Homem e o Rio, Adeilzo Santos

Está seco, Não chove mais, O rio só tem o nome, O homem obstrui o rio, Faz o enterro do rio Achando que o rio está morto. Depois do enterro, seu jazigo: Casas e casebres. O homem se vangloria O rio está morto E pode com o rio. O homem riu do rio. Passam anos e mais anos O homem nem lembra quando enterrou o rio. Lá vem a chuva, Molhando a terra, Encarnou no rio, É a alma do rio. E lá vem o rio Derrubando casas e casebres Levando tudo que ficar na sua frente. O homem desesperado chora, Perdera tudo pro rio. Ledo engano, era tudo do rio. O homem desolado Não entende o rio Achando que tinha o matado. Mas o rio apenas dormia. Por fim. O rio riu do homem. Imagem: www.observatoriodoclima.eco.br

Memórias do Boi Serapião,Carlos Pena Filho

Imagem: zardeandoemarte.blogsopt.com.br          A Aloísio Magalhães e José Meira Este campo, vasto e cinzento, não tem começo nem fim, nem de leve desconfia das coisas que vão em mim. Deve conhecer, apenas (porque são pecados nossos) o pó que cega meus olhos e a sede que rói meus ossos. No verão, quando não há capim na terra e milho no paiol solenemente mastigo areias, pedras e sol. Às vezes, nas longas tardes do quieto mês de dezembro vou a uma serra que sei ...

São José, rogai por nós. Cícero Belmar.

Por ser 19 de março, tenho a sensação de que é um dia diferente. Posso refazer a frase? Tenho certeza de que é um dia especial por ser dedicado a São José, padroeiro de Bodocó, minha cidade. Melhor dizendo, padroeiro dos sertões. Quando eu era criança acreditava piamente, assim como todo povo do Sertão, que o marceneiro esposo da Virgem Maria eram quem derramava as bênçãos divinas em forma de chuva naquele chão semiárido. Seguíamos em procissão. Contritos, sob o sol. Mandacarus de braços erguidos. Nós, diante do Divino, olhos para o chão. Quem éramos? Muitos anos passaram e eu deixei de pensar como criança. Mudei, desacreditei naquela crendice ingênua. Estudei, aprendi algumas coisas. Li a filosofia, a psicanálise, a teologia. Fui existencialista. Neguei o que aprendi no passado. Mas o tempo não para, disse Cazuza. Não para mesmo. Descobri que li erradamente muitos livros. De filosofia, de psicanálise, de teologia. Tive a graça e o tempo de reapr...

Biquini Cavadão - Sobradinho

Sobradinho Sá e Guarabira O homem chega e já desfaz a natureza Tira a gente põe represa, diz que tudo vai mudar O São Francisco lá prá cima da Bahia Diz que dia menos dia vai subir bem devagar E passo a passo vai cumprindo a profecia Do beato que dizia que o sertão ia alagar O sertão vai virar mar Dá no coração O medo que algum dia O mar também vire sertão Vai virar mar Dá no coração O medo que algum dia O mar também vire sertão Adeus Remanso, Casa Nova, Sento Sé Adeus Pilão Arcado vem o rio te engolir Debaixo d'água lá se vai a vida inteira Por cima da cachoeira o Gaiola vai subir Vai ter barragem no salto do Sobradinho E o povo vai se embora com medo de se afogar O sertão vai virar mar Dá no coração O medo que algum dia O mar também vire sertão Vai virar mar Dá no coração O medo que algum dia o mar também vire sertão.

O Quinze: 80 anos

O título  refere-se à grande seca de 1915, vivida pela escritora em sua infância. O romance se dá em dois planos, um enfocando o vaqueiro Chico Bento e sua família, o outro a relação afetiva de Vicente, rude proprietário e criador de gado, e Conceição, sua prima culta e professora. Conceição é apresentada como uma moça que gosta de ler vários livros, inclusive de tendências feministas e socialistas o que estranha a sua avó, Mãe Nácia - representante das velhas tradições. No período de férias, Conceição passava na fazenda da família, no Logradouro, perto do Quixadá. Apesar de ter 22 anos, não dizia pensar em casar, mas sempre se engraçava à seu primo Vicente. Ele era o proprietário que cuidava do gado, era rude e até mesmo selvagem. Com o advento da seca, a família de Mãe Nácia decide ir para cidade e deixar Vicente cuidando de tudo, resistindo. Trabalhava incessantemente para manter os animais vivos. Conceição, trabalhava agora no campo de concentração onde ficavam alojados os ...

Tempo Bom,

Sidney Rocha, escritor cearense encabeça projeto literário  em prol dos desabrigados das últimas chuvas no Nordeste. O livro TEMPO  BOM, (com  vírgula no  final) traz  textos de 21 contistas, vai ser lançado pela editora Iluminuras, com  preço estimado  em R$10,00. Alguns autores que participam do projeto de solidariedade são: Xico Sá, Raimundo Carrero, Ronaldo Correia de Brito, Marcelino Freire, Gustavo Rios, Lima Trindade, Nelson de Oliveira e Alberto Mussa.  Sydney Rocha, o idealizador, tem  três contos, um  deles é: Silibrina em gotas. Ato único. (Silibrina mora em Aracopyara, a duzentos quilômetros da capital. A única diferença entre a garota Silibrina e qualquer outra da Colômbia ou do Japão é o sotaque. No mais, musicplayer, oclão, celular de dois chips, são a mesma. Quando a luz acende Silibrina já está em cena). SILIBRINA digaí: faz tempo que a gente tá na dança. faz tempo que a gente tá na barca. na...