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A Primavera Chegou, Rubem Braga

      Há um conto escandinavo, escrito por não sei quem há muitas primaveras, em que o mordomo se curva respeitosamente e anuncia à senhora Condessa:      - Com a vossa permissão, a primavera chegou.      - Diga-lhe que seja bem vinda e pode permanecer três meses em minhas terras.      Então vem o primeiro domingo da primavera. E havia um velho mendigo que tinha uma perna de pau. Suspeitava-se que em sua mocidade houvesse sido um terrível pirata; de qualquer maneira era agora apenas um velho mendigo que pedia esmola todo domingo na porta da igreja. E havia uma rica velhinha que todo domingo dava ao mendigo uma grande moeda de cobre. Naquele domingo, entretanto, por ser o primeiro da primavera, deu-lhe uma grande moeda de ouro. O mendigo sorriu e pediu licença para lhe oferecer um bela rosa.      Que rosa tão bela, mendigo. Onde a colheu?      Nasceu em minha perna de pau, senhora. ...

Mané-Paciência, Olegário Mariano

Mané-Paciência é triste, esquelético e bambo. Barba sem côr, pele rugosa, olhar sem brilho. Se a vida transformou seu corpo num molambo, O infortúnio o adotou como se adota um filho. Pede esmolas, rodando entre as mãos a sacola. O grande chapelão lhe aumenta o ar de inocência. Se alguém dêle sorri quando lhe nega esmola, Mané- Paciência se descobre e diz: paciência... Mas, através daquele corpo, nas encolhas, Vive em sua humildade, uma alma nordestina Que se debruça como uma árvore sem fôlhas Procurando esconder aquela humana ruína. Mané-Paciência é bem  a paisagem nativa, O anônimo infortúnio e a miséria sem nome. Tanto esplendor no céu de uma chama tão via E debaixo do céu tanta gente com fome!