Pular para o conteúdo principal

Postagens

Mostrando postagens com o rótulo João Guimarães Rosa

Os Três Burricos, João Guimarães Rosa

Por estradas de montanha vou: os três burricos que sou. Será que alguém me acompanha? Também não sei se é uma ida ao inverso: se regresso. Muito é o nada nesta vida. E, dos três, que eram eu mesmo ora pois, morreram dois; fiquei só, andando a esmo. Mortos, mas, vindo comigo a pesar. E carregar a ambos é o meu castigo? Pois a estrada por onde eu ia findou. Agora, onde estou? Já cheguei, e não sabia? Três vezes terei chegado eu — o só, que não morreu e um morto eu de cada lado. Sendo bem isso, ou então será: morto o que vivo está. E os vivos, que longe vão? – João Guimarães Rosa, do livro “Ave, palavra”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 6ª ed., 2009.

A Terceira Margem do Rio, João Guimarães Rosa

Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas sensatas pessoas, quando Indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto.      Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai mandou fazer para si uma canoa.      Era a sério. Encomendou a canoa especial, de pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo, própria para dever durar na água por uns 20 ou 30 anos.      Nossa mãe jurou muito contra a idéia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de ...

100 anos de nascimento de João Guimarães Rosa

De Guimarães Rosa , sobre como ele próprio escreve: " Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens." De Carlos Drummond de Andrade para Guimarães Rosa : Um chamado João" "João era fabulista? fabuloso? fábula? Sertão místico disparando no exílio da linguagem comum? Projetava na gravatinha a quinta face das coisas, inenarrável narrada? Um estranho chamado João para disfarçar, para farçar o que não ousamos compreender? Tinha pastos, buritis plantados no apartamento? no peito? Vegetal ele era ou passarinho sob a robusta ossatura com pinta de boi risonho? Era um teatro e todos os artistas no mesm...