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Mostrando postagens com o rótulo Soneto

Soneto Já Antigo, Álvaro de Campos

Olha, Daisy: quando eu morrer tá has de dizer aos meus amigos aí em Londres, embora não o sintas, que tu escondes a grade dor da minha morte. Irás de Londres p'ra Iorque, onde nasceste (dizes... que eu nada que tu digas acredito), contar àquele pobre rapazito que me deu tantas horas tão felizes, Embora não o saibas, que morro... mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar, nada se importará... Depois vai dar a notícia a essa estranha Cecily que acreditava que eu seria grande... Raios partam a vida e quem lá ande! Em: O Eu Profundo e Os Outros Eus, seleção poética, Fernando Pessoa, 1976 pág.253

Chuvas de Março, soneto de Luciano Maia

O arco da chuva disparou mil flechas de água sobre a caatinga de um tom gris. E o camponês ouvir ir pelas frestas da janela a canção - tarde feliz! O seu tosco aposento esguia réstia de lua, vinda a noite, também quis saudar e àquela alma tão modesta mas de crença e virtude as mais sutis. O arco da chuva, nos seguintes dias retesado, outras vezes enviou flechas de água, de verdes e alegrias. E o campônio outra vez o chão lavrou e as suas mãos calosas e vazia o céu daquele março abençoou. Em: Dunas, Livo de sonetos. Luciano Maia. academia Cearence de Letras 1984, pág.180

Fada da Rua Favorita, soneto de Luciano Maia

antes que a noite finde e se conclua o derradeiro gesto do luar ainda se vesta de mistério e lua o seu corpo de enigmas sem par. Seu gesto com aquele compactua e um fascínio de lua, singular cai sobre as pedras toscas desta rua a favorita rua do meu bar. Quem lhe dará o bem que ela lhe quer? Quem das perdas de noite se ressarce nas dádivas de amor dessa mulher? Se o seu gesto é sem medo e sem disfarce e se a paixão do mundo ela souber quem saberá por ela apaixonar-se? Em: Dunas, livro de sonetos, Luciano Maia, Academia Cearense de Letras 1984, pág.81

Soneto de Maio, Vinicius de Moraes

Suavemente Maio se insinua Por entre os véus de Abril, o mês cruel E lava o ar de anil, alegra a rua Alumbra os astros e aproxima o céu. Até a lua, a casta e branca lua Esquecido o pudor, baixa o dossel E em seu leito de plumas fica nua A destilar seu luminoso mel. Raia a aurora tão tímida e tão frágil Que através do seu corpo transparente Dir-se-ia poder-se ver o rosto Carregado de inveja e de presságio Dos irmãos Junho e Julho, friamente Preparando as catástrofes de Agosto... Ouro Preto, maio de 1967 Imagem: Pixabay

A Carolina, Machado de Assis

Querida! Ao pé do leito derradeiro, em que descansas desta longa vida, aqui venho e virei, pobre querida, trazer-te o coração de companheiro. Pulsa-lhe aquele afeto verdadeiro que, a despeito de toda a humana lida, fez a nossa existência apetecida e num recanto pôs um mundo inteiro... Trago-te flores - restos arrancados da terra que nos viu passar unidos e ora mortos nos deixa e separados; que eu, se tenho, nos olhos mal feridos, pensamentos de vida formulados, são pensamentos idos e vividos. Sobre Carolina Uma mulher por trás de um gênio. Se houvesse uma biografia da esposa de Machado de Assis poderia ser esta. O livro de Carolina. Sua voz, sua origem, sua ambição. Um romance recheado de correspondências originais, e um toque de requinte em sua construção literária. Fica a imagem de Carolina junto ao escritor: corrigindo seus escritos, transcrevendo-os, vendo-os nascer, hoje, títulos notórios. Seriam as obras de Machado seus filhos não tidos?A portuguesa Carolina Augusta de Novaes Ma...

Conto de Fadas, Florbela Espanca

Eu trago-te nas mãos o esquecimento Das horas más que tens vivido, Amor! E para as tuas chagas o unguento Com que sarei a minha própria dor. Os meus gestos são ondas de Sorrento... Trago no nome as letras de uma flor... Foi dos meus olhos garços que um pintor Tirou a luz para pintar o vento... Dou-te o que tenho: o astro que dormita, O manto dos crepúsculos da tarde, O sol que é d'oiro, a onda que palpita. Dou-te comigo o mundo que Deus fez! - Eu sou Aquela de quem tens saudade, A Princesa do conto: “Era uma vez...”

Espinoza, Machado de Assis

Gosto de ver-te, grave e solitário, Sob o fumo de esquálida candeia, Nas mãos a ferramenta de operário, E na cabeça a coruscante ideia. E enquanto o pensamento delineia Uma filosofia, o pão diário A tua mão a labutar granjeia E achas na independência o teu salário. Soem cá fora agitações e lutas, Sibile o bafo aspérrimo do inverno, Tu trabalhas, tu pensas, e executas Sóbrio, tranquilo, desvelado e terno, A lei comum, e morres, e transmutas O suado labor no prêmio eterno. ( Fonte: blog Antonio Cícero ) Caricatura: Ferré.

Soneto de Michelangelo, tradução de Jorge Pontual

Com os belos olhos teus vejo a luz clara que com os meus, cegos, já não posso olhar;   com teus pés posso um peso carregar, o que pra mim, manco, é coisa rara. Com tuas asas pra sempre eu voara; com teu engenho ao céu posso chegar; fazes-me empalidecer ou corar, gelado ao sol, na neve, um Saara. O teu querer é só o querer meu, meu sentimento nasce no teu peito, no teu alento a minha voz busquei. Como lua solitária sou eu, que no céu não se pode ver direito a não ser que reflita o astro-rei

Soneto de Maio, Vinicius de Moraes

Suavemente Maio se insinua Por entre os véus de Abril, o mês cruel E lava o ar de anil, alegra a rua Alumbra os astros e aproxima o céu. Até a lua, a casta e branca lua Esquecido o pudor, baixa o dossel E em seu leito de plumas fica nua A destilar seu luminoso mel. Raia a aurora tão tímida e tão frágil Que através do seu corpo transparente Dir-se-ia poder-se ver o rosto Carregado de inveja e de presságio Dos irmãos Junho e Julho, friamente Preparando as catástrofes de Agosto... Fonte: site Vinicius de Moraes Imagem: doodle do Google para o centenário de V.M em 2013

Mea Culpa, Antero de Quental

Não duvido que o mundo no seu eixo Gire suspenso e volva em harmonia; Que o homem suba e vá da noite ao dia, E o homem vá subindo insecto o seixo. Não chamo a Deus tirano, nem me queixo, Nem chamo ao céu da vida noite fria; Não chamo à existência hora sombria; Acaso, à ordem; nem à lei desleixo. A Natureza é minha mãe ainda… É minha mãe… Ah, se eu à face linda

Soneto de Michelangelo

Com os belos olhos teus vejo a luz clara que com os meus, cegos, já não posso olhar; com teus pés posso um peso carregar, o que pra mim, manco, é coisa rara. Com tuas asas pra sempre eu voara; com teu engenho ao céu posso chegar; fazes-me empalidecer ou corar, gelado ao sol, na neve, um Saara. O teu querer é só o querer meu, meu sentimento nasce no teu peito, no teu alento a minha voz busquei. Como lua solitária sou eu, que no céu não se pode ver direito a não ser que reflita o astro-rei. Tradução de Jorge Pontual  Fonte: Notaterapia Imagem: Hereisagottic

Para Fazer Um Soneto,Carlos Pena Filho

  Hoje, Carlos Pena Filho completaria 84 anos Tome um pouco de azul, se a tarde é clara, e espere pelo instante ocasional. Nesse curto intervalo Deus prepara e lhe oferta a palavra inicial. Aí, adote uma atitude avara: se você preferir a cor local, não use mais que o sol de sua cara e um pedaço de fundo de quintal. Se não, procure a cinza e essa vagueza das lembranças da infância, e não se apresse. Antes, deixe levá-lo a correnteza. Mas ao chegar ao ponto em que se tece dentro da escuridão a vã certeza, ponha tudo de lado e então comece.

Soneto de Abril, Lêdo Ivo

Agora que é abril, e o mar se ausenta, secando-se em si mesmo como um pranto, vejo que o amor que te dedico aumenta seguindo a trilha de meu próprio espanto. Em mim, o teu espírito apresenta todas as sugestões de um doce encanto que em minha fonte não se dessedenta por não ser fonte d'água, mas de canto. Agora que é abril, e vão morrer as formosas canções dos outros meses, assim te quero, mesmo que te escondas: amar-te uma só vez todas as vezes em que sou carne e gesto, e fenecer como uma voz chamada pelas ondas.

Soneto, Florbela Espanca

Leia sobre a autora, clicando aqui Para aqueles fantasmas que passaram, Vagabundos a quem julguei amar, Nunca os meus braços lânguidos traçaram O voo dum gesto para os alcançar ... Se as minhas mãos as garras se cravaram Sobre um amor em sangue a palpitar... - Quantas panteras bárbaras mataram Só pelo raro gosto de matar! Minha alma é como a pedra funerária Erguida na montanha solitária Interrogando a vibração dos céus! O amor dum homem? - Terra tão pisada, Gota de chuva ao vento baloiçada... Um homem? - quando eu sonho o amor dum Deus! ...

Soneto,Rubem Braga

E quando nós saímos era a Lua, Era o vento caído e o amor sereno Azul e cinza-azul anoitecendo A tarde ruiva das amendoeiras. E respiramos, livres das ardências Do sol, que nos levara à sombra cauta Tangidos pelo canto das cigarras Dentro e fora de nós exasperadas. Andamos em silêncio pela praia. Nos corpos leves e lavados ia O sentimento do prazer cumprido. Se mágoa me ficou na despedida Não fez mal que ficasse, nem doesse - Era bem doce, perto das antigas. (Rubem Braga – 1947) Nota: No dia 30 de junho de 2010 foi inaugurada a terceira saída da estação General Osório do Metrô em Ipanema, na Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. O novo acesso, que conta com duas torres com dois elevadores ligando a Rua Barão da Torre ao Morro do Cantagalo, recebeu o nome de Complexo Rubem Braga, em homenagem ao escritor que por anos morou na cobertura do prédio vizinho à estação.