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Mostrando postagens com o rótulo Presépio

Presepe, Manoel Bandeira

Chorava o menino. Para a mãe, coitada, Jesus pequenito, De qualquer maneira (Mães o sabem…), era Das entranhas dela O fruto bendito. José, seu marido, Ah esse aceitava, Carpinteiro simples, O que Deus mandava. Conhecia o filho A que vinha neste Mundo tão bonito, Tão mal habitado? Não que ele temesse O humano flagício: O fel e o vinagre, Escárnios, açoites, O lenho nos ombros, A lança na ilharga, A morte na cruz. Mais do que tudo isso O amedrontaria A dor de ser homem, O horror de ser homem, — Esse bicho estranho Que desarrazoa Muito presumido De sua razão; — Esse bicho estranho Que se agita em vão; Que tudo deseja, Sabendo que tudo É o mesmo que nada; — Esse bicho estranho Que tortura os que ama; Que até mata, estúpido, Ao seu semelhante No ilusivo intento De fazer o bem! Os anjos cantavam Que o menino viera Para redimir O homem — essa absurda Imagem de Deus! Mas o jumentinho, Tão manso e calado Naquele inefável, Divino momento, Esse bem sabia Que inútil seria Todo o sofrimento No Siné...

O Burro do Presépio, José Jorge Letria

Sou versado em pouca coisa mas burro é que eu não sou; entre os bichos do presépio eu sei sempre onde estou. Se era preciso calor e uma eterna companhia, ali estava eu presente enquanto o menino nascia. Como não sou adivinho, nem sequer mestre em magia, quem esse menino era eu ao certo não sabia Filho de gente modesta, tinha um brilho no olhar que era só comparável ao das noites de luar. Velando pelo seu sono, sem o deixar despertar, eu ficava de atalaia evitando até zurrar. Sem que saiba bem o quê, qualquer coisa me fez pensar que essa noite em Belém o mundo iria mudar. Mal sabia nessa altura, num lugar de escassa luz, que essa criança, afinal, era o Menino Jesus. Em: O Livro do Natal

Conto de Natal, Quim Monzó

     No princípio tudo continuava normal, se por normal se entende que um ser fabuloso, de cabelos encaracolados louros até os ombros e asas de pena de ganso, como as que às vezes escapolem pelas costuras dos edredons, descesse até a casa de Maria e, lá, no átrio de colunas românicas -isso sim é que era estranho: colunas românicas em Nazaré- lhe anunciasse a boa-nova.      Mas, de fato, tudo continuava exatamente desse jeito: o ser fabuloso, de cabelos encaracolados louros até os ombros e asas de pena de ganso, com olhos amendoados entre o azul, o verde e o rosa, e de uma beleza, mais que inenarrável, assexuada, desceu até a casa de Maria -uma casa humilde, mas limpa e bem cuidada, com vasos de gerânio ao longo do átrio de colunas, românicas tal como dissemos- para anunciar-lhe a boa-nova: que era cheia de graça e bendita entre todas as mulheres. Maria ficou boquiaberta.        O arcanjo, vendo a perturbação da mulher, entendeu ...

Símbolos do Natal

                     Tão acostumados estamos com as mensagens natalinas, as árvores, o Papai Noel, presépio etc que nem notamos  que pouco ou nada sabemos a respeito dos símbolos do natal.   Hoje o blogueira deixa o tema da Literatura e posta a respeito das lendas e adereços que estão presentes nos nossos finais de ano.  Pinheiro:      De origem germânica, sua tradição é atribuída a São Bonifácio - séc. VII.        O pinheiro ( a árvore da vida na liturgia cristã) foi instituído pelo missionário em substituição ao sacrifício cristão ao carvalho sagrado do deus Odim. Representa a promessa do renascimento das outras árvores e de toda a vegetação.        O costume de enfeitar árvores de Natal espalhou-se pela Europa e em seguida pelas Américas. Presépio:      Origem ligada a São Francisco de Assis, no séc.XIII.  ...

Os Animais do Presépio, Carlos Drummond de Andrade

Salve, reino animal: todo o peso celeste suportas no teu ermo. Toda a carga terrestre Carregas como se fosse feita de vento. Teus cascos lacerados na lixa do caminho e tuas cartilagens e teu rude focinho e tua cauda zonza, teu pêlo matizado, tua escama furtiva as cores com que iludes teu negrume geral, teu vôo limitado, teu rastro melancólico, tua pobre verônica em mim, que nem pastor soube ser, ou serei, se incorporam num sopro. Para tocar o extremo de minha natureza, limito-me: sou burro. Para trazer ao feno o senso da escultura, concentro-me: sou boi. A vária condição por onde se atropela essa ânsia de explicar-me agora se apascenta à sombra do galpão neste sinal: sou anjo. Antologia Poética , Lisboa, Publicações Dom Quixote, 2001