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Mostrando postagens com o rótulo praia

Motivos, poema de Letícia Letrux

foi sem querer: o pulo que colocou água dentro do teu ouvidoo quiabo no pote que ficou escondido num canto da geladeira por quase três meses a conta de gás caída atrás do móvel da sala minha língua que deu nos dentes na mesa do bar sobre seu defeito mais secreto foi sem querer: (eu chorando no carro no dia do meu aniversário procurando uma vaga há quase uma hora janeiro inferno caos eu só queria dar um mergulho mas não tinha vaga não tinha vaga estava envelhecendo e não tinha uma vaga white people problems você chocado com meu descontrole você me criticando por tornar um passeio tão maravilhoso num caos eu chorando passando marcha e nada de vaga resolvo desistir leblon ipanema copacabana arrisco ir pra urca invento uma vaga já esperando a multa não estamos nos falando parece que você esqueceu que é meu aniversário e que eu posso parece que eu esqueci que meu aniversário não me possibilita de nada o mar está uma lixeira estou tão obsediada que entro assim mesmo afundo no raso e entre de...

A Praia No Tapete,O Cavalo na Vassoura, O Mundo Inteiro Na Sala de Casa, Gregório Duvivier

     Não é fácil estar confinado com uma criança. Faz dois meses que minha filha pede, todo dia, pra ir à praia.      Na primeira vez, tentei explicar que não dava. “Filha, tá rolando uma pandemia, como é que eu vou explicar, um vírus que…” — daí me lembro que ela tem dois anos de idade.       Tento resumir: “Não dá, é impossível”, e ela então começa a chorar, e lembro que é mais fácil explicar uma pandemia pra uma criança de dois anos do que dizer que “não dá, é impossível”.      No desespero surge uma ideia. “Chegamos. Olha o mar ali.” E aponto o tapete azul. E ela vê o mar se erguer, e abre um sorriso. Basta.      Desde então, quase todos os dias ela me diz: "Vamo pá paia?", e vai buscar o maiô, seu chapéu UV e sua cadeirinha de praia diminuta.       Espalhamos almofadas pelo chão, nossa areia improvisada, e então ela abre a cadeirinha em frente ao tapete azul, que faz as...

O Tridente, Luis Fernando Veríssimo

            Deu o que falar, na praia. Ele um homem maduro (ou"podre", como diria a mulher, quando pediu o divórcio), ela uma menininha. Mas como ele resistiria, se a primeira coisa que a menininha disse para ele foi: - Posso arruinar a sua vida? Não "quer me namorar?", ou "topas?" ou "tem horas aí, tio?", mas: - Posso arruinar a sua vida? Ele teve que pensar muito numa resposta, quase um minuto. No fim só disse: - Arruinar, como? E ela: - A escolha é sua. Paramos por aqui, ou continuamos. Você diz "não" e eu vou embora, ou você diz sim e eu arruíno a sua vida. Ele riu, tentando acertar o tom. Superior, condescendente, tipo "quié isso, garota, eu podia ser o seu pai". Mas saiu forçado. Ela tinha o quê? Dezessete anos. Talvez menos. O biquíni era daqueles amarradinhos do lado. -Arruína, como? - Ruína completa. Escândalo. Você sai de casa. Nós vamos morar juntos. Em um mês ou dois eu provavelmente deixo você. Você vai at...