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Mostrando postagens de janeiro, 2023

A Imaginária, Adalgisa Nery - Primeiro capítulo

    Às vezes, o pensamento me vem, como agora. é como se todos os instantes em que vivi tivessem deixado uma profunda marca sobre as múltiplas facetas do meu ser.       Estou ao largo da madrugada. Chego à janela aberta. O primeiro plano da paisagem é a rua asfaltada, cortada por  trilhos brilhantes e polidos pelo uso. O segundo plano é um pequeno morro salpicado de casebres. Sobre todas essas coisas um imenso e profundo céu, e o silêncio. Se eu pudesse alcançar o cume da mais alta montanha do universo e varrer com o olhar toda a extensão do globo terrestre, veria que a única coisa que existe é a solidão.      As portas do meu ser, lentamente, se abrem e despejam na imobilidade da noite todas as imagens que participaram dos meus erros e dos meus acertos ocasionais. Elas se levantam impiedosas, confabulam, discutem a minha pessoa humana, apalpam as minhas carnes sofrias, fazem perguntas irrespondíveis e depois largam-me desunida de mim mesma. Num trágico sentido de matéria desprezível,

Uma Amizade Sincera, Clarice Lispector

Não é que fôssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no último ano da escola. Desde esse momento estávamos juntos a qualquer hora. Há tanto tempo precisávamos de uma amigo que nada havia que não confiássemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que não podíamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa, sentíamo-nos tão contentes como se nos tivéssemos presenteado a nós mesmos. Esse estado de comunicação contínua chegou a tal exaltação que, no dia em que nada tínhamos a nos confiar, procurávamos com alguma aflição um assunto. Só que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um não caberia a veemência de uma sinceridade pela primeira vez experimentada. Já nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturbação entre nós. Às vezes um telefonava, encontrávamo-nos, e nada tínhamos a nos dizer. Éramos muito jovens e não sabíamos ficar calados. De início, quando começou a faltar assunto, tentamos comentar a

Feijão Orgânico, Ladyce West

Tenho uma amiga dedicada à produção orgânica, com fazenda no interior do estado de São Paulo. Recebi dela um quilo de feijão carioca.  “É para colocar na geladeira. Não precisa deixar de molho de véspera, basta umas duas horas antes de cozinhar. Depois, cozinha em quinze minutos.” “Você não vai acreditar na delícia que é”, interveio, uma amiga em comum que faz ioga conosco. “Mas, olha,” disse a fazendeira, “tem que catar. Porque tudo é feito à mão e vem com pedrinhas, palha, alguns elementos da terra.” Mal sabia que esta demanda iria me causar meia hora de grande prazer, e um dia repleto de memórias. Há muitos anos não cato feijão.   Encontrar ciscos foi encontrar minha avó, depois meu pai e a infância degustatória. Sentadas, na sala de jantar, o jornal do dia anterior aberto sobre a mesa, uma pilha de feijão no canto cobrindo as manchetes antigas, uma tigela para cada uma, catávamos feijão para o almoço.   Minhas mãos pequeninas, de quatro a cinco anos, selecionavam pedrin

Adalgisa Nery: esquecida pelo machismo estrutural?

Há 35 anos longe das prateleiras, é relançado 'A imaginária', de Adalgisa Nery Livro é misto de ficção e autobiografia sobre a condição feminina e o machismo imperativo. Ângela Faria A intimidade de Adalgisa/Berenice com a morte chega a ser poética. Os capítulos em que a jovem descreve o calvário do marido são pungentes – “aquele corpo de homem atlético e bem conformado, de linhas vigorosas, murchava aos meus olhos como planta cansada”. A quase viúva descreve, serena: “É terrível assistir aos movimentos lentos que a morte faz sobre um corpo (...) O vácuo só tem realidade concreta no segundo que precede à morte”. Despede-se dele sem xiliques: abre o armário e se abraça às roupas do amor de juventude – “os seus ternos, as suas gravatas, as suas camisas deram-me o consentimento para um carinho com intimidade”. Viúva, “tomada do destemor e da coragem de quem nada possui senão a solidão e a amargura”, liberta-se das chantagens da mãe enlouquecida do marido. Sai de casa com os filhos

A Dança do Arco-íris (Conto indígena)

Há muito e muito tempo, vivia sobre uma planície de nuvens uma tribo muito feliz.  Como não havia  solo para plantar, só um emaranhado de fios branquinhos  e fofos como algodão-doce, as pessoas se alimentavam da carne de aves abatidas  com flechas, que faziam amarrando em feixe  uma porção dos fios que formavam o chão.  De vez em quando, o chão dava umas sacudidelas,   a planície inteira corcoveava e diminuía de tamanho,  como se alguém abocanhasse parte dela. Certa vez, tentando alvejar uma ave, um caçador errou a pontaria e a flecha se cravou no chão. Ao arrancá-la, ele viu que se abrira uma fenda, através da qual pôde ver que lá embaixo havia outro mundo. Espantado, o caçador tampou o buraco e foi embora. Não contou sua descoberta a ninguém. Na manhã seguinte, voltou ao local da passagem, trançou uma longa corda com os fios do chão e desceu até o outro mundo. Foi parar no meio de uma aldeia onde uma linda índia lhe deu as boas-vindas, tão surpresa em vê-lo descer do céu quanto ele d

Recomendo a leitura: A Grande Solidão, Kristin Hannah

  K ristin Hannah  está entre minhas autoras favoritas da vida. Os livros dela são sempre com histórias cheias de emoções e que parecem realmente reais. Em   A Grande Solidão   iremos acompanhar a história da família Allbright. O ano é 1974 e Ernt Allbright não é mais o mesmo desde que voltou do Vietnã. Sua esposa Cora e sua filha Leni sentem saudades da pessoa que ele foi um dia. Ernt vive atormentado pelos horrores da guerra e a esposa e a filha vivem como um fantasma em casa para não incomodá-lo e assim gerar mais conflitos.  Uma carta muda a vida dessa família.  Um companheiro de guerra, já falecido, deixa terras no Alasca para a família Allbright e essa é a oportunidade que Ernt esperava. Cora e Leni ficam apreensivas com a mudança, mas até mesmo elas acreditam que o novo cenário poderá ajudá-los. Caros leitores, que livro incrível é  A Grande Solidão , por isso que está concorrendo como melhor ficção histórica pelo  Goodreads  e eu torço para que ele ganhe, pois não seria nada ma

Clube Errante: Leitura de Março

 Por sorteio o Clube Errante vai ler no mês de março o livro: A Imaginária de Adalgisa Nery. Fui sombra à procura de equilíbrio encontro no confuso desencontro sem chegar à irrealidade do que sou.  (Adalgisa Nery) Fu Há muitos anos, me deparei com a escrita da  Adalgisa Nery , um grande nome da literatura nacional. Apesar de pouco conhecida, por alguns, a autora lançou em 1959,  A imaginária , livro  best-seller  da época; hoje, relançado pelo  Grupo Editorial Record . Em A Imaginária o enredo gira em torno de Berenice, que perde a mãe na infância e vai para um colégio interno. Mais tarde, porém ainda muito jovem, 15 anos, casa-se, mas a paixão e arroubos da juventude perdem espaço para o cotidiano violento de um relacionamento abusivo. Ela passa a viver com a família do marido, entre eles, a sogra beata histérica. Logo o marido morre tuberculoso, mas seus problemas continuam, afinal, a sogra com atitudes mesquinhas e doentes está disposta a transformar a vida de Berenice num infern

Clube Errante: O Que Vamos Ler?

O Clube Errante fará 3 leituras conjuntas em 2023. No momento estamos colhendo sugestões para posterior sorteio.    Logo mais às 20 horas o sorteio das leituras para Março, Julho e Novembro Angústia , Graciliano Ramos Ed. Record  - Páginas:368 Lançado originalmente em 1936 e apresentado aqui em novo projeto gráfico,  Angústia  tem como protagonista Luís Silva, funcionário público de Maceió que leva uma vida medíocre e sem grandes emoções até o dia em que se apaixona por Marina. De início, a jovem demonstra certo interesse no relacionamento e no conforto material que o casamento poderia lhe proporcionar, mas logo acaba trocando o noivo por Julião Tavares, mais rico e poderoso. Tomado por ciúmes e rancor, Silva fica perturbado com os acontecimentos que se desenrolam e passa a acompanhar a vida de Marina enquanto sonha em matar Julião. Escrito em primeira pessoa, o romance tem estrutura temporal não linear, seguindo o fluxo de consciência do narrador-personagem e aproximando o leitor do

Recomendo a leitura: Torto Arado, Itamar Vieira Júnior

      Se soubesse que tudo o que se passa em meus pensamentos, essa procissão de lembranças enquanto meu cabelo vai se tornando branco, serviria de coisa valiosa para quem quer que fosse, teria me empenhado em escrever da melhor forma que pudesse.  Teria comprado cadernos com o dinheiro das coisas que vendia na feira, e os teria enchido das palavras que não me saem da cabeça. Teria deixado a curiosidade que tive ao ver a faca com cabo com marfim se transformar na curiosidade pelo que poderia  me tornar, porque da minha boca poderiam sair muitas histórias que serviriam de motivação para nosso povo, para nossas crianças, para que mudassem suas vidas de servidão aos donos da terra, aos donos das casas na cidade.      Quando Bibiana já morava novamente entre nós, passei a ler tudo o que visse em suas mãos ou nas de Severo. Passei a sentir fome de leitura, levava livro até para a sombra do descanso na roça. Essas histórias que encontrava nos livros e ouvia da boca do povo vão se desenrolan