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Mostrando postagens com o rótulo Thiago de Mello

Os Amantes de Maio, crônica de Thiago de Mello

Maio acabou. E com ele se foi aquele encantamento que tombava do céu e subia do chão, tornando as mulheres extraordinariamente belas no instante do pôr do sol e fazendo com que o nosso amor florescesse mais radioso e mais puro. Nesta cidade como olhares, todas as criaturas , durante trinta e um dias, foram roçadas ou feridas por maio,mesmo aquelas que jamais se comoveram ou se perturbam ante a beleza de suas tardes e de suas madrugadas.     Maio saiu do céu. Sei  que às vezes ele ressuscita, louco, em pleno outubro e há certos fins-de-tarde em dezembro que acordam em nós saudades do mês que ontem findou. Mas é sempre muito incerto e não se sabe nunca se de fato é maio que renasce ou se é um resto de encanto que ficou guardado no coração dos amantes, para ser gasto em meses futuros, quando os dias forem cinzentos e os caminhos da noite estiverem cerrados.     Agora que não tem maio, pergunto, o que será de nosso amor, única coisa que...

A Estranha Quiromante, crônica de Thiago de Mello

     Sou um homem incrédulo às profecias que não sejam as anunciadas pela boca das nuvens. Apesar disso, na tarde de domingo, entreguei afinal minha mão à quiromante, de quem a amiga querida me falava aconselhando-me a visitá-la, pois se tratava de "uma pessoa diferente".      Ela pegou minha mão, ficou olhando, e de repente disse que eu era um caso perdido: haveria de viver sempre seguindo as falas do meu coração, que isso nos tempos modernos dava em sofrimento, mas eu nascera assim, assim morreria - não adiantava querer desentortar a vida. Fez uma pausa, fitou-me nos olhos com um jeito que me calou fundo, de tanta e doce ternura, e logo prosseguiu a falar de mim e de meus fados, com o rosto de novo inclinado sobre a minha mão direita.      Confirmou a história dos sofrimentos: ainda me estavam reervados alguns, além dos muitos já curtidos, mas que não tardaria muito, não senhor, soprariam ventos meljores, melhorando sempre até a velhice, q...

Cantiga Pequenina, poema de Thiago de Mello

A noite é linda, Isabella, quando serve de acalanto ao dia que vai nascer. É feia a noite, Isabella, quando a sombra esgarça a festa do verão no amanhecer. Estou no centro da noite: comigo, na minha mão, a canção da tua vida me ensinando a caminhar na mais clara direção do homem: saber amar. Em: Poesia Comprometida com a minha e a tua vida.  Ed. Civilização Brasileira, 1992, pág.75

Os Estatutos do Homem, Thiago de Mello

  OS ESTATUTOS DO HOMEM (Ato Institucional Permanente )                              A Carlos Heitor Cony Artigo I Fica decretado que agora vale a verdade. agora vale a vida, e de mãos dadas, marcharemos todos pela vida verdadeira. Artigo II Fica decretado que todos os dias da semana, inclusive as terças-feiras mais cinzentas, têm direito a converter-se em manhãs de domingo. Artigo III Fica decretado que, a partir deste instante, haverá girassóis em todas as janelas, que os girassóis terão direito a abrir-se dentro da sombra; e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, abertas para o verde onde cresce a esperança. Artigo IV Fica decretado que o homem não precisará nunca mais duvidar do homem. Que o homem confiará no homem como a palmeira confia no vento, como o vento confia no ar, como o ar confia no campo azul do céu. Parágrafo único: O homem, confiará no homem como um menino confia em outro menino. ...

Nascido em 3 de abril: Thiago de Mello

A Vida Verdadeira Pois aqui está a minha vida. Pronta para ser usada. Vida que não guarda nem se esquiva, assustada. Vida sempre a serviço da vida. Para servir ao que vale a pena e o preço do amor Ainda que o gesto me doa, não encolho a mão: avanço levando um ramo de sol. Mesmo enrolada de pó, dentro da noite mais fria, a vida que vai comigo é fogo: está sempre acesa. Vem da terra dos barrancos o jeito doce e violento da minha vida: esse gosto da água negra transparente. A vida vai no meu peito, mas é quem vai me levando: tição ardente velando, girassol na escuridão. Carrego um grito que cresce Cada vez mais na garganta, cravando seu travo triste na verdade do meu canto. Canto molhado e barrento de menino do Amazonas que viu a vida crescer nos centro da terra firme. Que sabe a vinda da chuva pelo estremecer dos verdes e sabe ler os recados que chegam na asa do vento. Mas sabe também o tempo da febre e o gosto da fome. Nas águas da minha infância perdi o medo entre ...

Canção Para Os Fonemas da Alegria, Thiago de Mello

Imagem Pixabay Peço licença para algumas coisas, Primeiramente para desfraldar este canto de amor publicamente. Sucede que só sei dizer amor quando reparto o ramo azul de estrelas que em meu peito floresce de menino. Peço licença para soletrar, no alfabeto do sol pernambucano, a palavra ti-jo-lo, por exemplo, e poder ver que dentro dela vivem paredes, aconchegos e janelas, e descobrir que todos os fonemas são mágicos sinais que vão se abrindo constelação de girassóis gerando em círculos de amor que de repente estalam como flor no chão da casa. As vezes nem há casa: é só chão. Mas sobre o chão quem reina agora é um homem diferente, que acaba de nascer: porque unindo pedaços de palavras aos poucos vai unindo argila e orvalho, tristeza e pão, cambão e beija-flor, e acaba por unir a própria vida no seu peito partida e repartida quando afinal descobre num clarão que o mundo é seu também, que o seu trabalho não é a pen...

Cantiga de Caboclo, Thiago de Mello

O canto de despedida vai disfarçado de flor. É feito para os caboclos do barranco sofredor. Pra eles que não  vão ler nunca estas palavras de amor. Amor dá tudo o que tem: dou esta rosa verdadeira, levando a clara certeza da vida nova que vem. Canto para os curumins nascidos iguais a mim, vida escura, e tanto verde! canoa, vento e capim. Canto para o ribeirinho que um  dia vai ser dono do verde daquele chão. Tempo de amor vai chegar tua vida vai mudar. ( Poesia comprometida com a minha e a tua vida ed. Civilização Brasileira )