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Mostrando postagens com o rótulo Fernando Pessoa

Chove? Nenhuma Chuva Cai..., poema de Fernando Pessoa

Chove? Nenhuma chuva cai… Então onde é que eu sinto um dia Em que o ruído da chuva atrai A minha inútil agonia? Onde é que chove, que eu o ouço? Onde é que é triste, ó claro céu? Eu quero sorrir-te, e não posso, Ó céu azul, chamar-te meu… E o escuro ruído da chuva É constante em meu pensamento. Meu ser é a invisível curva Traçada pelo som do vento… E eis que ante o sol e o azul do dia, Como se a hora me estorvasse, Eu sofro… E a luz e a sua alegria Cai aos meus pés como um disfarce. Ah, na minha alma sempre chove. Há sempre escuro dentro de mim. Se escuto, alguém dentro de mim ouve A chuva, como a voz de um fim… Quando é que eu serei da tua cor, Do teu plácido e azul encanto, Ó claro dia exterior, Ó céu mais útil que o meu pranto? Fonte: Como Fazer Um Poema  

Isto, poema de Fernando Pessoa

Dizem que finjo ou minto Tudo o que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é Sentir? Sinta quem lê Em: O Eu Profundo E Os Outros Eus (seleção poética) Fernando Pessoa, pág.104

Soneto Já Antigo, Álvaro de Campos

Olha, Daisy: quando eu morrer tá has de dizer aos meus amigos aí em Londres, embora não o sintas, que tu escondes a grade dor da minha morte. Irás de Londres p'ra Iorque, onde nasceste (dizes... que eu nada que tu digas acredito), contar àquele pobre rapazito que me deu tantas horas tão felizes, Embora não o saibas, que morro... mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar, nada se importará... Depois vai dar a notícia a essa estranha Cecily que acreditava que eu seria grande... Raios partam a vida e quem lá ande! Em: O Eu Profundo e Os Outros Eus, seleção poética, Fernando Pessoa, 1976 pág.253

Trapo, poema de Fernando Pessoa

O dia deu em chuvoso A manhã, contudo, esteve bastante azul. O dia deu em chuvoso Desde manhã eu estava um pouco triste. Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma? Não sei: já ao acordar estava triste. O dia deu em chuvoso. Bem sei: a penumbra de chuva é elegante. Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante. Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? Dêem-me o céu azul e o sol visível, Névoa, chuvas, escuros - isso tenho eu em mim. Hoje quero só sossego. Até amaria o lar, desde que o não tivesse. Chego a ter sono de vontade de ter sossego. Não exageremos! Tenho efetivamente sono, sem explicação. O dia deu em chuvoso. Carinhos? Afetos? São memórias... É preciso ser-se criança para os ter... Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro! O dia deu em chuvoso. Boca bonita da filha do caseiro, Polpa de fruta de um coração por comer... Quando foi isso? Não sei... No azul da manhã... O dia deu em chuvo...

Poema em Linha Recta, Álvaro de Campos

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado, Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Toda a gente que eu conheço e que fala c...

Análise, poema de Fernando Pessoa

Tão abstrata é a ideia do teu ser Que me vem de te olhar, que, ao entreter Os meus olhos nos teus, perco-os de vista, E nada fica em meu olhar e dista Teu corpo do meu ver tão longamente, E a ideia do teu ser fica tão rente Ao meu pensar olhar-te, a ao saber-me Sabendo que tu és,que, só por ter-me Consciente de ti, nem a mim sinto. E assim, nesre ignorar-me a ver-te, minto A ilusão da sensação, e sonho Não te vendo, nem vendo, nem sabendo Que te vejo, ou sequer que sou risonho Do interior crepúsculo tristonho Em que sinto que sonho o que me sinto sendo. F.P - dezembro de 1911 Imagem: Baile, Picasso

Quando Está Frio no Tempo de Frio, poema de Fernando Pessoa

Quando está frio no tempo do frio, para mim é como se estivesse agradável, Porque para o meu ser adequado à existência das cousas O natural é o agradável só por ser natural. Aceito as dificuldades da vida porque são o destino, Como aceito o frio excessivo no alto do Inverno — Calmamente, sem me queixar, como quem meramente aceita, E encontra uma alegria no fato de aceitar — No fato sublimemente científico e difícil de aceitar o natural inevitável. No Brasil o inverno começa oficialmente no dia 21 de junho. É quando temos a noite mais longa do ano.

Prece, Fernando Pessoa

Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está - (o teu templo) - eis o teu corpo. Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome. Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faz com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai. Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar. Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te...

Há Um Cansaço da Inteligência Abstrata, Bernardo Soares

     Há um cansaço da inteligência abstracta e é o mais horroroso dos cansaços. Não pesa como o cansaço do corpo nem inquieta como o cansaço pela emoção. É um peso da consciência o mundo, um não poder respirar com a alma..      Então, como se o vento nelas desse, e fossem nuvens, todas as ideias em que temos sentido a vida, todas as ambições e desígnios em que temos fundado a esperança na continuação dela, se rasgam, se abrem, se afastam tornadas cinzas de nevoeiros, farrapos do que não foi nem poderia ser. E por detrás da derrota surge pura a solidão negra e implacável do céu deserto e estrelado.      O mistério da vida dói-nos e apavora-nos de muitos modos. Umas vezes vem sobre nós como um fantasma sem forma, e a alma treme com o pior dos medos — a da incarnação disforme do Não-ser. Outras vezes está atrás de nós, visível só quando nos não voltamos para ver, e é a verdade toda no seu horror profundíssimo de a desconhecermos.     ...

Canção de Outono, Fernando Pessoa

No entardecer da terra, O sopro do longo outono Amareleceu o chão. Um vago vento erra, Como um sonho mau num sono, Na lívida solidão. Soergue as folhas, e pousa As folhas volve e revolve Esvai-se ainda outra vez. Mas a folha não repousa E o vento lívido volve E expira na lividez. Eu já não sou quem era; O que eu sonhei, morri-o; E mesmo o que hoje sou Amanhã direi: quem dera Volver a sê-lo! mais frio. O vento vago voltou. Imagem: Outono, Tânia Drouet

Dois Poemas de Natal: Vinicius de Moraes e Fernando Pessoa

Poema de Natal Para isso fomos feitos Para lembrar e ser lembrados Para chorar e fazer chorar Para enterrar os nossos mortos Por isso temos braços longos para os adeuses Mãos para colher o que foi dado Dedos para cavar a terra Assim será a nossa vida Uma tarde sempre a esquecer Uma estrela a se apagar na treva Um caminho entre dois túmulos Por isso precisamos velar Falar baixo, pisar leve Ver a noite dormir em silêncio Não há muito o que dizer Uma canção sobre um berço Um verso, talvez, de amor Uma prece por quem se vai Mas que essa hora não esqueça E por ela os nossos corações se deixem Graves e simples Pois para isso fomos feitos Para a esperança no milagre Para a participação da poesia Para ver a face da morte De repente nunca mais esperaremos Hoje a noite é jovem Da morte, apenas nascemos Imensamente.  (Música de Toquinho) Natal Natal… Na província neva. Nos lares aconchegados, Um sentimento conserva Os sentimentos passados. Coração oposto ao mundo, Como a família é verdade! Me...

Eros e Psiquê, Fernando Pessoa

  ... E assim vedes, meu Irmão, que as verdades que vos foram dadas no Grau de Neófito, e aquelas que vos foram dadas no Grau de Adepto Menor, são, ainda que opostas, a mesma verdade. (Do ritual do grau de Mestre do Átrio na Ordem Templária de Portugal) Conta a lenda que dormia Uma Princesa encantada A quem só despertaria Um Infante, que viria De além do muro da estrada Ele tinha que, tentado, Vencer o mal e o bem, Antes que, já libertado, Deixasse o caminho errado Por o que à Princesa vem. A Princesa Adormecida, Se espera, dormindo espera. Sonha em morte a sua vida, E orna-lhe a fronte esquecida, Verde, uma grinalda de hera. Longe o Infante, esforçado, Sem saber que intuito tem, Rompe o caminho fadado. Ele dela é ignorado. Ela para ele é ninguém. Mas cada um cumpre o Destino — Ela dormindo encantada, Ele buscando-a sem tino Pelo processo divino Que faz existir a estrada. E, se bem que seja obscuro Tudo pela estrada fora, E falso, ele vem seguro, E, vencendo estrada e muro, Chega o...

Tenho Tanto Sentimento,Fernando Pessoa

Tenho tanto sentimento Que é frequente persuadir-me De que sou sentimental, Mas reconheço, ao medir-me Que tudo isso é pensamento, Que não senti afinal. Temos, todos que vivemos, Uma vida que é vivida E outra vida que é pensada E a única vida que temos É essa que é dividida Entre a verdadeira e a errada. Qual porém é a verdadeira E qual errada, ninguém Nos saberá explicar; E vivemos de maneira Que a vida que a gente tem E a que tem que pensar.

Chove. Há Silêncio, Fernando Pessoa

Chove. Há silêncio, porque a mesma chuva Não faz ruído senão com sossego. Chove. O céu dorme. Quando a alma é viúva Do que não sabe, o sentimento é cego. Chove. Meu ser (quem sou) renego... Tão calma é a chuva que se solta no ar (Nem parece de nuvens) que parece Que não é chuva, mas um sussurrar Que de si mesmo, ao sussurrar, se esquece. Chove. Nada apetece... Não paira vento, não há céu que eu sinta. Chove longínqua e indistintamente, Como uma coisa certa que nos minta, Como um grande desejo que nos mente. Chove. Nada em mim sente... Em: Cancioneiro Imagem

Oração, Fernando Pessoa - tradução de Jorge Pontual

Nossa Senhora das lágrimas vãs, Dai ao meu coração o vosso ninho. Adoeço em infindáveis manhãs E me embebedo com o amargo vinho De só conhecer  angústias mal sãs, De não saber senão viver sozinho. Reconheço que imploro a vós em vão, Mas meu coração só conhece a dor. Um vosso olhar seria a salvação, Mesmo que seja um olhar de horror. Concedei-me que eu volte a ser irmão Do vosso menino, Nosso Senhor. Meu sentido de mim é todo pranto, De mim mesmo só tenho muita pena. Oh colo dos meus medos acalanto Agarro-me a vós, criança pequena. Quisera vos ver viva por encanto A minha mão na vossa mão serena. Há muito tempo perdi o sabor Da fé, e tenho ânsia de oração Meu coração é um jardim sem flor, Nos meus brancos cabelos, vossa mão De mãe deixai repousar com amor E deixai-me morrer por compaixão. P rayer Our lady of Useless Tears, Thine is my heart's best shrine. I am sick with the gorging years, I am drunk with the bitt...

Na Poesia, Carlos Drummond de Andrade.

     O Rapazinho disse à garota:      - Você precisa ter mais cultura, ouviu? Cultura. fica aí com essas milongas de Caetano, Gil e não sei que mais, e ignora os verdadeiros mestres da poesia. Já ouviu falar em Camões?      - Já. Um chato      - Rilke?      - Como é o nome dêle?      - Emily Dickinson?       - Sei lá.      - Fernando Pessoa?      - Esse é irmão da Tânia, ora.      -Viu como você é burrinha? Irmão da Tânia coisa nenhuma. Quem é a Tânia para merecer um irmão desse gabarito? Fernando Pessoa, meu anjo, é simplesmente o maior...      -Então são dois. Porque Nandinho eu conheço bem, não é de poesia.      - Podem ser mil com esse nome, nenhum chega aos pés do Fernando Pessoa de que eu estou falando.Qual, você ...

Revelação, Luciana Grassano Melo

             S e me escutas, quero que saibas que sinto saudades.      Foi um tempo escuro, o que vivemos... Mas cada vez que te encontrava era um pedaço meu que eu achava, escondido debaixo d os entulhos.      Gostava quando te levantavas e me socorrias com lenços de papel.   Um gesto gentil, como o de dividir o mesmo guarda-chuva.      Quando todos queriam falar, falar, falar...Eu gostava dos teus silêncios e do teu sorriso dócil.      Em tua companhia, eu me sentia em casa. Lamento que depois tenha havido um estranhamento entre nós. Mas mesmo nos piores enganos, eu nunca deixei de confiar que tudo ficaria bem.      Não contavas que eu também te observava com meus olhos atentos: treinados e astutos. E que percebia em tuas palavras e em teus silêncios muito mais do que podias dizer: “É que o amor, q...

Sobrinha de Fernando Pessoa abre a Fliporto 2015

Acabei de conhecer o nome de uma escritora portuguesa: Manuela Nogueira. Ela tem quase 90 anos e é sobrinha de Fernando Pessoa.  Em entrevista concedida ao site da Feira Literária, Manuela Nogueira narra, com aquele jeito bem lusitano de falar,como soube da morte do tio predileto: Fliporto: Quando morreu o seu tio, o grande poeta Fernando Pessoa, a Sra. tinha apenas dez anos de idade. Lembra-se da notícia dessa morte e qual o impacto causou em si?   Resposta: Meu tio Fernando morreu quando eu tinha dez anos. Nesse inverno, anormalmente, ficámos na casa do Estoril porque a casa era nova. Minha mãe (irmã de Fernando Pessoa) fazia anos a 27 de Novembro, e ele sempre vinha aos nossos aniversários e não apareceu e mandou um telegrama de parabéns. Tinha havido um ciclone e estávamos sem telefone. Minha mãe que estava imobilizada com uma perna partida ficou muito preocupada. Meu pai foi de comboio a Lisboa e ninguém atendeu quando tocou à porta. Então meu pa...

Aniversariantes de Junho

1 Domingo Zuenir Ventura 2-segunda 3 - terça 4- quarta 5- quinta 6 - sexta 7 -sábado 8 9 10 Dia da Língua Portuguesa Camões 11 12 13- Fernando Pessoa e José  Lins do Rego 14 15 16 Ariano Suassuna 17 18 19 20 21 – Machado de Assis 22 23 24 25 26 27 - Guimarães Rosa 28 29 30 Vencido Está de Amor Vencido está de amor       Meu pensamento O mais que pode ser        Vencida a vida, Sujeita a vos servir e       Instituída, Oferecendo tudo              A vosso intento. Contente deste bem,        Louva o momento Outra vez renovar            Tão bem perdida; A causa que ...