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Trapo, poema de Fernando Pessoa


O dia deu em chuvoso
A manhã, contudo, esteve bastante azul.
O dia deu em chuvoso
Desde manhã eu estava um pouco triste.

Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma?
Não sei: já ao acordar estava triste.
O dia deu em chuvoso.
Bem sei: a penumbra de chuva é elegante.

Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante
Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante.
Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante?
Dêem-me o céu azul e o sol visível,
Névoa, chuvas, escuros - isso tenho eu em mim.

Hoje quero só sossego.
Até amaria o lar, desde que o não tivesse.
Chego a ter sono de vontade de ter sossego.
Não exageremos!
Tenho efetivamente sono, sem explicação.
O dia deu em chuvoso.

Carinhos? Afetos? São memórias...
É preciso ser-se criança para os ter...
Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro!
O dia deu em chuvoso.

Boca bonita da filha do caseiro,
Polpa de fruta de um coração por comer...
Quando foi isso? Não sei...
No azul da manhã...

O dia deu em chuvoso.

Em: O Eu Profundo e os Outros Eus, seleção poética, Fernando Pessoa. Ed. Nova Aguilar 1976, págs.265-266
Imagem do site: Vício de Poesia

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