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Mostrando postagens de 2026

Conversa de Calçada, crônica de Ana Pottes

Cheguei há pouco de um passeio pela Encruzilhada do jeito que fazia há tempos. Sem hora nem pressa de buscar comida nas mercearias, barracas, mercado ou supermercados. Olhei a reforma daquele prédio de esquina com a Av. Norte. De tanto descuido, pedia socorro. No térreo, lojas — duas delas guardam muitas décadas. Os andares superiores foram bonitas residências. Parei. Pensei no tanto de vida que já foi vivida entre aquelas paredes. Agora pintadas, recuperadas, prontas a abrigar outros sonhos. Enquanto olhava e me deixava levar pelo fio das ideias, fui acordada pelo bom dia de um senhor que saía. Falei da minha satisfação em ver o prédio recuperado. Sorrindo, disse que outros proprietários, animados com o resultado, vão iniciar trabalhos de benfeitoria nos seus edifícios. Gostei do que ouvi. Conversamos um pouco sobre o abandono dos prédios e do esvaziamento de um comércio que já foi palpitante: movelarias, a Lobrás, lojas de variedades, uma padaria que fazia bolos e pães saborosos e, ...

Bons Dias, crônica de Machado de Assis

     Eu pertenço a uma família de profetas après coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, e juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha, pessoa de seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.      Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.      No golpe do meio (coup du milieu, mas eu prefiro falar a minha língua), levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que acompanhando as ideias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendi...

História de Amor, crônica de Orígenes Lessa

     João Pereira da Silva, que também poderia chamar-se Aluísio Lisboa ou João Silveira, via na praia de Copacabana - o luar dava nas águas e se prolongava em praia oscilante sobre as ondas - a jovem Luizinha Arruda, que também se poderia chamar Yvete, Daniela ou Maria disso ou daquilo. O nome de fato, não importa. Não foi pelo nome nem pelo sobrenome que eles reciprocamente ignoravam, que o amor chegou. Foi pelo jeitão alto dele, pelo jeito redondinho dela. E pelos olhos, que nela eram negros e nele azuis. O primeiro olhar bastou. Parou o coração dela. Ele parou também. Não o coração, a marcha. Parou, voltou-se, acompanhou. Quando se viu seguida, Luizinha teve uma festa na alma. Quis fugir de contente. Quis morrer de alegria. Não sabia ao certo. E quando José Pereira da Silva falou - o nome ela saberia depois - Luizinha Arruda - o nome ele conheceria mais tarde - ficou plantada no lugar, muda e feliz, tal a grande emoção que sentia. “Permite-me acompanhá-la, senhorita...

Valsinha, Chico Buarque

Um dia ele chegou tão diferente Do seu jeito de sempre chegar Olhou-a de um jeito muito mais quente Do que sempre costumava olhar E não maldisse a vida Tanto quanto era seu jeito de sempre falar E nem deixou-a só num canto Pra seu grande espanto convidou-a pra rodar Então, ela se fez bonita Como há muito tempo não queria ousar Com seu vestido decotado Cheirando a guardado de tanto esperar Depois o dois deram-se os braços Como há muito tempo não se usava dar E cheios de ternura e graça Foram para a praça e começaram a se abraçar E ali dançaram tanta dança Que a vizinhança toda despertou E foi tanta felicidade Que toda cidade se iluminou E foram tantos beijos loucos Tantos gritos roucos como não se ouvia mais Que o mundo compreendeu E o dia amanheceu em paz Fonte: LyricFind Compositores: Francisco Buarque de Hollanda / Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes Álbum: Construção Ano 1971. Ouça aqui Resultados da Web

O Que Estou Lendo? A Casa do Mar Cerúleo, TJ Klune

 Meu neto, Theo, me falou que está lendo A Casa do Mar Cerúleo e que faz relatório da leitura por etapas determinadas pelo colégio onde estuda.  Respondi não conhecer o tílulo nem autor, TJ Klune.  Theo já havia passado da metade do livro de 384 páginas estava gostando mas não me adiantou nada a respeito: "não vou dar spoiler!"  Me bateu curiosidade e eu comprei. É uma aventura adolescente com seres fantásticos num ambiente com humanos.  De forma convidativa o autor americano TJ Klune trata de aceitação do diferente, explorando o medo e a desconfiança que os grupos, humano e sprite, despertam entre si.  Fazendo o que meu neto não faz por nada, dou um pequeno spoiler.  O departamento de Jovens Mágicos, envia seu funcionário, assistente social, Linus, para fazer avaliação detalhada e rigorosa como só ele é, de um orfanato onde estariam seis crianças perigosas... uma delas chama Lucy, o Anticristo.   O Sr. Linus Baker, passa alguns perrengues,...

A Árvore, crônica de Rubem Braga

     Assisti de minha varanda a um crime de morte: a vítima devia ter vinte ou vinte e cinco anos. Era uma bela árvore de copa redonda, no terreno junto à praia, onde havia antes uma casinha verde. A casa já fora derrubada, mas a árvore durou ainda algumas semanas, como se os criminosos, antes de matá-la, resolvessem passar ainda algum tempo gozando a sua sombra imensa.      Assisti à queda; os homens gritaram, ela estremeceu toda e houve primeiro como um gemido do folhame, depois baque imenso, um fragor surdo; no mar uma grande onda arrebentou; e o  mar e a árvore  pareceram estrondar de depois chorar juntos. Houve como um pânico no ar, pássaros voaram janelas se abriram; e a grande ramaria ficou tremendo, tremendo.      Anteontem e ontem os homens passaram o tempo a cortar os galhos, esquartejando a morta para poder retirá-la; o tronco mutilado ainda está lá, com uma dignidade dolorosa de estátua de membros partidos.    ...

Crônica Cantada: Bela Inês, Alceu Valença

Uma musa matriz de tantas músicas Melindrosa mulher e linda, e única Como o lado da Lua que se oculta Escondia o mistério e a sedução Comovida com a revolução De Guevara, Camilo e Sandino Escutou meu Espelho Cristalino Viajou nosso sonho libertário Bela Inês, com seu peito de operário A burguesa que amava o Capitão Acontece que a história não tem pressa E o amor se conquista passo a passo O ciúme é a véspera do fracasso E o fracasso provocar o desamor Bela Inês teve medo do condor Queimou cartas, lembranças do passado E nessa guerra de Deus e do diabo Entre fogo cruzado desertou Bela Inês, com seu peito de operário Não me esconde seu ar conservador Mas eu tenho um espelho cristalino Que uma baiana me mandou de Maceió Ele tem uma luz que me alumia Ao meio dia clareia a luz do Sol Olha que eu tenho um espelho cristalino Que uma baiana me mandou de Maceió Ele tem uma luz que me alumia Ao meio dia clareia a luz do Sol Acontece que a história não tem pressa E o amor se conquista passo a pa...

Chorar Já Não Basta, artigo de Shakira ( Jornal O Globo)

Há uma pergunta que me faço desde o dia em que recebi o convite. Precisei percorrer muito quilômetros e refelti bastante para conseguir respondê-la: por que eu? Por que Copacabana? Por que Rio de Janeiro? Por que agora?      Precisei voltar a um dia em que tudo o que eu havia construido desmoronou. Não foi um processo longo, não houve sinais graduais. Foi uma única manhã em que acordei uma mulher diferente, com uma vida diferente. No dia seguinte, tive de me levantar da mesma forma, preparar o café da manhã, levar as crianças para a escola, atender o telefone, manter a carreira. A vida não dá descanso às mulheres quando elas se veem repentinamente sozinhas, com tudo sobre os ombros.      Precisei me reinventar completamente. Como mãe, provedora, artista, muher. Desse aprendizado, nasceu esta turnê Las Mujeres Ya No Lloran. Não é um grito de vingança nem uma declaração de vitimização. É exatamente o oposto: a serena constatação de que chorar já não basta, há...

Não Sou Eu, crônica de Rubem Braga

Confesso que achei graça na primeira história que me contara: um bêbado usava o meu nome em um bar, tomando grande uiscada à custa de um meu admirador - a quem agradeço a intenção. Depois passei a achar menos graça: o falso Rubem Braga aparecia chorando na estação das barcas, ou gritando dentro de um lotação, ou fazendo comício na Rua Farani. Volta e meia ouço outras proezas desse cavalheiro que perambula pela cidade, dando vexames em meu nome - e agora parece que está agindpo pelo Bar Vinte e Leblon. Ora, eu já posso ser culado legitimamente de tanta oisa que não me agrada acumular os pecados de outrem. Peço às pessoas que não me conhecem pessoalmente que, quando aparecer um Rubem Braga falando alto, citando crônicas e dando alteração, tenham a fineza de chamar a polícia. Não quero que maltratem o rapaz, mas uma noite no xadrez deve lhe fazer bem, e talvez ele perca essa mania insensata de assumir a personalidade desse apagado cronista. Com este pedido estou correndo o risco de ir eu...

A Estranha Quiromante, crônica de Thiago de Mello

     Sou um homem incrédulo às profecias que não sejam as anunciadas pela boca das nuvens. Apesar disso, na tarde de domingo, entreguei afinal minha mão à quiromante, de quem a amiga querida me falava aconselhando-me a visitá-la, pois se tratava de "uma pessoa diferente".      Ela pegou minha mão, ficou olhando, e de repente disse que eu era um caso perdido: haveria de viver sempre seguindo as falas do meu coração, que isso nos tempos modernos dava em sofrimento, mas eu nascera assim, assim morreria - não adiantava querer desentortar a vida. Fez uma pausa, fitou-me nos olhos com um jeito que me calou fundo, de tanta e doce ternura, e logo prosseguiu a falar de mim e de meus fados, com o rosto de novo inclinado sobre a minha mão direita.      Confirmou a história dos sofrimentos: ainda me estavam reervados alguns, além dos muitos já curtidos, mas que não tardaria muito, não senhor, soprariam ventos meljores, melhorando sempre até a velhice, q...

Sentou-se ao Meu Lado, crônica de José Lins do Rego

Sentou-se ao meu lado um homem rico, meu velho conhecido, e para mostrar-me que continua rico foi logo dizendo: - estou com o meu carro em conserto. E esta história de oficina, hoje em dia, é uma miséria. Ninguém quer trabalhar. E tudo custa três vezes mais. O outro companheiro concordou carregando ainda mais na mão. - É isto mesmo, o brasileiro que se diz operário não passa de um malandro. Ganha o que quer, e faz o que quer. - O homem rico e o desconhecido estavam de inteiro acordo. Era malandro pra cá e malandro pra lá. - E que me diz sobre o aumento do funcionalismo? - Perguntou-me o homem rico Quis fingir que não era comigo pergunta, mas não consegui. quis fingir que não era comigo a perginta, mas não consegui. Sou funcionário, e acho mesmo que nossa vida aumentou de custo de maneira assombrosa. - Isso todos nós achamos. Mas então você acha que a medida sumária de aumento dos ordenados resolve o problema? Aí é que está a desgraça do brasileiro. somos um povo de soluções apres...

Soneto Já Antigo, Álvaro de Campos

Olha, Daisy: quando eu morrer tá has de dizer aos meus amigos aí em Londres, embora não o sintas, que tu escondes a grade dor da minha morte. Irás de Londres p'ra Iorque, onde nasceste (dizes... que eu nada que tu digas acredito), contar àquele pobre rapazito que me deu tantas horas tão felizes, Embora não o saibas, que morro... mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar, nada se importará... Depois vai dar a notícia a essa estranha Cecily que acreditava que eu seria grande... Raios partam a vida e quem lá ande! Em: O Eu Profundo e Os Outros Eus, seleção poética, Fernando Pessoa, 1976 pág.253

Manuel Bandeira: 140 anos do poeta pernambucano

Evocação do Recife Recife Não a Veneza americana Não a Mauritssatd dos armadores das Índias Ocidentais Não o Recife dos Mascates Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois — Recife das revoluções libertárias Mas o Recife sem história nem literatura Recife sem mais nada Recife da minha infância A Rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e partia as vidraças da casa de Dona Aninha Viegas Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincené na ponta do nariz Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadeiras, mexericos, namoros, risadas A gente brincava no meio da rua Os meninos gritavam: Coelho sai! Não sai! A distância as vozes macias das meninas politonavam: Roseira dá-me uma rosa Craveiro dá-me um botão (Dessas rosas muita rosa Terá morrido em botão...) De repente nos longes da noite um sino Uma pessoa grande dizia: Fogo em Santo Antônio! Outra contrariava: São José! Totônio Rodrigues achava sempre que era São José. Os homens punham o chapéu saíam fumando E eu tinh...

O Que Eu Estou Lendo? Só Sei Que Foi Assim, Octávio Santiago

Como é construído um estereótipo? Quando o Nordeste passou a ser retratado como sinônimo de atraso, miséria e ignorância? E por que essa imagem, injusta e imprecisa, persiste no imaginário? Essas são algumas das perguntas que movem  Só sei que foi assim: A trama do preconceito contra o povo do Nordeste  , do jornalista e pesquisador Octávio Santiago.  Resultado da pesquisa de doutorado do autor, realizada na Universidade do Minho, em Portugal, a obra revela como o preconceito contra os nordestinos foi construído historicamente a partir de interesses políticos, econômicos e simbólicos. Nesse manual antirracista, Santiago trilha a trajetória do preconceito contra os nordestinos desde a fundação do Brasil, revê a herança maldita da ditadura militar e analisa obras de nomes como Euclides da Cunha e Clarice Lispector, sem esquecer as telenovelas. Um livro para ajudar a reenquadrar um país.

Menina de Vermelho a Caminho da Lua, conto de Marina Colasanti

     Esta é uma história que não quero contar, uma pequena história sem fatos, espessa como um mênstruo, que não pretendo assumir. Tentei livrar-me dela, afundá-la e ao fastio que me causa. Não consegui. Desnecessária como é, ainda assim insiste em existir. Foi por isso que botei um anúncio no jornal. Dizia: “Procura-se narrador. Exigem-se modéstia e prazer descritivo. Pagamento a combinar. Procurar… endereço… etcétera”.      Só um apresentou-se. Teria preferido, me caberia melhor, fosse mulher. Mas não tive escolha, fiquei com ele. Homem e um pouco inexperiente, me vi obrigada a insistir na minha vontade, concisão de estilo e docilidade nos ramos. E a vesti-lo com nova roupagem. É assim, pois, de saia rosa e lenço nos cabelos, que o apresento: mãe de duas filhas pequenas que pouco irão agir, levando-as para brincar num parquinho de diversões, sábado à tarde, naquela exata tarde, naquele exato momento em que a história quer acontecer, e onde ele se torna, p...

Arrasando na Terceira Idade(70 anos da primeira edição): Grande Sertão, Veredas de Guimarães Rosa

Ler “Grande sertão: veredas”é uma experiência que se renova sempre a cada releitura, como ocorre com os livros que se tornam clássicos à medida que o tempo passa. Para Italo Calvino, um clássico é um livro que nunca termina de dizer o que tem para dizer, o que lhe assegura sobrevivida histórica, acrescentaria Walter Benjamin. É o que comprova a diversificada fortuna crítica do romance, da crítica sociológica à psicanalítica, da análise estrutural à antropológica, que atravessa gerações de pesquisadores e não para de crescer nos últimos 70 anos. Resultado de quinhentos anos de cultura oral reelaborada com o apuro da mais alta cultura letrada, a obra do poliglota Guimarães Rosa é um desafio à inteligência e à sensibilidade do leitor. Vencida a dificuldade inicial diante de uma “língua”outra – neologismos, arranjos sintáticos inesperados, aliterações, metáforas inusitadas –, acabamos por participar do que lemos como coautores e recriadores. E não paramos mais de ler. A leitura se abre, en...

Crônica Cantada: Cotidiano, Chico Buarque de Holanda

Todo dia ela faz tudo sempre igual         Me sacode às seis horas da manhã Me sorri um sorriso pontual E me beija com a boca de hortelã Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar E essas coisas que diz toda mulher Diz que está me esperando pr'o jantar E me beija com a boca de café Todo dia eu só penso em poder parar Meio-dia eu só penso em dizer não Depois penso na vida pra levar E me calo com a boca de feijão Seis da tarde como era de se esperar Ela pega e me espera no portão Diz que está muito louca pra beijar E me beija com a boca de paixão Toda noite ela diz pr'eu não me afastar Meia-noite ela jura eterno amor E me aperta pr'eu quase sufocar E me morde com a boca de pavor Todo dia ela faz tudo sempre igual Me sacode às seis horas da manhã Me sorri um sorriso pontual E me beija com a boca de hortelã Todo dia ela diz que é pr'eu me cuidar E essas coisas que diz toda mulher Diz que está me esperando pr'o jantar E me beija com a boca de café Todo dia eu só penso em...