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Mostrando postagens de 2026

Um de Julho, soneto de Luciano Spagnol

Se sois, inverno, no cerrado se sente De tempos frios com tal bravio vento Que tomais a secura como elemento E neste movimento, és inteiramente Nuvioso,horas breves, chão sedento Da mesma natureza, e tão diferente Dias vão que passa no fugaz poente Rubente o céu num encaixotamento E desta vida em tudo ó mês valente Sê da metade do ano, planejamento Férias breves do docente e discente Como do calendário és afolhamento E teu entardecer não mais reluzente Tudo em vós, julho, traz sentimento

Crônica de Um Dia de Copa, Rafael Kruter Flores

     Era terça-feira, quase feriado. Dia de jogo da Copa em Porto Alegre. Serviço público em ponto facultativo, bancos fechados, empresas em férias coletivas, pequenos comerciantes em dúvida. Pra mim, praticamente feriado: a Universidade fechada, sem aulas. Sem clima de trabalho. Decidi viver um dia de Copa do Mundo, do meu jeito, é claro.      Já sabia que o trânsito estava em colapso. Vi a Osvaldo Aranha parada quando levei os cães para o passeio matinal no parque. Sabia também que os ônibus não seriam confiáveis. Peguei minha bicicleta e rumei para a Praça Argentina. Não que houvesse encontro da torcida hermana por lá, e sim porque era o lugar marcado para o Ato convocado pelo Bloco de Lutas de Porto Alegre. Contra a Copa. Remoções forçadas de milhares de famílias, morte de operários nas obras dos estádios, elitização do futebol e privatização de espaços públicos estavam na pauta. Já imaginava que não seria massivo, haviam poucas confirmações na chamada ...

A Chuva, poema de Arnaldo Antunes

A chuva derrubou as pontes. A chuva transbordou os rios. A chuva molhou os transeuntes. A chuva encharcou as praças. A chuva enferrujou as máquinas. A chuva enfureceu as marés. A chuva e seu cheiro de terra. A chuva com sua cabeleira. A chuva esburacou as pedras. A chuva alagou a favela. A chuva de canivetes. A chuva enxugou a sede. A chuva anoiteceu de tarde. A chuva e seu brilho prateado. A chuva de retas paralelas sobre a terra curva. A chuva destroçou os guarda-chuvas. A chuva durou muitos dias. A chuva apagou o incêndio. A chuva caiu. A chuva derramou-se. A chuva murmurou meu nome. A chuva ligou o para-brisa. A chuva acendeu os faróis. A chuva tocou a sirene. A chuva com a sua crina. A chuva encheu a piscina. A chuva com as gotas grossas. A chuva de pingos pretos. A chuva açoitando as plantas. A chuva senhora da lama. A chuva sem pena. A chuva apenas. A chuva empenou os móveis. A chuva amarelou os livros. A chuva corroeu as cercas. A chuva e seu baque seco. A chuva e seu ruído de ...

Lenda de São João, poema de Wally Salomão

Acorda, João Que eu também quero ser Batizado nas águas do Rio Jordão Êta menino sapeca capeta Dispara espoleta Êta menino ladino porreta danado divino Acorda, São João, e faz o menino levado Saltar de dentro da velha E do velho enferrujado Mas não faz muita zuada João dorme seu sono em paz E se acorda assustado Nem sei do que é capaz Sei não, incendeia o mundo E até o meu coração Sapeca mandureba na fogueira E acabou-se a brincadeira Acorda, João Que eu também quero ser Batizado nas águas do Rio Jordão – Waly Salomão, em “Poesia total”. Editora Companhia das Letras, 2014. Imagem: Noite de São João- Portinari 1957

A Foguêra de São João, Patativa do Assaré

Meu São João, meu São Joãozinho! Quanto amô, quanto carinho, Quanto afiado e padrinho Nesta terra brasilêra Não tem a gente arranjado, No quilaro abençoado, Tão belo e tão respeitado, Da sua foguêra. Meu querido e nobre santo, Que a gente qué e ama tanto, Sua foguêra é o encanto Da gente do meu sertão. Não pode sê carculada A porva que vai queimada Nessas noite festejada Da foguêra de São João. Quantos véio bacamarte Virge, que nunca fez arte, Não tão guardado de parte, Com amô e devoção, Mode o povo sertanejo Com eles fazê trovejo, No mais alegre festejo Da foguêra de São João! Pois quarqué arma ferina, Bacamarte ou lazarina, Já criminosa, assarsina, Como é a do caçadô, Não tem a capacidade De atirá com liberdade Na santa quilaridade Desta foguêra de amô. Meu São João! Meu bom São João! Santo do meu coração, Repare e preste tenção Quanto é lindo o seu festejo. Repare lá do infinito Como isto tudo é bonito, Sempre digo e tenho dito Que o senhor é sertanejo! O homem pode sê ruim E tê ma...

Enquanto Os Mineiros Jogavam, crônica de Carlos Drummond de Andrade

      Domingo, à tarde, na forma do antigo costume, eu ia ver os bichos do Parque Municipal (cansado de lidar com gente nos outros dias da semana), quando avistei grande multidão parada na avenida Afonso Pena. Meu primeiro pensamento foi continuar no bonde; o segundo foi descer e perguntar as causas da aglomeração. Desci, e soube que toda aquela gente estava acompanhando, pelo telefone, o jogo dos mineiros na capital do país. Onze mineiros batiam bola no Rio de Janeiro; dois mil mineiros escutavam, em Belo Horizonte, o eco longínquo dessa bola e experimentavam uma patriótica emoção.       Quando chegou a notícia da vitória dos nossos patrícios, depois de encerrado o expediente, isto é, depois de terminado o segundo tempo, vi, claramente visto, chapéus de palha que subiam para o ar e não voltavam, adjetivos que se chocavam no espaço com explosões inglesas de entusiasmo, botões que se desprendiam dos paletós, lenços que palpitavam como asas, enquanto ga...

Vamos Aprender? Festas Juninas

Origem das festas juninas Antes de se tornar uma festa em comemoração vinculada aos santos do catolicismo, as celebrações no mês de junho já eram realizadas muitos antes da era cristã. O solstício de verão no hemisfério norte ocorre em 21 ou 22 de junho, quando temos o dia mais comprido e a noite mais curta do ano. Os povos antigos, incluindo as civilizações gregas, egípcias e celtas, comemoravam essa passagem do calendário. Regadas com o calor do fogo e muita bebida e comida, eram celebrações à fertilidade e também para rogar aos seus deuses para que eles trouxessem fartura nas próximas colheitas. Com a evangelização da Europa na Idade Média, o ritual pagão foi incorporado ao calendário cristão e ganhou um cunho religioso. Isso ocorreu, basicamente, por dois motivos: para facilitar a catequese dos pagãos e esvaziar ideologicamente suas comemorações. Não é por acaso que as comemorações cristãs possuem relação com as principais passagens de tempo. É o caso da Páscoa (que ocorre no prime...

A Bolsa Amarela, Lygia Bojunga - uma polêmica boba.

 Somente hoje vi a razão da polêmica sobre o livro A Bolsa Amarela de Lygia Bojunga: "O ambiente entre pais e responsáveis de alunos do  Colégio Militar Dom Pedro II , do  Corpo de Bombeiros do Distrito Federal (CBMDF),  ficou tenso após a inclusão do livro  A Bolsa Amarela, da escritora Lygia Bojunga , na lista de leitura de turmas do 4º ano do ensino fundamental. A obra passou a ser alvo de críticas de famílias que consideram inadequada a abordagem de temas relacionados à  identidade de gênero para crianças de aproximadamente 9 anos . A reação ocorreu principalmente em grupos de  WhatsApp  utilizados para comunicação entre pais de alunos. Em mensagens compartilhadas entre os responsáveis, houve críticas à escolha pedagógica e questionamentos sobre a compatibilidade do conteúdo com os valores tradicionalmente associados ao ensino militar. " ( destaques feitos pela reportagem do site Metrópoles ) Fonte: Metrópolopes . O que penso:     ...

O Pecado do Rio, poema de Mia couto

Na igreja, Rosarinho se confessou: engravidei do rio, senhor padre. Com gesto de água arredondou o ventre. O padre se enrugou: ela que não usasse desculpa para os seus mortais pecados. A ofensa tremia na voz dela quando retorquiu: - Desculpe, padre, mas Nossa Senhora não emprenhou de um feixe de luz? Para mais, acrescentou Rosarinho, o senhor padre nem nunca, nem jamis viu esse rio. E rematou com lânguida saudade: aquele ondear, as tonturas que ele traz... Pegou o padre pela mão e o convidou para descer o vale. Agora, todas as noites o padre se banha nas águas do rio pecador. Mia Couto Poemas Escolhidos, cia das Letras 2016 págs. 44-45 em: págs. 44-45

Conjuga-me, poema de Fagner Mera

Na minha oração era você meu sujeito, meu predicado predileto. Onde eu, você e nós éramos além de pronomes. Mal sabia que, talvez o amor fosse apenas um objeto, direto. E eu no singular, pensando no plural, Acabei me tornando um mero sujeito oculto… Faltou concordância e não era nominal. Fui julgado, conjugado de forma errada, Me perdi no tempo, tornei-me passado, mais que imperfeito, faltaram verbos. E no futuro do pretérito havia um indicativo, um problema que talvez, não fosse simples, Composto talvez. E vendo aquele caos difícil de entender, na última lição de casa o verbo amar, decidiu me ensinar a conjugação do esquecer. Em: Leia Um Café e Tome Uma Poesia  

A Bolsa Amarela, conto de Lygia Bojunga

     Meu irmão chegou em casa com um embrulhão. Gritou da porta:      – Pacote da tia Brunilda!      Todo mundo correu, minha irmã falou:      – Olha como vem coisa.      Rebentaram o barbante, rasgaram o papel, tudo se espalhou na mesa. Aí foi aquela confusão:      – O vestido vermelho é meu.      – Ih, que colar bacana! Vai combinar com o meu suéter.      – Vê se veio alguma camisa do tio Júlio pra mim.      – Que sapato alinhado, tá com jeito de ser meu número.      Eu fico boba de ver como a tia Brunilda compra roupa. Compra e enjoa. Enjoa tudo: vestido, bolsa, sapato, blusa. Usa três, quatro vezes e pronto: enjoa.      Outro dia eu perguntei:      – Se ela enjoa tão depressa, pra que ela compra tanto? É pra poder enjoar mais? Ninguém me deu bola.       Não parava de sair coisa do pacot...

A História do Alfinete de Fralda ( que mora no bolso bebê da bolsa amarela) Lygia Bojunga

     Como ninguém conhece o Alfinete de Fralda, muito bem, eu acho melhor contar a história dele antes de continuar contando a minha:    Um dia eu ia passando e vi o Alfinete caído na rua. Peguei, limpei, desenferrujei, experimentei a pontinha dele no meu dedo, vi que ela era afiada toda a vida:      - Puxa!      E ela começou a riscar na minha mão tudo que o Alfinete queria dizer:      - Me guarda? Já não aguento mais viver aqui jogado: passa gente em cima de mim; chove, eu fico todo molhado, pego cada ferrugem medonha; e cada vez que varrem a rua eu esfrio: "pronto! vão achar que eu não sirvo mais pra nada, vão me levar no caminhão do lixo"; me encolho todo pra vassoura não me ver; e depois que ela passa, e depois que o susto passa, eu risco na calçada um anúncio de mim dizendo que eu sirvo sim; mas nunca acontece nada. Me guarda?      - Guardo.      - Então guarda.     ...

Desertificação, conto de Marina Colasanti

 O deserto começou a infiltra-se na casa por baixo da porta, areia tangida por invisível sopro. Abriram, espiaram o elevador, examinaram as escadas. Nada. Nem areia nem vento. Em casa, porta fechada, halitava o siroco. Abrasivo debaixo dos pés, suave concha nos cantos, a areia  acumulava-se. Desapareceram as flores do tapete, secaram as folhagens do sofá. Quando o desero sufocou os pássaros da tapeçaria, nenhum verde rstava na sala. Sem chuva, breve morreria também o oásis do quarto. Formada a primeira duna, o pai trouxe a cabra e o cabrito amarrados de corda. Garantiriam o leite. A mãe, arrancando as cortinas, providenciou panos, folgadas roupas, turbantes que protegiam a cabeça e a boca. Os olhos, na claridade, trabalhavam para descobrir entre frestas algum alimento para as cabras. E à noite acendiam em fogueiras o que restava dos móveis. Mas logo a duna começou a mover-se. Desfaziam-se as ondas do cimo para ondularem mais adiante. Era hora de partir. Desmontaram a tenda, a...

Os Amantes de Maio, crônica de Thiago de Mello

Maio acabou. E com ele se foi aquele encantamento que tombava do céu e subia do chão, tornando as mulheres extraordinariamente belas no instante do pôr do sol e fazendo com que o nosso amor florescesse mais radioso e mais puro. Nesta cidade como olhares, todas as criaturas , durante trinta e um dias, foram roçadas ou feridas por maio,mesmo aquelas que jamais se comoveram ou se perturbam ante a beleza de suas tardes e de suas madrugadas.     Maio saiu do céu. Sei  que às vezes ele ressuscita, louco, em pleno outubro e há certos fins-de-tarde em dezembro que acordam em nós saudades do mês que ontem findou. Mas é sempre muito incerto e não se sabe nunca se de fato é maio que renasce ou se é um resto de encanto que ficou guardado no coração dos amantes, para ser gasto em meses futuros, quando os dias forem cinzentos e os caminhos da noite estiverem cerrados.     Agora que não tem maio, pergunto, o que será de nosso amor, única coisa que...

Chove? Nenhuma Chuva Cai..., poema de Fernando Pessoa

Chove? Nenhuma chuva cai… Então onde é que eu sinto um dia Em que o ruído da chuva atrai A minha inútil agonia? Onde é que chove, que eu o ouço? Onde é que é triste, ó claro céu? Eu quero sorrir-te, e não posso, Ó céu azul, chamar-te meu… E o escuro ruído da chuva É constante em meu pensamento. Meu ser é a invisível curva Traçada pelo som do vento… E eis que ante o sol e o azul do dia, Como se a hora me estorvasse, Eu sofro… E a luz e a sua alegria Cai aos meus pés como um disfarce. Ah, na minha alma sempre chove. Há sempre escuro dentro de mim. Se escuto, alguém dentro de mim ouve A chuva, como a voz de um fim… Quando é que eu serei da tua cor, Do teu plácido e azul encanto, Ó claro dia exterior, Ó céu mais útil que o meu pranto? Fonte: Como Fazer Um Poema  

Isto, poema de Fernando Pessoa

Dizem que finjo ou minto Tudo o que escrevo. Não. Eu simplesmente sinto Com a imaginação. Não uso o coração. Tudo o que sonho ou passo, O que me falha ou finda, É como que um terraço Sobre outra coisa ainda. Essa coisa é que é linda. Por isso escrevo em meio Do que não está ao pé, Livre do meu enleio, Sério do que não é Sentir? Sinta quem lê Em: O Eu Profundo E Os Outros Eus (seleção poética) Fernando Pessoa, pág.104

Deixe O Nordeste Falar, Isabelly Moreira na Livraria Megafauna de São Paulo

Desculpa, Brasil, desculpa                                        Pelo Nordeste que somos com a coragem que pomos Por assumir tua culpa Tu que ficaste aqui e cresceste por ai ecoando liberdade Não esquece a tua história que um filho sem memória não tem da mãe nem saudade. Sabe, Brasil o Nordeste emprestou a mão humana deu sangue, trabalho, vida e se hoje és fama e gana foi porque um nordestino doou o próprio destino para construir o teu. Em cada edifíco erguido há um nordestino esculpido na mão de quem o ergueu. Meu Brasil, sabe o problema que tenho identificado? Que enquanto somos pedreiros, porteiros.. tudo arranjado. Mas se somos pensadores, engenheiros, escritores... Aí o povo acha ruim porque para de mandar de zombar e explorar e disso não querem o fim. Mas tem coisa que me anima que é ver gente do sudeste do sul e do centro-oeste que luta por nossa estima além do Brasil alegórico s...

O Bar dos Sonhos, crônica de Aldir Blanc

Meu amigo fê, filho do grande Isaac (várias vezes detentor do galardão "Mãe do ano"), está no ramo do bares. Fechava as contas do Portão Vermelho com a mulher Lina, quando uma ideia genial o deixou paralisado.      Deu uma golada na boazinha para se refazer e explicou o plano:      - Lina, vamos ficar ricos. vou abrir outro bar.      - Você está maluco?      - Não. Vai se chamar Ao Bar e Não Bebi.      - ???      - Imagine aquele sujeito que sai domingo de manhã para comprar frango de padaria e volta na segunda, só com uma asa estragada. O pau come, com meu novo bar, essas crises conjugais acabarão.      - Fê, devo chamar o médico?      - Centenas de biriteiros voltarão para o lar triscados. A patroa: "Onde você esteve?" O cara: "Fui Ao Bar e Não Bebi." Ora, vai ser chamado de mentiroso, pulha, canalha, alcoólatra, até prova definitiva: "Você jura pela vida de nossos ...

Por Que Ler Grande Sertão, Veredas? Prof. Wander Melo de Miranda

Ler “Grande sertão: veredas”é uma experiência que se renova sempre a cada releitura, como ocorre com os livros que se tornam clássicos à medida que o tempo passa. Para Italo Calvino, um clássico é um livro que nunca termina de dizer o que tem para dizer, o que lhe assegura sobrevivida histórica, acrescentaria Walter Benjamin. É o que comprova a diversificada fortuna crítica do romance, da crítica sociológica à psicanalítica, da análise estrutural à antropológica, que atravessa gerações de pesquisadores e não para de crescer nos últimos 70 anos. Resultado de quinhentos anos de cultura oral reelaborada com o apuro da mais alta cultura letrada, a obra do poliglota Guimarães Rosa é um desafio à inteligência e à sensibilidade do leitor. Vencida a dificuldade inicial diante de uma “língua”outra – neologismos, arranjos sintáticos inesperados, aliterações, metáforas inusitadas –, acabamos por participar do que lemos como coautores e recriadores. E não paramos mais de ler. A leitura se abre, en...