Assisti de minha varanda a um crime de morte: a vítima devia ter vinte ou vinte e cinco anos. Era uma bela árvore de copa redonda, no terreno junto à praia, onde havia antes uma casinha verde. A casa já fora derrubada, mas a árvore durou ainda algumas semanas, como se os criminosos, antes de matá-la, resolvessem passar ainda algum tempo gozando a sua sombra imensa.
Assisti à queda; os homens gritaram, ela estremeceu toda e houve primeiro como um gemido do folhame, depois baque imenso, um fragor surdo; no mar uma grande onda arrebentou; e o mar e a árvore pareceram estrondar de depois chorar juntos. Houve como um pânico no ar, pássaros voaram janelas se abriram; e a grande ramaria ficou tremendo, tremendo.
Anteontem e ontem os homens passaram o tempo a cortar os galhos, esquartejando a morta para poder retirá-la; o tronco mutilado ainda está lá, com uma dignidade dolorosa de estátua de membros partidos.
De minha varanda eu vi tudo, em silêncio. entrei para a sala, senti vontade de tomar um trago forte, roído por uma secreta humilhção, por não haver protestado. Ah, seria preciso ser um grande bêbado, ou um grande louco, ou um grande rei, para protestar.
Seria preciso ser um grande rei para castigar o crime e salvar uma árvore junto ao mar!
Em: Um Século Em Cem Crônicas. Org. Maria Amélia Mello. Pag. 141

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