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Mostrando postagens com o rótulo A última crônica

Crônica cantada:Você Passa, Eu Acho Graça - Cássia Eller e Noite Ilustrada

Para Inglês Ver, Fernando Sabino

    Tenho de ir a bordo de um navio inglês despedir-me de um amigo. Pois nada mais fácil: basta passar na Polícia Marítima e tirar a respectiva licença.     A Polícia Marítima é ali na estação rodoviária: pego o elevador e subo até lá. Encontro uma funcionária tranquila e muito boazinha à minha espera. Está ali para isso, inteiramente às minhas ordens. É paga para servir-me.     -Desejo ir a bordo de um navio - explico.     - O senhor tem carteira de identidade?     Tenho: já fui fichado e sujei os dedos de tinta, como um criminoso qualquer - em Minas Gerais, já se vão alguns séculos. O retratinho positivamente é de outra pessoa: um jovem magro, de olhos assustados para a objetiva e para a vida.     A moça pega a minha carteira, olha, deixa em cima da mesa e então vai no fundo da sala consultar um sujeito, provavelmente chefe dela. Ao fim de meia hora de consulta começo a perder a paciência e vou a...

A vingança, Fernando Sabino

     O irmão mais novo foi assassinado, numa rixa de botequim lá na cidade. A notícia lhe chegou logo, trazida à fazenda por um de seus vaqueiros. O assassino havia fugido, tomando rumo ignorado.      - Se o senhor quiser, nós vamos caçar o homem, patrão.      -Deixa – ordenou ele: Isso é serviço para mim.      Na manhã seguinte, depois do enterro, montou no seu cavalo e partiu. Virou a região de pernas para o ar, colhendo informações aqui e ali: eram parcas as notícias do assassino. Acabou perdendo seu rastro e ao fim de uma semana regressou, estropiado, sujo, barba por fazer:      - Não faço esta barba enquanto não der cabo dele – jurou.      A mulher sugeriu-lhe que ao menos tomasse um banho. Recusou-se:      - Quando raspar a barba eu tomo.      E se deixou ficar, como estava, estirado na rede. Nos dias que se seguiram não...

Budum Filho, Luis Fernando Veríssimo.

            Uma comissão da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul esteve investigando a violência na TV, quetão que preeocupa pais, educadores, sociólogos e que é bastante controvertida. Qual seria a influência da violência da TV nos espectadores? Haveria uma relação direta entre o aumento da criminalidade no Brasil e a crescente violência diariamente presente nos filmes importados da nossa TV? A TV estaria dando maus exemplos? Infelizmente, a comissão da Assembléia gaúcha não pôde ouvir o conhecido facínora Cedenir de Tal, vulgo Budum Filho. Seu depoimento, muito elucidativo, teria sido mais ou menos assim: Deputado: Conte-nos um pouco da sua vida de crimes, Sr. Budum Budum Filho: Comecei fazendo pequenos crimes, em casa. Éramos 18 irmãos morando no mesmo barraco e todos criminosos. Eu tinha 7 anos, era o caçula. Precisava chamar a atenção, senão não comia, entende? Até que um dia consegui chamar a atenção deles. Deputado...

A Última Crônica, Fernando Sabino

           A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: "assim eu quereria o meu último poema". Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica. ...