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Mostrando postagens com o rótulo Inez Cabral

Filho de Ouro, Inez Cabral

Dei sorte na vida. Apesar das dificuldades para sobreviver, da pobreza, do medo do tráfico, maus tratos das patroas, e outras mazelas, Deus me deu um filho de ouro. Ele fez muitas bobagens na vida, mas quando amadureceu, virou um homem de bem. Trabalhou na PM, chegou a sargento, acabou exonerado. Nunca entendi por quê, nem ele explicou. Arrumou logo outro serviço, virou segurança. Ganha mais. Agradeço todos os dias pela sorte que tenho. A única coisa de que não gosto, é que nesse emprego, ele tem que andar armado. Nunca vou entender por que homem gosta tanto de arma. Ele diz que é pra proteção. Já é homem adulto, sabe melhor do que eu o que é bom. Estou que não me aguento de felicidade. No meu aniversário, sem que eu esperasse, me deu uma chave de presente. ─Que é isso, meu filho? ─Um presente. Arrumei para a senhora. Se for esperar pela casa prometida pelo governo, vai morrer esperando. Essa é a chave de um apartamento. É da senhora. Não precisa levar nada, está mobiliada, tem ...

Volta a Pernambuco, João Cabral de Melo Neto

     Em 1952 durante a ação de caça às bruxas no governo Vargas, João Cabral e mais quatro colegas foram acusados de subversão, graças a um "amigo" que, remexendo nas gavetas de seu escritório, encontrou o rascunho de uma carta dirigida a um deles.  Nessa carta, meu pai pedia um artigo sobre a disputa pelo mercado brasileiro entre os ingleses, alemães  e japoneses. Esse documento foi entregue pelo "amigo" que o subtraiu ao Itamaraty e acabou nas mãos de Carlos Lacerda, que o publicou em matéria de capa na  Tribuna de Imprensa, no dia 27  de junho do mesmo ano. entre outras barbaridades, o jornal afirmava:   a tipografia passou a servir para imprimir boletins de seus novos "amigos". Valéry já lhe parece uma expressão da burguesia decadente. E quando Moscou pela boca de Aragon, mandou adorar Victor Hugo, ele passou a considerar Victor Hugo seu mestre, o seu modelo. Seus versos estão agora repletos de alusões, são panfletários, ardentes e, por s...

Autobiografia de Um Só Dia, João Cabral de Melo Neto

     No engenho Poço do Aleixo, em São Lourenço da Mata, moravam Luiz Antônio Cabral de Mello e sua mulher Carmem Carneiro Leão Cabral de Mello, meus avós paternos, que preparavam uma viagem para ao Recife, para que Carmem, às vésperas do parto de seu segundo filho (ou filha, na época não dava para saber), seguisse o que decretou seu pai: "Meus netos haverão de nascer todos no sobrado da família às margens da maré", como era conhecido por eles o estuário do Capibaribe, que enche e vaza com as marés do oceano.       São Lourenço da Mata fica a menos de vinte quilômetros do Recife, mas dá para imaginar como deveriam ser as estradas nessa época.      Chegaram de noitinha. Posso sentir o desconforto de minha vó, em final de gravidez fazendo uma viagem dessas.      Ao chegarem, o quarto principal do casarão ainda não tinha sido arrumado para o parto, portanto acomodaram minha avó e sua barriga no quarto dos santos, misto de qua...

Tempo Que Passa, Inez Cabral

Anteontem eu tinha dezoito anos. Levei dezoito anos para chegar lá. Pisquei, já tinha trinta. Me assustei um pouco, meus filhos cresciam, mas eram crianças. Fui dormir, acordei usando henna, mais por estética do que para esconder meus cabelos grisalhos. Achei bom, sempre quis ter cabelo colorido. Gostaria de azul marinho, mas no meu tempo isso não existia. Tive que entrar na henna mesmo. Daí, pisquei de novo, e ao me olhar no espelho, meu cabelo estava da cor das labaredas do inferno. Cruzes! Me identifiquei com uma vizinha, recalcada e cruel. Pensei com meus botões: “Não quero ficar assim, vou assumir a minha cor natural.” como se cor de cabelo definisse a pessoa. Não me arrependo, acho que fiquei bem com meu cabelo prateado. Por dentro me sentia igual, achava estranho as pessoas me chamarem de senhora. Sou sedentária de nascença, na escola menstruava quatro vezes ao mês, só para ser dispensada das aulas de ginástica. Um dia em que não pude escapar da tortura, era dia de basquete...

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Para degustação: O Que Vem Ao Caso, Inez Cabral

      Alguns meses depois da renúncia de Jânio Quadros, sai do Brasil aos treze anos, direto para Madri (onde sua mãe inventa de matriculá-la no balé) e, alguns meses depois, para Sevilha. Tem que aturar mais uma vez a educação que as meninas aristocratas (ela é a única plebeia do colégio) recebem na Espanha de Franco. São preparadas para, ao terminar os estudos, casar e obedecer ao marido ou ir para um convento, opção bem ressaltada nas aulas de religião. Segundo as madres, não é para qualquer uma, apenas as que merecem ouvirão o chamado  de Cristo. 

Por Que Ler A Literatura Como Turismo?

          Sempre fiquei incomodada com a expressão arregalada e a voz cheia de admiração das pessoas dizendo:      - Você é filha de João Cabral!      Não sou "boazinha". Isso pode ser confirmado por quem me conhece. Então, a partir do dia em que ouvi essa frase pela enésima vez, comecei a perguntar a quem a proferia:      - Qual o poema dele que você prefere?      Depois de perguntar isso, instalava-se geralmente um silêncio incômodo  que me fez perceber que João Cabral era uma figura mítica, ensinado nas escolas e adotado nas provas  de literatura do vestibular, mas depois esquecido e nunca mais lido, a não ser por quem fizesse letras.      Essa reação me incomodava, porque tenho certeza de que, quando ele escrevia, fazendo com que eu e meus irmãos andássemos quase na ponta dos pés e falando baixo porque "seu pai está trabalhando", ...