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Mostrando postagens com o rótulo literatura portuguesa

Livro das Horas, poema de Miguel Torga

Aqui diante de mim, eu, pecador, me confesso de ser assim como sou. Me confesso o bom e o mau que vão ao leme da nau nesta deriva em que vou. Me confesso possesso das virtudes teologais, que são três, e dos pecados mortais, que são sete, quando a terra não repete que são mais. Me confesso o dono das minhas horas O das facadas cegas e raivosas, e o das ternuras lúcidas e mansas. E de ser de qualquer modo andanças do mesmo todo. Me confesso de ser charco e luar de charco, à mistura. De ser a corda do arco que atira setas acima e abaixo da minha altura. Me confesso de ser tudo que possa nascer em mim. De ter raízes no chão desta minha condição. Me confesso de Abel e de Caim. Me confesso de ser Homem. De ser um anjo caído do tal céu que Deus governa; de ser um monstro saído do buraco mais fundo da caverna. Me confesso de ser eu. Eu, tal e qual como vim para dizer que sou eu aqui, diante de mim!

Soneto Já Antigo, Álvaro de Campos

Olha, Daisy: quando eu morrer tá has de dizer aos meus amigos aí em Londres, embora não o sintas, que tu escondes a grade dor da minha morte. Irás de Londres p'ra Iorque, onde nasceste (dizes... que eu nada que tu digas acredito), contar àquele pobre rapazito que me deu tantas horas tão felizes, Embora não o saibas, que morro... mesmo ele, a quem eu tanto julguei amar, nada se importará... Depois vai dar a notícia a essa estranha Cecily que acreditava que eu seria grande... Raios partam a vida e quem lá ande! Em: O Eu Profundo e Os Outros Eus, seleção poética, Fernando Pessoa, 1976 pág.253

Trigueira, poema de Júlio Dinis

  Trigueira! que tem? Mais feia Com essa cor te imaginas? Feia! tu, que assim fascinas Com um só olhar dos teus! Que ciúmes tens da alvura Desses semelhantes de neve! Ai, pobre cabeça, leve! Que te não castigue Deus. Trigueira! se tu soubesses O que é ser assim trigueira! Dessa ardilosa maneira Porque tu o sabes ser; Não virias lamentar-te, Toda sentida e chorosa, Tendo inveja à cor da rosa, Sem motivos para a ter. Trigueira! Porque és trigueira É que eu assim te quis tanto. Daí provém todo o encanto Em que me traz este amor. E suspiras e murmuras; Que mais desejavas inda? Pois serias tu mais linda, Se tivesses outra cor? Trigueira! onde mais realça O brilhar duns olhos pretos, Sempre húmidos, sempre inquietos, Do que numa cor assim? Onde o correr duma lágrima Mais encantos apresenta? E um sorriso, um só, nos tenta, Como me tentou a mim? Trigueira! E choras por isso! Choras, quando outras te invejam Essa cor, e em vão forcejam Por, como tu, fascinar? Ó louca, nunca mais digas, Nunc...

Trapo, poema de Fernando Pessoa

O dia deu em chuvoso A manhã, contudo, esteve bastante azul. O dia deu em chuvoso Desde manhã eu estava um pouco triste. Antecipação! Tristeza? Coisa nenhuma? Não sei: já ao acordar estava triste. O dia deu em chuvoso. Bem sei: a penumbra de chuva é elegante. Bem sei: o sol oprime, por ser tão ordinário, um elegante Bem sei: ser susceptível às mudanças de luz não é elegante. Mas quem disse ao sol ou aos outros que eu quero ser elegante? Dêem-me o céu azul e o sol visível, Névoa, chuvas, escuros - isso tenho eu em mim. Hoje quero só sossego. Até amaria o lar, desde que o não tivesse. Chego a ter sono de vontade de ter sossego. Não exageremos! Tenho efetivamente sono, sem explicação. O dia deu em chuvoso. Carinhos? Afetos? São memórias... É preciso ser-se criança para os ter... Minha madrugada perdida, meu céu azul verdadeiro! O dia deu em chuvoso. Boca bonita da filha do caseiro, Polpa de fruta de um coração por comer... Quando foi isso? Não sei... No azul da manhã... O dia deu em chuvo...

Mulheres da Fuvest (9) Sophia de Mello Breyner Andresen: O Cristo Cigano

O Cristo Cigano da autora portuguesa Sopha de Melo Breyner contém 12 poemas que contam a história de um cigano que foi morto por um escultor para que ele pudesse usar sua imagem em uma escultura de Cristo.    Essa lenda foi contada à Sophia por João Cabral de Melo Neto. A autora homenageia JCMN no livro  que tem edição brasileira e é um dos exigidos pela Fuvest para o vestibular de 2026.  O Cristo Cigano foi lançado em 1961.  Os poemas não numerados de 1 a 12 e   o blog Livro Errante traz o de número 10. A lenda: Um escultor foi contratado pela igreja católica para esculpir uma peça que representasse Jesus em sua agonia na cruz. O artista, porém, não consegue criar sem um modelo. Precisa ver alguém morrendo. Tem dúvidas sobre esperar uma morte natural  ou matar alguém para, então, trabalhar já que a encomenda vinha com um prazo.  Opta pela segunda alternativa e aguarda alguém lhe aparecer. Avista, então, um cigano a banhar-se num rio. É atra...

Análise, poema de Fernando Pessoa

Tão abstrata é a ideia do teu ser Que me vem de te olhar, que, ao entreter Os meus olhos nos teus, perco-os de vista, E nada fica em meu olhar e dista Teu corpo do meu ver tão longamente, E a ideia do teu ser fica tão rente Ao meu pensar olhar-te, a ao saber-me Sabendo que tu és,que, só por ter-me Consciente de ti, nem a mim sinto. E assim, nesre ignorar-me a ver-te, minto A ilusão da sensação, e sonho Não te vendo, nem vendo, nem sabendo Que te vejo, ou sequer que sou risonho Do interior crepúsculo tristonho Em que sinto que sonho o que me sinto sendo. F.P - dezembro de 1911 Imagem: Baile, Picasso

O Menino de Água, conto de Valter Hugo Mãe

O menino nadou para depois de uma onda grande e não voltou. A mãe estendeu as mãos na água buscando o seu corpo diluído. Julgava ela que o filho se diluíra como um cubo de açúcar incapaz de adocicar o mar. Jurou que o buscaria sempre. Haveria de o reconhecer nem que ele se tornasse ínfimo. Saberia dele escondido na mais insignificante gota de água. Jurava. Se o seu menino estivesse por ali, ela nunca o ignoraria.      Nadou ao fim do mar, à boca dos tubarões, dentro do vazia das baleias, sob as barrigas cegas dos barcos, no pensamento dos peixes e nas suas costas, entre as areias,  atrás das pedras e debaixo.  Buscou na cintilação quando a liuz entrava água adentro fazendo de tudo um cristal gigante, podia ser que o filho fosse agora uma estrela e só soubesse brilhar. A mãe olhava o brilho como se o brilho a tivesse também a observar. Esperava e, de todo modo, ficaria para sempre a esperar.      Nunca secava o corpo porque a água era agora o seu m...

Renovo, conto de Miguel Torga

        A Lucinda ? ­ perguntou o Pedro, coberto de suor, lívido, a acabar de sair de uma modorra de morte. ­      Está boa... ­ respondeu a mãe., com a naturalidade que pôde. ­      E porque não vem cá? ­      Isto pega­se, filho. Ela bem queria; eu é que não consinto... Uma onda de tristeza, que lhe embaciou a imagem da namorada, atravessou os olhos febris do rapaz. Depois, exausto do esforço de vir à tona do poço, desceu as pálpebras e caiu na sonolência em que vivia há dias.      No princípio da epidemia, de ouvido atento, ia vigiando o mundo através do dobrar do sino.      O som a entrar no quarto abafado e ele a inquirir, inquieto: ­     Quem foi? minha mãe? ­     O Belmiro. ­ O pai ou o filho? ­ O pai. Cuidadosa, a Felisberta varria implacavelmente o caminho de todos os espinhos que pudessem magoar as justas esperanças da mocidade. Só rodeado de gente da me...

O Pastor Gabriel, Miguel Torga.

     Nunca houve em toda a montanha pastor como Gabriel.      - Merecia outras olvelhas, homem! - disse-lhe um dia o Prior, desanimado da anarquia dos seus paroquiamos, quando viu o rebanho do rapaz atravessar a estrema dum centeio sem tirar uma dentada.      - Deus me livre! Já me vejo maluco com estas...      Mentira. O padre tinha razão.Era uma pena ver tanta autoridade, tanta vocação, tanto jeito natural, ao serviço de animais. Nem se pode fazer ideia! O carneiro mais teimoso, mais lorpa, mais churro, chegava às mãos do Gabriel e mudava de condição. Só não ficava a falar.      -Que fazes tu ao gado, criatura? Parece que o enfeitiças!      - Nada. Dou-lhe monte, como a outra gente.      Sorria. E lá continuava a educar os malatos com gestos e palavras que ninguém sabia fazer nem dizer. Nunca batia numa rês. O castigo era um simples olhar reprovativo, um assobio impaciente, uma in...

Prece, Fernando Pessoa

Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está - (o teu templo) - eis o teu corpo. Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome. Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faz com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai. Minha vida seja digna da tua presença. Meu corpo seja digno da terra, tua cama. Minha alma possa aparecer diante de ti como um filho que volta ao lar. Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te...

O Rapaz Que Habitava Os Livros, Valter Hugo Mãe

Barafustaram comigo, nem escutaram o que eu queria que entendessem. Diziam que os livros queimavam os olhos, eram diurnos, não serviam para  as noites. As regras do nosso colégio interno, para meninos casmurros  como eu,  mandavam assim.  Queriam os livros no corredor. As luzes apagadas às nove. Eu ainda deitei mão a alguns volumes, toquei-lhes brevemente igual a quem cai num precipício e procura agarrar-se, mas não me deixaram nada. Apenas o candeeiro já apagado, como se a luz tivesse morrido de tristeza. Adormeci muito mais tarde, de todo o modo. O coração rasgado em papelinhos pequenos. E uma gula esquisita embrulhada no estômago parecia dizer que eu não havia jantado. Fui ver a minha nova estante logo pela manhã. Era um bocado de espaço arranjado entre tralhas meio esquecidas. Fiquei ofendido. Os livros não esquecem nada. Eles são para sempre a mesma memória admirável. Esquecer livros é uma agressão à sua própria natureza. Embora, na verdade, eles nem se devam i...

Sem Hora Marcada, Sónia Machado Araújo

- Estás à espera de quem? - Já não espero ninguém! Estou só a usufruir a brisa passar... - Não tens família? - Tenho! Deixei de esperá-los... - Estão zangados? - Não! Estamos resolvidos, de bem... Com a vida! - Como assim? - Aprendi com os anos de caminho que não devemos esperar ninguém! - Mas...Uma mãe deve esperar sempre os seus filhos... - Por muitos anos achei que sim... Depois aprendi que só esperámos na ilusão de posse... No dia em que entendemos que ninguém pertence a ninguém, que até os filhos são do Universo... Passámos a Ser livres para receber, sejam os filhos ou tudo o que a vida nos reserva! - E quando os filhos não chegam? - Quem nada, nem ninguém espera, tudo é só vida a acontecer... - É difícil de entender! - Eu sei. Fomos iludidos a sentir amor como apego, quando a verdade é que o autêntico Amor é saber desapegar, Amor é liberdade para amar sem prender, para amar permitido ao outro voar! - E não sentes solidão? - Ela não existe para quem resgatou para si o direito de t...

Canção de Outono, Fernando Pessoa

No entardecer da terra, O sopro do longo outono Amareleceu o chão. Um vago vento erra, Como um sonho mau num sono, Na lívida solidão. Soergue as folhas, e pousa As folhas volve e revolve Esvai-se ainda outra vez. Mas a folha não repousa E o vento lívido volve E expira na lividez. Eu já não sou quem era; O que eu sonhei, morri-o; E mesmo o que hoje sou Amanhã direi: quem dera Volver a sê-lo! mais frio. O vento vago voltou. Imagem: Outono, Tânia Drouet

Balada da Neve, Augusto Gil

Batem leve, levemente, como quem chama por mim. Será chuva? Será gente? Gente não é, certamente e a chuva não bate assim. É talvez a ventania: mas há pouco, há poucochinho, nem uma agulha bulia na quieta melancolia dos pinheiros do caminho... Quem bate, assim, levemente, com tão estranha leveza, que mal se ouve, mal se sente? Não é chuva, nem é gente, nem é vento com certeza. Fui ver. A neve caía do azul cinzento do céu, branca e leve, branca e fria... Há quanto tempo a não via! E que saudades, Deus meu! Olho-a através da vidraça. Pôs tudo da cor do linho. Passa gente e, quando passa, os passos imprime e traça na brancura do caminho... Fico olhando esses sinais da pobre gente que avança, e noto, por entre os mais, os traços miniaturais duns pezitos de criança... E descalcinhos, doridos... a neve deixa inda vê-los, primeiro, bem definidos, depois, em sulcos compridos, porque não podia erguê-los!... Que quem já é pecador sofra tormentos, enfim! Mas as crianças, Senhor, porque lhes dais t...

Quadrinha de António Aleixo dedicada a Salazar. (Mas válida para tantos...)

Esta quadrinha foi escrita pelo autor em 1945, quando Salazar em Portugal prometeu "eleições tão livres como na livre Inglaterra". Ao sentir tremer o trono, P'ra o mundo não fez segredo: Prometeu, talvez por medo, Que dava o seu a seu dono Este sujeito é capaz De nos fazer mil promessas... Mas faz-nos tudo às avessas Das promessas que nos faz! Mas eu não sou quem procuras... Sei, contra tua vontade, Que me mentes, quando juras Que me dizes a verdade. Prometem ao Zé Povinho Liberdade, Lar e Pão... Como se o mundo inteirinho Não soubesse o que eles são. Em: "Inéditos", António Aleixo Ed. de Vitalino Martins Aleixo (filho do poeta), Loulé 1978 Fonte: Uivemos Juntos Imagem: estátua  em frente ao Bar Calcinha frequentado pelo autor, na cidade de Loulé, no Algarve.

Carta Para Josefa, Minha Avó. José Saramago

     “Tens noventa anos. És velha, dolorida. Dizes-me que foste a mais bela rapariga do teu tempo – e eu  acredito. Não sabes ler.   as mãos grossas e deformadas, os pés encortiçados. Carregaste à cabeça toneladas de restolho e lenha, albufeiras de água. Viste nascer o sol todos os dias. De todo o pão que amassaste se faria um banquete universal. Criaste pessoas e gado, meteste os bácoros na tua própria cama quando o frio começava a gelá-los. Contaste-me histórias de aparições e lobisomens, velhas questões de família, um crime de morte. Trave da tua cama, lume da tua lareira, – sete vezes engravidaste, sete vezes deste à luz. Não sabes nada do mundo. Não entendes de política, nem de economia, nem de filosofia, nem de religião. Herdaste umas centenas de palavras práticas, um vocabulário elementar. Com isto viveste e vais vivendo. És sensível às catástrofes e também aos casos da rua, casamentos de princesas e ao roubo dos coelhos da vizinha. Tens grandes ódio...