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Espécie de Felicidade, conto de Maria Julieta Drummond de Andrade


  • Ao chegar em casa para o almoço, encontrei um recado singular: uma leitora brasileira telefonara, de passagem por aqui, pedindo que eu mandasse tirar um gato de uma árvore, na Rua Honduras, em frente ao número 3805. Pensei tratar-se de uma confusão da empregada nova, que não entendera a mensagem, ou de um trote. Se fosse verdade, bem que daria uma crônica...

  • À noite, de volta do trabalho, outro telefonema: era Neide, da Tijuca, que viera visitar um amigo argentino e regressava na madrugada seguinte para o Rio. Notara, há três dias, a presença de um gato na cima da árvore plantada diante da casa em que se hospedava, e não sabia como ajudá-lo, pois o bichinho, que miava desconsoladamente, parecia temeroso de pular. Acudira a um veterinário do bairro, que a aconselhou a chamar os bombeiros, estes a encaminharam à Sociedade Protetora dos Animais, cujo telefone não atendia. Aí lembrara-se de mim e das crônicas em que costumo proclamar meu encantamento pelos felinos; estivera até no meu escritório, mas já era tarde e eu acabara de sair. Queria viajar tranquila, na convicção de que eu acharia uma solução para o caso.

  • Senti-me comovida e perplexa, e fui dormir consciente da responsabilidade que, a partir daquele momento, caíra sobre mim. De manhã, parti depressa para o lugar indelicado, na parte mais serena e modesta de Palermo. Encontrei sem dificuldade a árvore altíssima (e infelizmente anônima para mim), mas não vi nenhum gato: apenas uma tábua comprida, unindo a varanda de um terceiro andar vizinho aos galhos medianos. Imaginei que, com aquele estratagema simples e eficaz, alguém pudera salvar o animal, e suspirei com alívio e uma ponta de decepção. Quando já me preparava para chamar um taxi, de volta, ouvi que me chamavam: era a moradora de terceiro andar, que desceu logo depois, seguida pelo marido.

  • - A senhora deve estar  procurando a gata, não é? Ela está lá em cima, bem na ponta daqueles galhos, coitadinha. Daqui de baixo parece cinzenta, mas é atigrada, e acho que está prenhe.

  •      Distingui com esforço, entre as folhas, um pequeno vulto imóvel, encolhido num canto.

  •      - Está ali há quinze dias e chora muito.Não quer descer de jeito nenhum, nós já pusemos escadas, a tábua, tentamos tudo. Ainda ontem telefonei      para a ATC, pensando que o pessoal do programa “Semanário Insólito”  podia se interessar pelo assunto, mas eles me chamaram de maluca, dizendo que televisão não tem nada que ver com animais.

  •     -E eu fui à Sociedade Felina Argentina - comentou baixinho o marido, que a escutava com admiração.

  •      -Ora, Pepe, como é que você queria que uma organização de gente rica, que só cuida de gatos de raça, se preocupasse com essa pobrezinha?

  •      O marido se encolheu, humilde, e aproveitei para fazer algumas perguntas. Assim, fiquei sabendo que Dona Matilde morava ali havia muitos anos, que criara o filho único e agora tinha dois netinhos, mas, como não gostava da nora, pouco via as crianças e preenchia suas horas de ócio distribuindo entranha e ossos entre felinos da redondeza. Dava de comer a uns vinte.

  •      - Agora tenho mais essa ali.

  •      - E como é que a senhora consegue alimentá-la? 

  • -Amarro pedacinhos de fígado num barbante e jogo lá da quantidade de barbantes pendurada varanda. Não está vendo a quantidade de barbantes pendurados dos galhos?

  • - E eu jogo saquinhos plásticos, cheios de leite completou o marido.

  • Ora, Pepe, a gata mete a unha, fura o saco e o leite escorre todo.
    - Mas lambe um pouquinho. Se não, já tinha morrido de sede.
    Você não entende nada disso, Pepe. Como ia dizendo, a gata não quer mesmo descer. O problema vai ser na hora de parir.
    Dona Matilde tinha que preparar os nhoques do almoço. Despedi-me dela e do marido e fiquei por ali atenta ao animal. Assobiei, tratei de miar, gritei algumas palavras de ternura. Depois de um tempo, ele me respondeu, baixinho. Continuei miando. O bichano se levantou, curvou o dorso, como espreguiçando-se, e com muito cuidado, muito lentamente, começou a descer. Eu olhava com emoção, sem deixar de dirigir-lhe sons meigos. O gato (ou gata) desceu dois galhos mais. Calculei que acabaria chegando até a tábua, e animei-o, com o coração trepidante, sentindo já, vivo, o amor que me ataria a ele para sempre. Miando e movendo-se com  delicadeza, ele descia, suavemente.
        Nisso aproximou-se da árvore um menino, puxando um cachorro que parou e fez xixi numa das raízes. O gato deteve-se imediatamente, crispado. Quando o cachorro se foi, voltei a insistir, a miar, a chamá-lo em voz alta. A princípio hesitante, depois com segurança, ele retomou a descida, mas uma motocicleta passando o assustou e fez subir, quase correndo, ao galho primitivo, de onde não se moveu mais. Assobios, miados, vocativos ternos - nada a demoveu.
    Ao cabo de dez minutos, vencida, decidi retirar-me.

  • - Miau, miau - fez então o gato, de longe, a modo de despedi-, e cuidei que me dizia: - Não entendeste que estou aqui porque quero? Da árvore posso contemplar o espetáculo do mundo, que é múltiplo e divertido; recebo fígado e leite: estou a salvo. Aí em baixo há cães, motocicletas e homens dispostos a perseguir-me. Não percebes que descobri, na altura, uma espécie de felicidade?


  • 11 de setembro de 1982

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