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Mostrando postagens com o rótulo Maria Julieta Drummond de Andrade

Auto de Belém, poema de Maria Julieta Drummond de Andrade

Uma gruta,na solidão da noite hebraica.A estrela tremeluz, indecisa: - Sou Estrela de outros céus, mas vim brilhar em Belém. Por que cintilei, ao léu, até aqui. Para quem?      O Anjo entreabre as asas, com timidez: -Sou Anjo do firmamento e vim proteger Belém. Parece que há louvamento, hoje, aqui. Mas para quem?      Em plena escuridão, o Galo cocorica, como pressentindo a madrugada: - Sou Galo de longes terras, mas vim cantar em Belém. Por que cruzei tantas terras, sem milho algum. Para quem?      O grito do Galo corta as nuvens como um gemido. A Estrela , luziluzindo, é menos que um vagalume, na altura. O Anjo vê a ave, a crista inquieta. Seu puríssimo raciocínio deduz:      -É um galo músico, desses que cantam de maneira particular      Nenhum ruído na gruta, até o ar ficou imóvel. Eis que se escutam barulhinhos na relva: são as Ovelhas chegando. A primeira bale muito devagar: - Sendo Ovelhas de outras ervas,...

Historinha de Páscoa, Maria Julieta Drummond de Andrade

 Até hoje Josefina não sabe explicar se foi sonho, fantasia ou realidade. No Domingo de Ramos, depoisde almoçar  bem, com vinho chileno e um licorzinho final, deitou-se na rede da varanda, disposta a abandonar-se ao dia luminoso. A cabeça, os pensamentos iam  e vinham, no mesmo ritmo lento e oscilante da rede; as preocupações foram esmaecendo, à medida que ela se deixava embalar.       Nisso houve um barulhinho que a princípio tentou ignorar, recendo romper a lânguida quietação que a envolvia. Mas o pequeno ruido - áspero, curto, insistente - acabou invadindo-lhe o bem estar. Abriu com relutância o olho preto ( o mais esperto) e logo depois o segundo,já totalmente emersa da modorra: diante dela um coelho malhado a encarava, com a orelha direita para cima e a esquerda encolhida. Seu jeito insolente e meio c6omico não a surpreendeu,pois tudo era possível sob aquela esplêndida luminosidade de abril. O visitante parou de arranhar o mosaico com as unhas, e ...