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Mostrando postagens com o rótulo Marina Colasanti

Porque Era Frio Nas Horas Mais Ardentes, conto de Marina Colasanti

    Foi na estação das águas, ao repousar contra um tronco, que ela conheceu aquele boa constrictor. Era discreto, persuasivo e muito sedutor. Logo tornaram-se amantes.      Todas as tardes, quando langor e achaques prendiam os hóspedes em seus quartos, ela ia encontrá-lo no canto mais sombrio do parque. E o mormaço, o beijo bífido, as espirais amorosas que mal permitiam respirar levava-na a delícias nunca pressentidas.       A hora da partida forçou a constatação: já não podia abrir mão de prazer tão intenso. Enrolado o boa numa valise, viajou com ele até sua casa, e o instalou no banheiro. Ali ele poderia fugir para o terraço em caso de perigo, ou esquivar-se atrás da banheira. Ali poderiam se amar livre de riscos, sem observância de tempo, trancada a porta da curiosidade.       Nunca antes tomara ela tanto banho. Queixava-se em voz alta de calor, sujeira, cansaço. E, controlando ...

Atrás do Tronco, poema de Marina Colasanti

Toda  vez que o nome do meu pai ou essa expressão “meu pai” vem combinada com a palavra "guerra” uma alta palmeira cresce em mim e atrás do tronco há um homem escondido. Um homem escondido que pode ser um morto ou pode ser assassino um homem tão culto quanto oculto é seu destino. É o inimigo ali posto pela voz do meu pai quando lhe perguntei se havia matado muitos nas tantas guerras de que se orgulhava. Na guerra disse ele é impossível saber se o inimigo escondido atrás do tronco aquele em que adotamos em defesa e que não mais se vê está vivo está morto está ferido ou se sequer estava atrás do tronco. Em: Gargantas Abertas, Marina Colasanti, Ed. Rosso, 1998, pág.90

Desertificação, conto de Marina Colasanti

 O deserto começou a infiltra-se na casa por baixo da porta, areia tangida por invisível sopro. Abriram, espiaram o elevador, examinaram as escadas. Nada. Nem areia nem vento. Em casa, porta fechada, halitava o siroco. Abrasivo debaixo dos pés, suave concha nos cantos, a areia  acumulava-se. Desapareceram as flores do tapete, secaram as folhagens do sofá. Quando o desero sufocou os pássaros da tapeçaria, nenhum verde rstava na sala. Sem chuva, breve morreria também o oásis do quarto. Formada a primeira duna, o pai trouxe a cabra e o cabrito amarrados de corda. Garantiriam o leite. A mãe, arrancando as cortinas, providenciou panos, folgadas roupas, turbantes que protegiam a cabeça e a boca. Os olhos, na claridade, trabalhavam para descobrir entre frestas algum alimento para as cabras. E à noite acendiam em fogueiras o que restava dos móveis. Mas logo a duna começou a mover-se. Desfaziam-se as ondas do cimo para ondularem mais adiante. Era hora de partir. Desmontaram a tenda, a...

Menina de Vermelho a Caminho da Lua, conto de Marina Colasanti

     Esta é uma história que não quero contar, uma pequena história sem fatos, espessa como um mênstruo, que não pretendo assumir. Tentei livrar-me dela, afundá-la e ao fastio que me causa. Não consegui. Desnecessária como é, ainda assim insiste em existir. Foi por isso que botei um anúncio no jornal. Dizia: “Procura-se narrador. Exigem-se modéstia e prazer descritivo. Pagamento a combinar. Procurar… endereço… etcétera”.      Só um apresentou-se. Teria preferido, me caberia melhor, fosse mulher. Mas não tive escolha, fiquei com ele. Homem e um pouco inexperiente, me vi obrigada a insistir na minha vontade, concisão de estilo e docilidade nos ramos. E a vesti-lo com nova roupagem. É assim, pois, de saia rosa e lenço nos cabelos, que o apresento: mãe de duas filhas pequenas que pouco irão agir, levando-as para brincar num parquinho de diversões, sábado à tarde, naquela exata tarde, naquele exato momento em que a história quer acontecer, e onde ele se torna, p...

Luz de Lanterna, Sopro do Vento - conto de Marina Colasanti

     Tendo o marido partido para a guerra, na primeira noite da sua ausência a mulher acendeu uma lanterna e pendurou-a do lado de fora da casa. “Para trazê-lo de volta,” murmurou. E foi dormir.      Mas, ao abrir a porta na manhã seguinte, deparou-se com a lanterna apagada. “Foi o vento da madrugada,” pensou olhando para o alto como se pudesse vê-lo soprar.      À noite, antes de deitar, novamente acendeu a lanterna que, a distância deveria indicar ao seu homem o caminho de casa.      Ventou de madrugada. Mas era tão tarde e ela estava tão cansada que nada ouviu, nem o farfalhar das árvores, nem o gemido das frestas, nem o ranger das argolas da lanterna. E de manhã surpreendeu-se ao encontrar a luz apagada.      Naquela noite, antes de acender a lanterna, demorou-se estudando o céu límpido, as claras estrelas. “Na certa não ventará,” disse em voz alta, quase dando uma ordem. E encostou a chama do fósforo no pavi...

Eu Sei, Mas Não Devia - texto de Marina Colasanti

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor. E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.   A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar o café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E, aceitando os ...

Vincent, Marina Colasanti

Ciprestes de Van Gogh imóveis labaredas verdes incêndios sobre a tela verdes mulheres nuas em seus cabelos. Ciprestes de Van Gogh bizantinas colunas da paisagem vórtice remoinho erguido como o grito o fallus o arremesso de gozo do pintor. Em: Rota de Colisão, Rio de Janeiro, Ed.Rocco 1993 Imagem: Cypresses, Van Gogh Saint-Rémy - FR 1889 Museu Metropolitano de N.Y

A Dama do Leque, Marina Colasanti

    Era uma dama de quimono que vivia na superfície pregueada de um leque de papel. não vivia sozinha. Pousada de trás dela, uma garça cravava a longa perna de coral na água de um lago. Enquanto no canto esquerdo, outra garça voava.      Sem chuva ou neve que viessem alterar a paisagem, sem frutos que substituíssem as flores do pessegueiro, a dama e suas garças pareciam paradas no tempo. Mas paradas não estavam. O tempo passava no leque, embora a seu modo. Pois cada vez que o seu dono, um velho mandarim, o fechava num estalo seco, fazia-se noite entre as dobraduras. A dama então dormia. Dormiam as garças. E até os nenúfares do lago pareciam repousar suas pétalas sobre a água. Somente o vulcão, ao fundo, continuava soltando um fio de fumaça.    Bastava, porém, que o mandarim abrisse outra vez o leque, para que todos despertassem. As pequenas ondas do lago brilhavam como se algum vento lhes chegasse das montanhas. Voava a garça sem sair ...

O Homem Atento, Marina Colasanti

            Por mais que recuasse com a memória, aquele homem não encontrava em sua vida um só momento em que não estivesse estado atento. Atento a tudo, plenamente, abertos os sentidos como se o seu corpo fosse a porta de entrada do mundo. Não dormia. Mal comia. Os olhos sempre despertos viam o que acontecia à sua frente, e pareciam ver com igual clareza o que acontecia atrás, ou mesmo longe deles. O nariz captava todos os cheiros, decifrava todos os perfumes. Os ouvidos distinguiam os componentes do silêncio tão bem quanto os da algazarra. Sentado numa almofada, assim prestava atenção, certo de que, enquanto tomasse conhecimento de tudo o que acontecia, estaria controlando a organização do mundo. Imóvel, sem permitir que qualquer distração viesse perturbá-lo, abrindo em sua vigilância uma brecha por onde pudesse entrar a desordem.

A Moça Tecelã, Marina Colasanti

      “Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear. Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor da luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.  Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava. Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos do algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela. Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza. Assim, jogando a lançadeira de um lado para outro e batendo os grandes pentes do tear para frente ...

A Casa das Palavras, Marina Colasanti

     Andam dizendo que uma imagem vale mais do que mil palavras. É uma frase de efeito, com ar de modernidade. As pessoas acreditam, até repetem. Mas não é verdade. Os próprios cultores da imagem tiveram que cunhar uma frase para louvá-la, talvez por achar difícil criar uma imagem que dissesse a mesma coisa, com a mesma clareza. Felizmente, o mundo está cheio de pessoas que amam as palavras e que se encantam com elas.      E agora vou plantar aqui uma palavra que é um nome: Medellín. E sei que na cabeça de todo mundo essa palavra evoca várias outras: drogas, tráfico, cartel, violência. À distância, essas parecem ser as únicas palavras daquela cidade. Não são. Medelín - eu estive lá e sei - é uma cidade que ama especialmente as palavras.      Ali acontece todo ano um festival de poesia surpreendente, que ocorre em escolas, teatros, igrejas, praças, tudo ao mesmo tempo, e tudo lotado. ali atuava, quando lá estive, um grupo ch...

A Morada do Ser, Marina Colasanti

   Chave Yale, duas voltas para a esquerda.Nada, a porta está trancada por dentro. Toca. Meia hora depois a empregada abre.  Esperta, ess a  empregada. Entra. Dá quatro passos para a frente, depois à esquerda mais cinco à frente. Até  este ponto conhece o caminho de cor. À direita há uma réstia de luz. É a janela, pensa. E ouve a voz da mulher que o chama. Hesita, gostaria de ar, mas convém primeiro cumprimentar a mulher. Tentará encontrá-la pela voz. Chamam-se . Ele segue à direita até a primeira bifurcação. Vira à esquerda. O corredor é longo, escuro,o cheiro de mofo lhe diz que avança na direção errada. Recua tentando recuperar os próprios passos. Mas chega a uma rotunda por onde não havia passado, e sabe que mais uma vez perdeu o rumo. O vento encanado muge e silva, bufido mais selvagem que sua respiração ofegante. A esmo escolhe um caminho. Agora avança apressado, sem refletir, farejando o ar que aos poucos se faz mais leve. Dobra à esquerda, à dire...

Atrás do Tronco, Marina Colasanti

Toda vez que o nome do meu pai ou a expressão "meu pai" vem combinada com a palavra "guerra" uma alta palmeira cresce em mim e atrás do tronco há um homem escondido. Um homem escondido que pode ser um morto ou pode ser um assassino um homem tão oculto quanto oculto é o seu destino. É o inimigo ali posto pela voz do meu pai quando lhe perguntei se havia matado muitos nas tantas guerras de que se orgulhava. Na guerra  disse ele é impossível saber se o inimigo escondido atrás de um tronco aquele em que atiramos em defesa e que não mais se vê está vivo está morto está ferido ou sequer estava atrás do tronco. In: Colasanti, Marina,Gargantas Abertas, Rio de Janeiro:  Rocco,1998

A Paixão da Sua Vida, Marina Colasanti

                                                                 Amava a morte. Mas não era correspondido.      Tomou veneno.  Atirou-se de pontes. Aspirou gás. Sempre ela o rejeitava, recusando-lhe o abraço.      Quando finalmente desistiu da paixão entregando-se à vida, a morte, enciumada, estourou-lhe o coração. Em: Um Espinho de Marfim e outras histórias Ed. LePM 1999

Porque Esta é a Paz, Marina Colasanti

     O primeiro dia. Imagem de: myscoops.com      Barulho festivo de repente,já sem costume. E a luz que sobra, toda, acesa.      Os rádios ligados na notícia única.   "   o mundo inteiro... as assinaturas... sua Santidade... depois de tanto..."      Depois de tanto, tanto sofrimento.      Acabou      Gente na rua, e o sorriso permitido. Mãe, podemos ir à praça? Os americanos chegaram.      Os americanos chegaram um dia ao meu país, e a  guerra acabou.

Tua Mão Em Mim, Marina Colasanti - Segunda feira poética

Você me acorda no meio da noite e eu que navegava tão distante  cravada a proa em espumas  desfraldados os sonhos  afloro de repente entre  as paradas ondas dos  lençóis a boca ainda salgada mas já amarga molhada a crina encharcados os pelos na maresia que do meu corpo escorre. Cravam-se ao fundo os dedos do desejo. A correnteza arrasta. Só quando o primeiro sopro escapar entre os lábios da manhã levantarei âncora. Mas será tarde demais . O sol nascente terá trancado o porto e estarei prisioneira na vigília. (Em: Gargantas Abertas - Ed. Rocco 1998)