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Mostrando postagens com o rótulo Portugal

Poema em Linha Recta, Álvaro de Campos

Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo, Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cómico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado, Para fora da possibilidade do soco; Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. Toda a gente que eu conheço e que fala c...

Trova do Vento Que Passa, poema de Manuel Alegre ( citado pela Ministra Carmem Lúcia)

Pergunto ao vento que passa Notícias do meu país E o vento cala a desgraça O vento nada me diz. O vento nada me diz. Pergunto aos rios que levam Tanto sonho à flor das águas E os rios não me sossegam Levam sonhos deixam mágoas. Levam sonhos deixam mágoas Ai rios do meu país Minha pátria à flor das águas Para onde vais? ninguém diz. [se o verde trevo desfolhas Pede notícias e diz Ao trevo de quatro folhas Que morro por meu país. Pergunto à gente que passa Por que vai de olhos no chão. Silêncio -- é tudo o que tem Quem vive na servidão. Vi florir os verdes ramos Direitos e ao céu voltados. E a quem gosta de ter amos Vi sempre os ombros curvados. E o vento não me diz nada Ninguém diz nada de novo. Vi minha pátria pregada Nos braços em cruz do povo. Vi minha pátria na margem Dos rios que vão pró mar Como quem ama a viagem Mas tem sempre de ficar. Vi navios a partir (minha pátria à flor das águas) Vi minha pátria florir (verdes folhas verdes mágoas). Há quem te queira ignorada E fale pátria...

O Apagão em Portugal E Espanha Teve Um Mérito Inesperado: Acendeu As Pessoas, texto de José Eduardo Agualusa

A longa interrupção de energia elétrica, que, na segunda-feira passada, atingiu a Península Ibérica, trouxe o caos e a inquietação para as grandes cidades — crianças presas em elevadores, escolas fechadas, dezenas de voos cancelados, boatos terríveis, e muita gente assustada, fazendo fila diante das mercearias de bairro para comprar água, vinho tinto, comida enlatada e papel higiênico.      Ao entardecer, porém, o ambiente distendeu-se. Em Lisboa, de onde escrevo esta coluna, vi vizinhos, que nunca antes se haviam cumprimentado, conversando uns com os outros, sentados na calçada. Vi desconhecidos partilhando velas e lanternas; outros oferecendo água e alimentos aos menos prevenidos.      Embora os semáforos tivessem deixado de funcionar não testemunhei nenhum sinal de nervosismo. Os motoristas respeitavam-se uns aos outros. Respeitavam até mesmo os pedestres, até mesmo os ciclistas, numa cortesia rara para os padrões locais. Cheguei a me sentir em Berlim. ...

Parlenda, Guimarães Rosa

Papagaio foi à caça voltou para Portugal ausência de verdes matas extinta raça real. Deu voz de um príncipe louro viagem por bem e mal. Deixou-me suas palavras apenas, no vegetal caladas; ouro e segredo um castelo e um coqueiral. Mas a vida que me herdaram viver, é bem desigual — velas no mar, um degredo e a saudade: azuis e sal. Que eu sofra noites florestas e minha culpa, por al. – João Guimarães Rosa, do livro “Ave, palavra”. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 6ª ed., 2009. §

Toada de Fruto e Bicho, Marcílio Godoi

Araçá não é goiaba goiaba né araçá goiaba tem da branca e da vermeia araçá é ceia do mandruvá. Meu amor com os burros n'água o meu bem não quer casar. Eu sou pobre, pobre, pobre de ma-ré-de-si relá enterra o canário inerte menina, não vá chorár na caixa de sabonete com a flor do manacá. Araçá não é goiaba goiaba né araçá goiaba tem da branca e da vermeia araçá é ceia do mandruvá. Não tira o botão da casa não tira a paz do solar. Isabel virou princesa Portugal perdeu lugá coronel ficou maluco com seu modo de andar levou meu amor com ele fiquei sozinho a cismá. Araçá não é goiaba goiaba né araçá goiaba tem da branca e da vermeia araçá é ceia do mandruvá. Goiaba dá bicho larva passarim foi lá jantar araçá ficou sozinha sem bicho pra namorar botei doce na janela de goiaba com araçá menino não quer trabalho menina não quer casá. Araçá não é goiaba goiaba né araçá goiaba tem da branca e da vermeia araçá é ceia do mandruvá.

O Que Estou Lendo? Arrancados da Terra, Lira Neto

Jornalista e pesquisador brasileiro faz relato da história do povo judeu na rota Lisboa-Amsterdã-Recife holandesa até a então nascente Nova York Foto: Daniela Levy Mariza Santana      Sefarditas é o termo utilizado para se referir aos judeus originários de Portugal e Espanha. Eles possuem tradições, línguas, hábitos e ritos diferenciados de seus irmãos asquenazes, os judeus oriundos da Europa Central e do Leste. Os historiadores supõem que os sefarditas se estabeleceram na Península Ibérica ainda na época das navegações fenícias, depois da destruição dos vários templos de Jerusalém, e já viviam no local no período da ocupação romana. Embora eles estivessem há muito enraizados na Península Ibérica, muitos inclusive já convertidos à fé cristã, esse fato não os poupou dos horrores da Inquisição da Igreja Católica. Após a expulsão da Espanha pelos reis católicos Isabel de Castela e Felipe de Aragão, e na época em que os tronos espanhol e lusitano foram unificados, muitas famí...

Cultura Inútil: Nobel de Literatura.

      Antes vamos saber um pouco c omo são feitas as indicações aos Prêmios Nobel?    O comitê do prêmio Nobel costuma enviar, em setembro do ano anterior ao da entrega dos prêmios,  formulários de nomeação são enviados  a cerca de  três mil pessoas  que  atuam nas cinco áreas  nas quais são divididas as categorias. No caso do Prêmio Nobel da Paz, os formulários também são enviados para  governos ,  ex-ganhadores  do prêmio e para os antigos ou atuais  membros do comitê norueguês . O comitê do Prêmio Nobel definiu o dia  31 de dezembro  como  prazo para retorno  dos formulários de nomeação. Após receber as respostas, pré-seleciona cerca de  300 pessoas/organizações  e envia os trabalhos para as instituições que entregam os prêmios.  É importante destacar que os  indicados não são informados que foram selecionados . Conforme a história do Prêmio Nobel, as nomeações são manti...

Digo: Lisboa, Sophia de Mello Breyner Andressen

  Digo: “Lisboa” Ponte Vasco da Gama Quando atravesso – vinda do sul – o rio E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse Abre-se e ergue-se em sua extensão noturna Em seu longo luzir de azul e rio Em seu corpo amontoado de colinas – Vejo-a melhor porque a digo Tudo se mostra melhor porque digo Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência Porque digo Lisboa com seu nome de ser e de não-ser Com seus meandros de espanto insónia e lata E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro Seu conivente sorrir de intriga e máscara Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata Lisboa oscilando como uma grande barca Lisboa cruelmente construida ao longo da sua própria ausência Digo o nome da cidade – Digo para ver.    

Mea Culpa, Antero de Quental

Não duvido que o mundo no seu eixo Gire suspenso e volva em harmonia; Que o homem suba e vá da noite ao dia, E o homem vá subindo insecto o seixo. Não chamo a Deus tirano, nem me queixo, Nem chamo ao céu da vida noite fria; Não chamo à existência hora sombria; Acaso, à ordem; nem à lei desleixo. A Natureza é minha mãe ainda… É minha mãe… Ah, se eu à face linda

Segunda-feira poética: Palavras Para Minha Mãe, José Luis Peixoto

mãe, tenho pena. esperei sempre que entendesses as palavras que nunca disse e os gestos que nunca fiz. sei hoje que apenas esperei, mãe, e esperar não é suficiente. pelas palavras que nunca disse, pelos gestos que me pediste tanto e eu nunca fui capaz de fazer, quero pedir-te desculpa, mãe, e sei que pedir desculpa não é suficiente. às vezes, quero dizer-te tantas coisas que não consigo, a fotografia em que estou ao teu colo é a fotografia mais bonita que tenho, gosto de quando estás feliz. lê isto: mãe, amo-te. eu sei e tu sabes que poderei sempre fingir que não escrevi estas palavras, sim, mãe, hei-de fingir que não escrevi estas palavras, e tu hás-de fingir que não as leste, somos assim, mãe, mas eu sei e tu sabes. José Luís Peixoto, in "A Casa, a Escuridão"

Segunda-feira poética: Poema do Homem Só, António Gedeão

Sós, irremediavelmente sós, como um astro perdido que arrefece. Todos passam por nós e ninguém nos conhece. Os que passam e os que ficam. Todos se desconhecem. Os astros nada explicam: Arrefecem Nesta envolvente solidão compacta, quer se grite ou não se grite, nenhum dar-se de outro se refracta, nehum ser nós se transmite. Quem sente o meu sentimento sou eu só, e mais ninguém. Quem sofre o meu sofrimento sou eu só, e mais ninguém. Quem estremece este meu estremecimento sou eu só, e mais ninguém. Dão-se os lábios, dão-se os braços dão-se os olhos, dão-se os dedos, bocetas de mil segredos dão-se em pasmados compassos; dão-se as noites, e dão-se os dias, dão-se aflitivas esmolas, abrem-se e dão-se as corolas breves das carnes macias; dão-se os nervos, dá-se a vida, dá-se o sangue gota a gota, como uma braçada rota dá-se tudo e nada fica. Mas este íntimo secreto que no silêncio concreto, este oferecer-se de d...

Me Alugo Para Sonhar, Gabriel García Márquez

     Às nove, enquanto tomávamos o café da manhã no terraço do Habana Riviera, um tremendo golpe de mar em pleno sol levantou vários automóveis que passavam pela avenida à beira-mar, ou que estavam estacionados na calçada, e um deles ficou incrustado num flanco do hotel. Foi como uma explosão de dinamite que semeou pânico nos vinte andares do edifício e fez virar pó a vidraça do vestíbulo.           Os numerosos turistas que se encontravam na sala de espera foram lançados pelos ares junto com os móveis, e alguns ficaram feridos pelo granizo de vidro. Deve ter sido uma vassourada colossal do mar, pois entre a muralha da avenida à beira-mar e o hotel há uma ampla avenida de ida e volta, de maneira que a onda saltou por cima dela e ainda teve força suficiente para esmigalhar a vidraça.     ...