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Mostrando postagens com o rótulo crônica.

Nascido em 19 de Outubro: Vinicius de Moraes

        Poema de aniversário Porque fizeste anos, Bem-Amada, e a asa do tempo roçou teus cabelos negros, e teus grandes olhos calmos miraram por um momento o inescrutável Norte... Eu quisera dar-te, ademais dos beijos e das rosas, tudo o que nunca foi dado por um homem à sua Amada, eu que tão pouco te posso ofertar. Quisera dar-te, por exemplo, o instante em que nasci, marcado pela fatalidade de tua vinda. Verias, então, em mim, na transparência do meu peito, a sombra de tua forma anterior a ti mesma. Quisera dar-te também o mar onde nadei menino, o tranqüilo mar de ilha em que perdia e em que mergulhava, e de onde trazia a forma elementar de tudo o que existe no espaço acima – estrelas mortas, meteoritos submersos, o plancto das galáxias, a placenta do Infinito. E mais, quisera dar-te as minhas loucas carreiras à toa, por certo em premonitória busca de teus braços, e a vontade de grimpar tudo de alto, e transpor tudo de proibido, e os elásticos salt...

Edmundo, o Céptico, Cecília Meireles

          Naquele tempo, nós não sabíamos o que fosse cepticismo. Mas Edmundo era céptico. As pessoas aborreciam-se e chamavam-no de teimoso. Era uma grande injustiça e uma definição errada.      Ele queria quebrar com os dentes os caroços de ameixa, para chupar um melzinho que há lá dentro. As pessoas diziam-lhe que os caroços eram mais duros que os seus dentes. Ele quebrou os dentes com a verificação. Mas verificou. E nós todos aprendemos à sua custa. (O cepticismo também tem o seu valor!)      Disseram-lhe que, mergulhando de cabeça na pipa d’água do quintal, podia morrer afogado. Não se assustou com a idéia da morte: queria saber é se lhe diziam a verdade. E só não morreu porque o jardineiro andava perto.      Na lição de catecismo, quando lhe disseram que os sábios desprezam os bens deste mundo, ele perguntou lá do fundo da sala: “E o rei Salomão?” Foi precis...

Nordestinos em São Paulo, Aluízio Falcão.

      Leio uma publicação da ECA/USP com várias reportagens escritas por estudantes de jornalismo. O tema é a saga dos migrantes. Há depoimentos de intelectuais nordestinos residentes em São Paulo, mas principalmente daqueles anônimos viventes de periferia. Comove-me o testemunho de uma senhora que migrou em companhia da filha. Contando a estória, diz essa mãe-coragem que a sua menina, diante da miséria reinante no cafundó natal, assim propôs a retirada: "Mãe, vamos pra São Paulo, vamos lutar na vida". Não me lembro, em prosa brasileira, de registro mais bonito para o verbo lutar.      A onda migratória para os grandes centros tem vários intérpretes: antropólogos, sociólogos, romancistas, e até um vereador chamado Bruno Feder, autor daquele famigerado projeto que simplesmente proibia a entrada de nordestino em São Paulo. Muito já se analisou e escreveu, para o bem e para o mal, sobre os personagens desta humilhante diáspora. Nenhum intérprete do fen...

Cuidar dos Pais, Valter Hugo Mãe

 Minha mãe é a minha filha. Preciso de lhe dizer que chega de bolo de chocolate, chega de café ou de andar à pressa. Vai engordar, vai ficar eléctrica, vai começar a doer-lhe a perna esquerda.      Cuido dos seus mimos. Gosto de lhe oferecer uma carteira nova e presto muita atenção aos lenços bonitos que ela deita ao pescoço e lhe dão um ar floral, vivo, uma espécie de elemento líquido que lhe refresca a idade. Escolho apenas cores claras, vivas. Zango-me com as moças das lojas que discursam acerca do adequado para a idade. Recuso essas convenções que enlutam os mais velhos. A minha mãe, que é a minha filha, fica bem de branco, vermelho, gosto de a ver de amarelo-torrado, um azul de céu ou verde. Algumas lojas conhecem-me. Mostram-me as novidades. Encontro pessoas que sentem uma alegria bonita em me ajudar. Aniversários ou Natal, a Primavera ou só um fim-de-semana fora, servem para que me lembre de trazer um presente. Pais e filhos são perfeitos para presentes. ...

O Intérprete, Moacyr Scliar

                                           Sou recebido pela empregada que, em silêncio, me conduz à sala de jantar. J á estão sentados à mesa, o pai, a mãe,o filho. Mas ainda não começaram a refeição; esperam-me. Estou atrasado. Como não tenho carro, vim a pé, demorei-me.     À minha chegada, erguem-se vivamente a cabeças. A do pai, grisalha. A da mãe, grisalha também, apesar da tintura. E a do rapaz, raspada ( é, pelo que sei, uma forma de protesto). Os óculos - os três usam - cintilam à luz das fortes lâmpadas, ocultando os olhos e a expressão neles existente, qualquer que seja: raiva, ou medo, ou mágoa, ou mesmo esperança.    Levantam-se, o pai e a mãe; vêm ao meu encontro. Trocamos cumprimentos e comentários sobre o tempo. - O inverno está terríve...

Fechou a Janela e Foi Corrigir Provas, Carmem Vieira

             Chegara tão silencioso que, quando Guardia abriu o quarto, já o viu de cuecas a colocar o pijama. Sobre a cômoda um pacote amarrado com uma fita azul, temia, falava por si, olhava para o chão. A matemática de Osvaldo sobre a cama, um maço de provas e um lápis vermelho preso por um elástico na maçaroca de papéis. Vestiu-se completamente. Acendeu o cigarro e caminhou em direção à mulher que estava à porta segurando um pedaço de linho, agulha e alguns desenhos. Tudo branco. Um raminho de flores.      - A janta está pronta?      - Todos já estão na sala. Esperam-lhe.      -Todos, Joaquim já chegou de escola? Escolástica?      Descobrira Pessoa, Madame Bovary junto a uns figurinos debaixo da cama. Reclamara e veio a promessa de que toda leitura passaria primeiro por suas mãos. Nunca mais vira poesias   e rom...

Papagaio Congelado, Ricardo Azevedo

Um dia, um sujeito ganhou de presente um papagaio. O bicho era uma praga. Não demorou muito, logo se espalhou pela casa. Atendia telefone. Gritava e falava sozinho nas horas mais inesperadas. Dava palpite nas conversas dos outros. Discutia futebol. Fumava charuto. Pedia café, tomava, cuspia, arregalava os olhos, esparramava semente de girassol e cocô por todo lado, gargalhava e ainda gritava para o dono de casa: "Ô seu doutor, vê se não torra faz favor!" Uma noite, a família recebeu uma visita para jantar. O papagaio não gostou da cara do visitante e berrou: "Vai embora, ratazana!" e começou a falar cada palavrão cabeludo que dava medo. Depois que a visita foi embora, o dono da casa foi até o poleiro. Estava furioso: — Seu mal-educado, sem-vergonha de uma figa! Estou cheio! Agora você vai ver o que é bom pra tosse. Agarrou o papagaio pelo cangote e atirou dentro da geladeira: — Vai passar a noite aí de castigo! Depois, fech...

Tarde de Domingo, Ana Paula Corradini

      Seis pratos sobre a pia. Cinco vazios, um ainda com lasanha à bolonhesa. Um filho que não gosta de lasanha à bolonhesa. Zero filhos para tirar o resto da mesa. Uma mãe de mãos ásperas, um pai de dedos ágeis. Um controle remoto. Zero sobremesas. Quatro reclamações. Um filho que não gosta de sobremesa. Dez dedos indicadores, um controle remoto. Cinquenta programas simultâneos na TV a cabo. Cinco opiniões, dois safanões, um grito vindo da cozinha. Quatro silêncios e uma bateção de porta. Um filme, quatro sorrisos. Um choro abafado no banheiro. Uma palavra doce de mãe. Seis pratos lavados, doze talheres guardados, uma caçarola areada. Duas mãos em repouso. Cinco lugares ocupados. Uma poltrona vaga. Uma birrinha no canto da sala. Um colo. Duas lágrimas já enxutas. Um ressonar, dois ressonares, três... Cinco roncos. Dois olhos bem abertos. Um bico desse tamanho.

Academia Brasileira de História em Quadrinhos.

                                                   Pensa que é brincadeira?  De jeito nenhum! Seguindo os moldes da tradicional Academia Brasileira de Letras, foi criada no dia 30 de janeiro a ABRHQ.     Como é organizada?     Tem 20 membros: cartunistas, desenhistas e historiadores que foram diplomados: Francisco Ferreth, Johnny Simões Fonseca, Carlos Felipe de Souza Oliveira, Helio Guerra; Fernando Resky, Sérgio Pereira Lima, Agata Desmond, Flávio Collin Filho, Rodrigo Somcin Gonzalez, Ranieri Andrade, Lincoln Augusto Nery de Hollanda Oliveira, Carlos Eugênio Baptista, Fabio Moraes, André Aurnheimer, Carlos Alberto de Carvalho, Fernando Jorge Silva,...

Aniversariantes de maio (5) Lima Barreto

Queixa de defunto      Antônio da Conceição, natural desta cidade, residente que foi em vida, a Boca do Mato, no Méier, onde acaba de morrer, por meios que não posso tornar público, mandou-me a carta abaixo que é endereçada ao prefeito. Ei-la:      Ilustríssimo e Excelentíssimo Senhor Doutor Prefeito do Distrito Federal. Sou um pobre homem que em vida nunca deu trabalho às autoridades públicas nem a elas fez reclamação alguma. Nunca exerci ou pretendi exercer isso que se chama os direitos sagrados de cidadão. Nasci, vivi e morri modestamente, julgando sempre que o meu único dever era ser lustrador de móveis e admitir que os outros os tivessem para eu lustrar e eu não.      Não fui republicano, não fui florianista, não fui custodista, não fui hermista, não me meti em greves, nem em cousa alguma de reivindicações e revoltas; mas morri na santa paz do Senhor quase sem pecados e sem agonia.      Toda a minha vida de priva...

Crônica cantada: Salve-se Quem Puder

Salve-se Quem Puder Dominguinhos e Fausto Nilo A gente faz o amor Só não desfaz o rancor Não chore se eu disser Você não quis quando eu quis Agora quer ser feliz Do jeito que o diabo quer Eu já cansei de esperar Olhando o tempo passar Não quero mais sofrer Agora já é depois Sorrimos juntos nós dois Podemos esquecer Indecisão nunca mais O tempo não satisfaz A quem não sabe o que quer Você foi tudo, meu Deus Mas seu demônio sou eu E salve-se quem puder

Morro de Inveja dos Cronistas, Regina Porto

    Maçada fenomenal  e  acabei de ler Feliz Por Nada, na sala de espera do médico.  Se eu tivesse a habilidade da autora, daquela tarde teria feito uma crônica. Iria imaginar, o que levou cada paciente a aguardar mais de duas horas para ser atendido, se não foi a  vontade de validar o nome paciente, com que são consideradas cada pessoa que pacientemente espera...      Talvez pudesse inventar que o médico da sala 2, fosse cliente ( não paciente porque esse não espera) do médico da sala 1 onde vou ser atendida.  E como seria essa consulta?  O  mais novo explicando ao de cabelos branquinhos o que este já sabe e que aprendeu primeiro...      A moça que faz os eletrocardiogramas, afere  pressão, peso, altura e mede a circunferência da cintura comentou sobre o Ronaldinho, fenômeno: tem 107cm de circunferência e  tenta perder peso no programa domingueiro Fantástico. - Ela falou por f...